Pessoas são pessoas. Troquei de vida; queria uma nova, mas
sem ter que nascer de novo, sem precisar morrer. Então, eu renasci. Senti que a
minha única obrigação era ser sincero comigo mesmo. Já que ser sincero com o
resto do mundo era, na prática, impossível. Tive que aprender também que
pessoas são pessoas, e sempre vêm acompanhadas de medos, desejos, frustrações,
sonhos e uma porção de experiências que fazem delas quem são de verdade.
Não culpei nenhuma delas pelo o que se tornaram, mas não fiz
nenhum tipo de esforço para manter ninguém ao meu lado, perto de mim. Percebi,
então, que aqueles que permanecerem serão, de fato, os que importam. Com a
leveza dos dias, toquei a vida sem o menor ressentimento em ter abandonado meu
lado fraternal, de irmão mais velho, de amigo atencioso.
Sem lastimar, me despedi de um sonho que se tornara cada vez
mais pesado, mais custoso. O desejo de tentar mantê-lo comigo, de controlar o
destino. A vida alheia me consumia a ponto de deixar minha neurose incontrolável.
Abandonei de vez esse comportamento. E com eles foram também parte da paixão
dispendiosa a qual nutria.
Não dá para mudar sem ter que se livrar de algumas coisas
que você acreditava serem essenciais em sua vida. A primeira sensação foi de
perda, de desistência. Minha consciência se esforçava para me provar que o que
eu fiz foi apenas seguir os passos da maturidade e do equilíbrio. Depois de
algum tempo, fiquei tão tranquilo que me vi livre do meu maior tormento e, ao
mesmo momento, do meu maior desejo; o mais espantoso é que ele era uma pessoa.
Ao passo que me distanciava do que me causava um tormento,
percebia também que eu parava de procurar monstros embaixo da cama, pois notei que
eles, na verdade, estavam mesmo dentro de mim.

