Foto: Folhapress
Como afirmou uma publicação do próprio Observatório da
Imprensa, nesta semana, existem muitas razões para homenagear o jornalista
Alberto Dines, que morreu na manhã da última terça-feira (22). Dines ajudou a
modernizar o jornalismo brasileiro no século 20, insistiu em rigorosos padrões
de qualidade para as redações e foi, sem dúvida, o pai da crítica de mídia no
país. Esses três predicados já o colocariam em qualquer panteão dos maiores
jornalistas do nosso tempo, mas Dines não se orientava por esse tipo de vaidade
e nunca parava de trabalhar. O resultado foi uma vida plena, intensa e uma obra
respeitável, materializada em livros.
O último adeus ao
jornalismo romântico
Não é exagero dizer que nos despedimos do último dos últimos
românticos que dedicou a vida à boa prática do jornalismo diário e a observar à
mídia não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Também não há nenhum excesso nas
palavras, quando nós da Jussi Up
afirmamos com plena convicção de que o periodista observador foi o nosso maior
professor. Para todos nós, Alberto Dines foi um verdadeiro mestre.
O que aprendemos de mais valoroso no jornalismo tem uma
porção dos ensinamentos de Alberto Dines, que deixou, acredito deu, como o maior
legado da sua carreira o Observatório da Imprensa. O próprio Dines afirmava que
“uma das razões por termos escolhido o termo Observatório da Imprensa foi a
inspiração do pensamento de um importante físico alemão, Werner Heisenberg
(1901-1976), o criador da mecânica quântica. Ele dizia que, ao observar um
fenômeno, você interfere no fenômeno. Ao observar a imprensa, você interfere
nela, sem mandar, sem controlar”.
Ficamos órfãos do jornalismo
sensato
As frases abaixo foram retiradas de alguns dos artigos
escritos por Alberto Dines nos 22 anos do Observatório da Imprensa. Os textos
integram o ebook “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de mídia
no Brasil de 1996 a 2018”, organizado pelos jornalistas Pedro Varoni e Lucy
Oliveira e lançado em abril, durante evento comemorativo no Laboratório de
Estudos Avançados de Jornalismo (Labjor) na Unicamp, em Campinas.
As reflexões de Dines soam atuais, principalmente porque
alguns problemas crônicos do jornalismo brasileiro não só permanecem como se
agravaram.
1. A supremacia do marketing hoje
imperante na mídia constitui uma das grandes ameaças à própria lisura com que é
praticado o jornalismo. O sensacionalismo exacerbado é uma destas ameaças,
oriunda do empenho em vender mais exemplares sem atentar para a qualidade e o
compromisso com a veracidade da informação. (20/12/1996).
2. Estamos assistindo a um processo de
degradação jornalística sem paralelo em nossa história. Com a cumplicidade dos
jornalistas-executivos, aqueles que nos seminários idolatram os leitores, mas,
no dia-a-dia, massacram suas necessidades informativas e culturais mais
elementares. Pensam que estão apenas enterrando uma fase na vida da nossa
imprensa. Estão enterrando a própria noção de imprensa quando imaginam que se
pode fazer jornalismo sem jornalistas. (01/4/1996).
3. O presidente da República na
comemoração dos 50 anos de publicação de “Geografia da Fome”, de Josué de
Castro. Versão da Folha de S.Paulo: “Presidente diz que Estado não foi feito
para atender aos pobres”. Versão do Estadão: “Presidente diz que Estado só
atende aos ricos”. No primeiro caso está contida uma advertência aos pobres – o
Estado não é para eles. No segundo, uma crítica aos ricos – apossaram-se do
Estado. O que é que o presidente da República efetivamente disse? (20/10/1996).
4. O jornalismo pátrio hoje é basicamente
reativo. Da política à cultura, passando pela economia. E o recurso mais
efetivo faz-se fora do jornalismo – com pesquisas apressadas, metodologicamente
levianas, concebidas e realizadas por profissionais que obedecem a uma ética diametralmente
oposta à dos jornalistas. (20/11/1997).
5. A cobertura da morte do cantor country
Leandro evidencia e confirma uma realidade: nossa imprensa tornou-se
irremediavelmente monotemática e monocórdia. A combinação da notícia-espetáculo
com a cobertura saturada e intensiva desenvolvidas num ambiente onde impera o
mimetismo e se abomina a diversificação está criando uma das mais gritantes
distorções do nosso processo informativo. (05/7/1998).
6. O que existe, sim, em nossa mídia, é
uma confraria às avessas, processo inconsciente de imantação para ocultar as
falhas, deficiências e vícios de um sistema que já foi incomparavelmente melhor
e hoje está perigosamente comprometido. (05/2/1998).
7. Essa verdadeira iconofilia começou com
a ideia simplória e estúpida de que uma ilustração vale mil palavras. Repetida ad nauseam pelos que não sabem escrever
ou têm medo das palavras. Evidencia-se o contrário: uma palavra, desde que
adequada, desmoraliza qualquer imagem manipulada. (20/1/1999).
8. As grandes empresas de mídia
brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder,
mesmo que social ou público. As grandes empresas de mídia brasileiras não
querem que o seu formidável poder de indução seja sequer arguido. As grandes
empresas de mídia brasileiras estão na contramão do processo democrático
baseado na equação poder-e-contrapoder. (20/9/2000).
