Eu acreditava ter idade suficiente para me considerar maduro
a ponto de já ter expurgado do peito o desejo de me apaixonar novamente. Mas me
flagrei, quando menos esperava, desejando encontrar alguém que combinasse tanto
comigo que chegasse a ser o meu oposto, se é que isso é possível.
A vontade de ter com quem dividir os meus medos e planos
mais sinceros surgiu naturalmente como surgem os pensamentos. De repente, por
algum motivo, eu queria ter outra vida por perto para compartilhar experiências
que esses dias calmos e sem perspectiva sóbria me trazem.
Nós somos humanos e padecemos de ter sentimentos estranhos.
A coisa toda era mais do que puramente biológica, suspeitava. Não era somente a
falta de outro corpo que, em situação oposta, ao despertar, me faria encostar
meus lábios em costas com uma constelação de pintas e, enfim, me acalentar do
desassossego que é sentir desejo.
Mas transcende o que deveria ser meramente carnal. Era
tangencialmente mais profundo. Eu suspeitava que essa estranheza brotasse da
minha mais primitiva natureza. Ao passo em que todas as possíveis causas dessa
vontade de dividir domingos ensolarados surgiam furtivas. Desconfiava
ligeiramente se tratar de uma estratégia do meu ego, fortalecido pela razão,
mas sempre tentado pela minha própria libido a realizar os meus desejos mais
íntimos.
No entanto, essa sensação que me assaltava os pensamentos corria
o risco de ser, intratavelmente, puro egoísmo. O que despontava figurado como
inocente ânimo em encontrar outro par na vida poderia ser facilmente uma
estratégia anônima e sorrateira para suprir de forma a atender os meus desejos inconscientes
– como o aniquilamento da minha própria solidão.
Passei, então, a duvidar com certo deboche dos fatos que se
sobrepunham a minha realidade. Na dúvida, escolhi ser filho do tempo e só
colher o que ele me trazer.
Há sempre quem prefira fazer de tudo para driblar o lado
feio da dor e canta junto à vida. Assim, eu ousei experimentar a felicidade de
peito aberto.



