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Sobre noites insólitas [5]

Foto: Reprodução

Arte. Sem a arte eu não iria muito longe, assim como a humanidade. Não haveria muitas razões pelas quais eu poderia suportar os dias. Não é à toa que a maior parte do meu tempo era dedicada a consumi-la de algum modo. Literatura, cinema, música, fotografia e até, filosoficamente, a observação existencial a qual acredito deva ser incluída no conceito de arte. Garanti uma nova leitura da vida, passei a enxergar todos os lugares com outros olhares, antes inexistentes. Agora, distanciava-me de tudo que não abrangesse meu novo ciclo social. Era uma tendência que começava a vigorar espontaneamente em meus dias. Como a poeira que vai encobrindo a persiana e tecendo sobre ela uma leve camada até tomar toda sua superfície; a felicidade se aproximou da forma mais discreta e absorta possível, e se apossou de mim.

A verdade é que as longas horas no banheiro me traziam certa alegria; gostava da sensação de limpeza e contraste na minha pele clara com os fios negros da minha barba espessa ao retocá-la com a lâmina, revelando pelo choque da água ao retirar toda a espuma, um rosto alinhado. No entanto, de havia um pensamento que não dissipava da minha mente vinha de um dos filmes de Woody Allen. Meia Noite em Paris trazia inconsolavelmente a revelação do meu apego ao passado. A vida, para nós, era insatisfatória e, portanto, buscávamos sempre outra época, que não a nossa, para compensar essa imperfeição existencial.