Foto: Gulliver Ribeiro/JUP
Tudo começou como sintomas de uma iminente solidão. Deparei,
sem a menor esperança, com a minha própria sombra, única companhia que poderia
acalentar meus desejos que brotavam naquelas noites insólitas de lua cheia e
céu limpo.
Aqueles eram dias tórridos para a minha alma, secos para
meus lábios e vazios para meus olhos. Não havia mais a pele nem sequer alguma
perspectiva para o surgimento de uma nova; não havia cheiro nem voz. A presença
daquele corpo que pressionava contra meus lábios havia dissipada, se
transformado em mera lembrança dos meus anos. Algo dentro de mim havia se
apagado, perdido a força, pois desde então tornei, como costume, perder
recordações diante de cada passo.
Não havia mais nada. Eu me tornei, há algum tempo, um homem
cético, sem muitas expectativas para aquele canto do mundo.
O que eu só sabia fazer era contar os dias na ponta da mesma
caneta que fazia todas as anotações em um grande calhamaço posto sobre a minha
mesa onde rabiscava lembretes para as minhas futuras pautas. A paixão pelo
ofício de editor era uma forma de não ver o tempo passar; a angústia de contar
as horas nos ponteiros pode deixar qualquer homem louco.
Não raramente, temia a misantropia, mal que talvez houvesse acometido
Nietzsche por meio do dessabor ao próximo. Naquele momento, eu havia deixado de
acreditar nas pessoas. Não sei ao certo se tinha alguma relação com a minha
aversão à humanidade, mas não fiz mais esforço para as coisas acontecerem;
recusava-me a tecer qualquer tipo de fé, embora não deixasse de acreditar no
roteiro promovido pelo destino.
Já naquelas tardes eu procurava em algum lugar a
possibilidade de me tornar parte de algum pedaço do mundo. Não havia um só dia
em que eu não pensasse em outra vida, outras manhãs, outras emoções. Deixei me
afastar de todos os que me cercavam. Eu não pretendia chamá-los de volta, a
minha atenção.
Não há destino certo que segure o que foi decidido por
vontade própria. Queria aportar longe daquelas terras que outrora me
pertenciam. Deixava tudo por aqui para ganhar um novo porto. Deslumbrava com
meus novos destinos com olhos aquiescidos de uma ambição espirituosa, como a um
de um monge guerreiro sedento por novos desbravamentos. Não poupei o tempo que
tinha em vida, pois dediquei aos prazeres que qualquer mortal da minha idade e
do meu tempo estaria disposto a usufruir.

