Uma vez, ao trocar
farpas com meu irmão, ele disparou contra mim uma verdade: a de que eu me
entorpeço de fantasias para lidar com a realidade. Por longos segundos, as
palavras que compunham uma sentença me atingiram em cheio e reverberaram soltas
e aleatórias pela minha mente, como um turbilhão de átomos dentro do
espaço-tempo. Quando eu voltei à tona, eu respondi, questionando-o
conscientemente: o que mantém um homem a salvo de si mesmo senão as suas
próprias fantasias?
Outro questionamento
necessário para termos como mais um ponto de partida filosófico (e
existencialista) e sermos razoavelmente honestos com o tema é o de que a
fantasia equivale a uma droga alucinógena, que, assim como qualquer outro
entorpecente, pode nos tornar dependentes do seu uso. Sob quaisquer
circunstâncias, eu admito que sempre administrei doses cavalares do seu uso. Eu
sou um viciado em fantasias. Não me recordo quando me tornei um usuário
consciente, mas é na infância que nos é servida homeopaticamente as primeiras
dosagens de uma droga psicotrópica que nos alivia a alma. Acredito na teoria de
que a fantasia seja inata, ou seja, ela já nasce com a gente, tomando como uma
espécie de “fantasia primitiva”. Intrinsecamente ligada ao ego, as fantasias
produzidas pelo nosso consciente (e inconsciente) nada mais são do que a
representação dos nossos desejos de superarmos uma realidade pouco lustrosa e
digestiva.
Tendenciamos sempre a
criar personagens para suprir necessidades sociais, toda vez que nos deparamos
com qualquer realidade que nos é austera e frustrante. Ora sou um aristocrata
esnobe, agonizando na voragem do século, ao me deparar com um sistema já em
decadência. Ora sou um guerreiro viking que não teme a própria morte. Mas
outrora, já fui também um justiceiro, um cavaleiro das trevas, e já incorporei
um vingador maníaco. Quando em vez, busco a capa de um velho sábio, o trono de
um deus nórdico e as próprias mazelas de um editor de meia idade que vira a
noite numa redação de um periódico impresso em uma cidade caótica.
É bem possível que eu
recorro a fantasias para fugir de uma realidade intratável e muitas vezes
indesejada. Não raramente, busco outras épocas para me abrigar. Para entender o
que eu tenho dito, basta buscar Woody Allen e digerir com muita poesia a
teoria, ilustrada em “Meia Noite em Paris”, de que ao buscarmos outros tempos
no passado, revelamos nossa insatisfação pelo que temos vivido no presente.
Uma descoberta, talvez
de Nietzsche, afirma que o homem tem a arte para não morrer da verdade. Afinal,
para alguns, sofrer emocionalmente é sempre uma situação muito difícil de
lidar. E justamente por conta disso é que recorremos a músicas, livros, filmes ou
outras representações artística para aliviar a dor que sentimos nestes momentos
de estranhezas.
A vida parece ficar
mais fácil quando incrementamos nos dias da nossa existência o que parece ser
impossível e desejado. Freud já dizia há muito tempo que ninguém é capaz de
suportar totalmente e integralmente a verdade; para constatar o que ele disse
basta olharmos as estruturas sociais vigentes no nosso tempo e perceberemos o
quanto elas têm de fantasia em suas bases. Inventamos o amor romântico, tão bem
figurado por Shakespeare, para não nos deparamos com uma realidade inexorável
que nos acomete duramente ao percebermos o quanto somos sós.
O medo da solidão
também nos obrigou a buscar o conforto no pensamento de não estarmos
desamparados no universo e a ideia de vida eterna, ambos oferecidos pelas
religiões. A fé religiosa equivale a uma muleta, já que a realidade é um fardo
árduo. As pessoas com bases filosóficas religiosas transferem a dependência e a
confiança infantil no pai biológico para um pai que lhe garanta segurança e
conforto; em troca, surge a recompensa da imortalidade em um lugar livre de
quaisquer sofrimentos. Quantas vezes já tentamos imaginar como deve ser o
paraíso? Deus pode ser entendido meramente como a projeção de um desejo infantil
nosso de estar sob a proteção de um pai, ao mesmo passo em que Freud considera
a crença em deuses algo intelectualmente ingênuo.
Outra teoria que
ganhou força com Jung é a de que as fantasias são capazes de preencher o vazio
existencial que existe em nós: a angústia natural do ser humano quanto a sua
própria existência. Assim, como diversas substâncias que nos ajudam a lidar
melhor com as intempéries da vida, a fantasia consegue agir da mesma forma na
nossa mente. Não há segredo nenhum: temos que sabermos dosar, buscando o
equilíbrio e permitindo que sempre que precisarmos fugir da nossa realidade,
basta ousar estender a mão para uma possível carona do imaginável.

