Arte. Sem a arte eu não iria muito longe, assim como a
humanidade. Não haveria muitas razões pelas quais eu poderia suportar os dias.
Não é à toa que a maior parte do meu tempo era dedicada a consumi-la de algum
modo. Literatura, cinema, música, fotografia e até, filosoficamente, a
observação existencial a qual acredito deva ser incluída no conceito de arte.
Garanti uma nova leitura da vida, passei a enxergar todos os lugares com outros
olhares, antes inexistentes. Agora, distanciava-me de tudo que não abrangesse
meu novo ciclo social. Era uma tendência que começava a vigorar espontaneamente
em meus dias. Como a poeira que vai encobrindo a persiana e tecendo sobre ela
uma leve camada até tomar toda sua superfície; a felicidade se aproximou da
forma mais discreta e absorta possível, e se apossou de mim.
A verdade é que as longas horas no banheiro me traziam certa
alegria; gostava da sensação de limpeza e contraste na minha pele clara com os
fios negros da minha barba espessa ao retocá-la com a lâmina, revelando pelo choque
da água ao retirar toda a espuma, um rosto alinhado. No entanto, de havia um
pensamento que não dissipava da minha mente vinha de um dos filmes de Woody
Allen. Meia Noite em Paris trazia inconsolavelmente
a revelação do meu apego ao passado. A vida, para nós, era insatisfatória e,
portanto, buscávamos sempre outra época, que não a nossa, para compensar essa
imperfeição existencial.

