E todo dia e toda noite tem sido a mesma coisa. Quarto
escuro, janela aberta, olhar de esguelha para a lua cheia, iluminando o céu
escuro, entre nuvens densas e maliciosas, e um turbilhão de pensamentos que me
toma em meio à madrugada quente deste lugar.
Antes eu fosse morar em Berlim – ou em Amsterdã – mas nada
disso faria sentido agora e, possivelmente, eu não estaria narrando esta minha
história. O que eu consigo ver deve ser escrito neste momento, exatamente de onde
estou. Sem nenhuma questão a ser levantada, a não ser pelos desejos que me
assombram no meio da noite. Coisas de gente obcecada, incorrigível – teimosia
pura.
Eu me viro, reviro, e o suor encharca meus cabelos na nuca.
Levanto, tiro quase toda a roupa. Insisto em acreditar que um copo d’água bem gelada,
acompanhadas de alguns cubos de gelo, será suficiente para me trazer
tranquilidade e uma boa noite de sono.
Deito-me novamente acreditando que desta vez eu vá dormir
sem nenhum pensamento a me torturar. Fecho os olhos tentando não pensar em
pele, cheiro ou voz. Três segundos se passam e é o suficiente para eu acreditar
que consegui algo, almejei algum sucesso com aqueles goles congelantes goela
abaixo. Outros quatro segundo se rompem e descubro, naquele exato instante, que
fracassei. Acabo de saber que fui invadido por uma vontade desesperadora de
viver tudo aquilo que mora em meus sonhos, antes de eu cair no sono, terrível
isso, não?
O amor e suas torturas. O preço alto que seu peito tem que
pagar por manter aceso o mais caro e nobre sentimento humano. Incompreensível
isso. Não me lembro de ter pedido a nenhum deus para me entregar de corpo, alma
e bem-querer. Sim, eu cuidaria dele pelo resto da minha vida. Eu o amo antes de
qualquer impressão que venha a ter aqui. De um jeito ou de outro, eu o quero
bem, mas muito bem.
Aqueles olhos oblíquos me dão a certeza de uma ameaça
iminente a meu coração previsível. Aquele toque que lança sobre meu braço um
convite, aquela voz, aquele cheiro de corpo pedinte. Aquele suor que é mais
alquimia do que qualquer outra coisa que existe neste mundo. O fim da trégua
que não tem hora para cessar [...]. Calafrios quentes em intervalos com
arrepios! Palavras não pronunciadas, ausência de culpa, desespero, coragem e a
falta dela. Eu me perdi em você. Mas, nós sempre ficamos bem no fim de algum
parágrafo da vida. Eu tenho a impressão que será assim para sempre, e para
sempre, e para sempre...
Um closet de nossas mãos cruzadas, alinhadas ao tempo, é
capturado pela câmera do meu pensamento. Todo verão é a mesma coisa, e isto já está
me dando nos nervos. Eu quero paz, porque eu já me cansei de ser o último a
saber de ti.
Até ousaria a querer dançar com outro par. Mas, aí, vem
você. Puxa-me e me lembra de que temos algumas horas eternas pela frente [...].
Já se passaram 40 minutos desde que comecei a lembra disso tudo, minha cama já
está quente, e o sono parece estar tão distante quanto você. Nem penso em te
enviar mensagem pelo celular, isso só funciona em filme romanesco. Nunca deu
certo comigo na vida real.
Depois de quase 55 minutos, bocejo pela primeira vez. Você
desaparece dos meus pensamentos, assim como tem feito da minha vida e enxergo
um sentimento já antes muito conhecido pelo meu travesseiro. É uma espécie de
amor incondicional que me traz paz. A noite já ficou mais fria. As nuvens se
dissiparam e meus olhos já não conseguem mais ficarem abertos.

