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Sobre noites insólitas [1]

Foto: Gulliver Ribeiro/JUP

Tudo começou como sintomas de uma iminente solidão. Deparei, sem a menor esperança, com a minha própria sombra, única companhia que poderia acalentar meus desejos que brotavam naquelas noites insólitas de lua cheia e céu limpo.

Aqueles eram dias tórridos para a minha alma, secos para meus lábios e vazios para meus olhos. Não havia mais a pele, nem sequer alguma perspectiva para o surgimento de uma nova; não havia cheiro nem voz. A presença daquele corpo que pressionava contra meus lábios havia dissipada, se transformado em mera lembrança dos meus anos. Algo dentro de mim havia se apagado, perdido a força, pois desde então tornei, como costume, perder recordações diante de cada passo.

Não havia mais nada. Eu me tornei, há algum tempo, um homem cético, sem muitas expectativas para aquele canto do mundo.

O que eu só sabia fazer era contar os dias na ponta da mesma caneta que fazia todas as anotações em um grande calhamaço posto sobre a minha mesa onde rabiscava lembretes para as minhas futuras pautas. A paixão pelo ofício de editor era uma forma de não ver o tempo passar; a angústia de contar as horas nos ponteiros pode deixar qualquer homem louco.

Não raramente, temia a misantropia, mal que talvez houvesse acometido Nietzsche por meio do dessabor ao próximo. Naquele momento, eu havia deixado de acreditar nas pessoas. Não sei ao certo se tinha alguma relação com a minha aversão à humanidade, mas não fiz mais esforço para as coisas acontecerem; recusava-me a tecer qualquer tipo de fé, embora não deixasse de acreditar no roteiro promovido pelo destino.

Já naquelas tardes eu procurava em algum lugar a possibilidade de me tornar parte de algum pedaço do mundo. Não havia um só dia em que eu não pensasse em outra vida, outras manhãs, outras emoções. Deixei me afastar de todos os que me cercavam. Eu não pretendia chamá-los de volta, a minha atenção.

Não há destino certo que segure o que foi decidido por vontade própria. Queria aportar longe daquelas terras que outrora me pertenciam. Deixava tudo por aqui para ganhar um novo porto. Deslumbrava com meus novos destinos com olhos aquiescidos de uma ambição espirituosa, como a um de um monge guerreiro sedento por novos desbravamentos. Não poupei o tempo que tinha em vida, pois dediquei aos prazeres que qualquer mortal da minha idade e do meu tempo estaria disposto a usufruir.