Como veterano nas coberturas de grandes festivais, Will Assunção usufrui de alguns privilégios conquistados, sobretudo, depois de anos aprendendo a sobreviver a incontáveis perrengues que fazem parte da rotina de quem trabalha com jornalismo. Um deles é poder escolher como quer contar uma história. Gravar? Montar um esquema que envolve câmera, microfone, roteiro, iluminação e uma sucessão de takes para as redes sociais? Ou simplesmente se dedicar à fotografia e ao texto? Nas últimas edições do Festival de Inverno Bahia, ele tem escolhido a última opção: escrever diretamente do evento e publicar os textos no site.

“Tenho pavor daqueles microfones que são segurados com dois dedos e daquela linguagem informal de influencer de Instagram. Passo longe disso. Gosto mesmo é do bom texto, da fotografia que conta uma história e de um microfone que garanta um áudio digno do nosso trabalho. Nas últimas edições do festival, investi em textos com análises leves e contemplativas. No momento, não gravo. Exige uma parafernália e uma equipe que eu não quero assumir por enquanto. Prefiro escrever, fotografar e observar.”

Há também uma espécie de liberdade que só o tempo de profissão proporciona: a de entender que nem tudo precisa ser transformado em vídeo. Em um ambiente cada vez mais dominado pela urgência das redes sociais, Assunção parece interessado em preservar justamente aquilo que o jornalismo cultural tem de mais antigo: a capacidade de olhar, interpretar e escrever. Entre um show e outro, enquanto outros profissionais correm atrás do próximo take, ele prefere a tela do computador, a câmera e o caderno mental de impressões que depois se transforma em texto.

MINHA MELHOR FONTE

“Minha melhor fonte se chama Breno Santana. Não sei absolutamente nada sobre muitos artistas novos. Gosto do que o grande público não costuma consumir. Por isso, ele é a minha melhor fonte. Breno me abastece de informações sobre os novos projetos de artistas que atualmente fazem sucesso entre o grande público e também sobre o que devo perguntar para quem eu não conheço e está no line-up do festival. Há muitos artistas de quem nunca ouvi falar e que nunca ouvi no Spotify”, revela Assunção.

A parceria funciona quase como uma central informal de inteligência musical. Enquanto um chega com a experiência de quem acompanha o jornalismo e a música há anos, o outro funciona como uma espécie de radar para aquilo que está acontecendo agora. É uma divisão de tarefas involuntária, mas bastante eficiente: Breno apresenta os nomes, os contextos e as novidades; Assunção transforma as informações em perguntas, observações e, eventualmente, alguma boa história.

“Mas, no fim, acaba dando certo. A gente sai da sala de imprensa dando risada da situação, porque não há como não correr o risco de cometer uma gafe”, comenta Assunção. E talvez esteja aí uma das pequenas verdades dos grandes festivais: ninguém conhece tudo. Há sempre um artista novo, uma música que nunca foi ouvida, uma história que passou despercebida. O segredo é perguntar e uma boa fonte por perto para evitar que a pergunta comece com “eu nunca ouvi falar de você”.

BETHÂNIA TENTA DISFARÇAR, MAS NÃO CONSEGUE

Bethânia entrou no palco soberana, sóbria, quase austera. Há nela uma consciência absoluta da própria presença cênica: não precisa correr, explicar ou disputar atenção. Basta estar. Mas, por mais que tente manter a solenidade de quem domina cada gesto e cada palavra, Maria Bethânia não consegue esconder completamente o que acontece quando as lembranças atravessam o repertório.

Em determinados momentos, o rosto muda, o tom da voz ganha outra temperatura e a artista deixa escapar algo que não estava previsto na coreografia do espetáculo. São pequenas frestas por onde entram as memórias, as histórias vividas e a própria passagem do tempo. Bethânia pode até tentar disfarçar. Mas há coisas que o corpo (e a voz) de uma artista revela antes mesmo que ela termine de contar uma história.

NO FIM, A GENTE CELEBRA

Depois de dias de shows, entrevistas, fotografias, textos publicados quase em tempo real, chega a hora de encerrar a noite. E há um ritual. Um champanhe é estourado para celebrar mais uma cobertura concluída. Não se trata apenas de brindar ao fim do trabalho, mas à possibilidade de continuar fazendo aquilo que, apesar do cansaço, ainda provoca alguma espécie de encantamento.

Todo ano é assim. O festival termina, a cobertura termina, os arquivos são organizados, as fotografias começam a ganhar vida nas redes e os textos permanecem publicados. Por alguns minutos, porém, não há pauta, deadline ou credencial. Há apenas o brinde. Uma pequena celebração entre quem sobreviveu à maratona e sabe que, no ano seguinte, provavelmente estará de volta para viver tudo outra vez.