A cada dia que passa é mais difícil encontrar alguém que me
encante. Que me faça achar graça no mundo. E, por enquanto, você tem sido a
única pessoa que restou em minha vida. Você já deve saber que eu ando pensando
em deixar tudo para trás e recomeçar novamente, sem a chance de olhar sobre os
ombros.
A natureza, os desafios mundo afora, a estranha sensação que
toma meu corpo e me impulsiona a viver diferentes experiências, ultimamente,
tem sido mais interessante do que tudo que me cerca aqui. Eu tenho pensado em
escolher outro lugar para viver...
Tudo neste lugar – as pessoas, as músicas, as vozes, o andar
do tempo – às vezes, parece não combinar muito comigo. Muitas vezes me sinto
perdido...
Eu tenho pensado em nós também (ou apenas em você), e
ninguém pode imaginar o que se passa pela minha cabeça quando isso acontece.
Oscar Wilde me chamaria de egoísta pelo simples fato de não conseguir aceitar o
seu jeito, a maneira de como você se porta e realmente é. É que eu sempre
imagino você de uma forma minha, um tanto particular, de um jeito que eu queria
que você fosse.
Um dia me peguei imaginando nós dois sorrindo depois de
acordarmos, no fim de tarde de algum verão desta década. A verdade é que eu
queria você só para mim. Então, quando me deparo com a realidade e embaraço com
fatos que não sei lidar, tenho vontade de deixar tudo para trás. Algumas vezes
eu imagino abandonar tudo mesmo.
Cheguei à conclusão de que, se fosse me dada a chance de
desligar em mim o botão que ativa todas as minhas sentimentalidades, assim o
faria. Nunca foi tão confuso e ridículo sofrer por amor. Eu, teoricamente, sou
alguém bem resolvido enquanto a essas questões. Eu sou tão decidido a ponto de
puxar a tomada ligada em mim se algo muito indesejado que possa me lançar
novamente no fundo do poço ameaçar a acontecer.
Já percebeu que sempre sou eu quem tem que pensar por todos?
Sinceramente, sinto que você não faz muito por nós. Espero que isso seja um
grande equívoco meu e que você acredite em algo como a força do destino.
Eu nunca me contentei com o que não havia sonhado ou
desejado para mim. E, talvez, seja por isso que não seja tão corriqueiro me
encontrar por ai, como os outros que se contentaram com tão pouco.
Não é que eu não acredite em finais felizes. É que finais
felizes para mim possam não ser mais terminar a vida ao lado de alguém com quem
eu sempre sonhei. Já faz algum tempo que eu ando acreditando nessa hipótese!
Mas, a verdade, é que eu nunca aceito.
Algumas vezes, à noite, antes de dormir ou mesmo quando
acordo, eu chego a pensar o que você acha de mim quando está só você e seus
pensamentos. Eu tenho visto o mar no inverno debaixo de cobertores e lido por
horas seguidas. Isso nunca fez tanto sentido quanto tem feito agora. Às vezes,
me faz esquecer muitas coisas que me atormentam, e isso me traz um pouco de
tranquilidade.
Eu ainda não estou certo de que te enviarei esta carta.
Talvez, você nunca chegue a ler o que eu escrevi.

