É uma opção perigosa, admito. Mas pode ser algo libertador.
Fui (ou sou?) um dramático desde que me entendo como
personagem da vida. Quando criança, qualquer birra era motivo para me deitar no
chão de braços abertos e sentir o amargo como sentença de ser alguém
temperamental. Na adolescência, tudo ficou mais evidente quando me descobri um
existencialista dramático. Questionava a todo o tempo o próprio sentido das
coisas, da engrenagem da vida e como ela engendra e envolve outras pessoas.
Desde então, procurava enxergar tão profundamente a minha existência que olhava
ao meu redor e via que ninguém me acompanhava: o meu único companheiro era o
tempo. Era um drama só.
Ser dramático definitivamente não é para qualquer um. Ser um
dramático existencialista, então, é padecer duplamente de um privilégio às
avessas. Desde a implicância ad eternum
com a nossa mãe ao fazer questão de viajar no banco da frente após ter perdido
o lugar para o irmão mais novo à dramática dor de cotovelo por ter perdido o
amor da adolescência para alguém que julgávamos pouco merecedor. São todos
sinais de que assumimos uma personalidade repleta de conflitos
existencialistas. O drama na vida de alguns de nós é inevitável e pode durar
muito tempo. Eu sofria por questões tão simples que alguém que não fosse
dramático, seria incapaz de sentir na própria pele o mínimo de dor, sentida em
uma intensidade descomunal por mim, mesmo se quisesse.
O drama requer muito mais do que inspiração e dedicação de
uma visão de vida particular, ele propõe uma sensibilidade emocional. É aquela
coisa: tem que sentir as próprias dores antes de tudo. Viver um drama na vida é
muitas vezes abdicar da alegria da praticidade para seguir sob o peso de uma
leitura particular dos fatos. O dramático é alguém intenso por excelência.
A decisão de abandonar o perfil dramático veio depois de me
ver cansado diante de episódios que se repetiam numa dura existência que perdeu
o brilho do ineditismo. Histórias de amor, juras de amizades eternas, momentos
imortalizados e tantos outros amiúdes que viraram pó de estrela rumo ao
esquecimento.
As minhas histórias sempre possuíam o mesmo enredo com
diferentes personagens. Descobri que todos que já haviam passado pelo meu
caminho haviam morrido em uma longa batalha de campo aberto. Mas eu era o único
que havia permanecido vivo naquelas histórias. E não estava nenhum pouco
disposto a sentir a dor existencial que um dramático ritualístico deveria carregar.
Ser trágico é inquestionavelmente mais prático. Não há
longos rituais intensos nem sofrimentos prolongados. Apenas o presente
interessa. A dor é ceifada na mesma velocidade que a lâmina rouba a vida de uma
história inacabada. Não há muito tempo para lamentos. Mortos não sentem. A
única interpretação possível era a de que nenhuma chance deveria ser
desperdiçada. O tempo é muito precioso para ser gasto com o que não nos faz
feliz. A tragédia pode ser interpretada como a dose amarga e necessária para
conquistarmos a liberdade. Há quem não concorde e veja a vida sob a perspectiva
de uma eterna belle époque.
Quem optou por esse caminho sabe que tem que encarar a
tragédia como uma música que tem início, meio e fim, como uma narrativa que
pode resultar em finais catárticos – algumas têm até finais neutros ou mesmo
dubiamente felizes, como na vida real.