9. Os 100 líderes comunitários das
favelas cariocas assassinados nos últimos anos mereciam reportagens menos
burocráticas do que as publicadas na última semana. Os favelados onde atuavam
os conheciam. Mas o resto da sociedade precisa conhecer esses 100 caídos: gente
simples, incapaz de teorizar, disposta a melhorar o mundo com o seu exemplo.
(26/6/2002).
10. O jornalismo fiteiro consiste na
transcrição pura e simples de grampos (legais ou ilegais), fitas (em áudio ou vídeo)
e dossiês, entregues por “fontes secretas” a um jornalista (ou intermediário)
desde que haja o compromisso da imediata divulgação sem recorrer a qualquer
suporte investigativo. (13/5/2008).
11. Agora é preciso convocar homens de
imprensa capazes de pensar empresarialmente – já que os homens de empresa
dificilmente conseguem converter-se em jornalistas. É preciso não perder de
vista a história: todas as empresas jornalísticas foram criadas, operadas e
ampliadas por jornalistas. Com raríssimas exceções. Está na hora de chamá-los
de volta. Esta é a oportunidade criada pela crise (17/6/2003).
12. Na Alemanha, em 1933, quando os
nazistas tiraram os disfarces e começaram a escalada de terror, os poupados
diziam “não é comigo, é com os outros”. Esta resignação e esta incapacidade de
enxergar as grandes ameaças fazem parte de um fenômeno chamado
“não-me-importismo”. Enquanto não são vítimas todos seguem suas vidas. Depois é
tarde demais. (12/2/2003).
13. Passou o tempo do jornalismo
generalista. A cobertura do Judiciário deve ser tão especializada e autônoma
quanto a cobertura econômica ou internacional. Jornais responsáveis não podem
contentar-se com os releases fornecidos pelas assessorias de imprensa dos
diferentes tribunais. Sem o charme da cobertura política, neste momento uma
judiciosa cobertura do Judiciário pode ser decisiva para o futuro do país.
(29/11/2005).
14. Galvanizada pelas pesquisas, empurrada
pelos debates televisivos, sedenta por novos escândalos e incapaz de situar-se
na grande barafunda institucional, nossa mídia está devendo à sociedade uma
cobrança rigorosa ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral
sobre o destino dos votos dados aos candidatos sem ficha limpa. Se preferirem o
prejulgamento, os fichas sujas. (19/10/2010).
15. Resta a imprensa. Fragilizada por uma
devastadora crise de identidade, pulverizada em centenas de recantos opinativos
sem qualquer expressão, visivelmente desnorteada diante de um mundo que se
transforma em todas as direções, o Quarto Poder corre atrás, desorientado, de
língua de fora, sem agenda e sem projetos, incapaz até de se mirar na passada
importância. (19/10/2010).
16. O juízo sobre a informação tornou-se
tão importante quanto a própria informação. O território da crítica expandiu-se
de forma tão extraordinária que os críticos tornaram-se criticados e a matéria
criticada tão importante quanto aquela tida como acrítica. A internet
consagrou-se imediatamente como canal alternativo para fugir dos impasses
produzidos pelos grupos de pressão na grande imprensa. (30/11/2003).
17. Quando se fala em prejulgamento da
imprensa, não se deve pensar apenas na cobertura de crimes e casos passionais.
A grande imprensa costuma exibir os seus preconceitos em outras questões,
inclusive no debate sobre mídia. Foi o caso da criação da TV Pública. Antes
mesmo de se conhecer o seu formato, os grandes grupos de mídia comercial já
manifestavam desaprovação. Foi um caso de desamor à primeira vista. Como se uma
TV Pública não fosse necessária ao próprio desenvolvimento da TV privada. (22/4/2008).
18. As elites endinheiradas não gostam de
jornais opulentos, substanciosos, preferem a sublime dramaturgia das
telenovelas, fingem que são informadas pelas mídias sociais e adoram desfolhar
revistas com as irresistíveis citações proferidas por celebridades de
shortinho. Já as empresas jornalísticas, incapazes de multiplicar talentos e há
décadas apostando em estrelas fatigadas pela rotina da submissão, começaram a
afiar bisturis e guilhotinas, ávidas para cortar custos e gorduras.
(30/11/02013).
19. Com 5.570 municípios, deveríamos
alcançar ao menos a média de um veículo jornalístico por município. O fenômeno
da concentração da imprensa não se resume ao número reduzido de grandes
empresas de comunicação e à forte tendência para a formação de oligopólios regionais.
O mais grave são os vazios, os bolsões de silêncio, as manchas cinza, ocas,
espalhadas entre as 727 ilhas do Arquipélago Gutenberg. (12/11/2013).
20. Todo Jornalismo é investigativo, ou
não é Jornalismo. Donde se conclui que o que lemos, ouvimos e vemos todos os
dias na imprensa não é Jornalismo. (27/6/2016).
No fim das contas, suspeito seriamente que o maior legado deixado por Alberto Dines, além do Observatório da Imprensa, tenha sido o modo de observar, de entender, te interagir e reagir à mídia do nosso tempo. Afinal, depois dele, nós nunca mais lemos jornal do mesmo jeito.
No fim das contas, suspeito seriamente que o maior legado deixado por Alberto Dines, além do Observatório da Imprensa, tenha sido o modo de observar, de entender, te interagir e reagir à mídia do nosso tempo. Afinal, depois dele, nós nunca mais lemos jornal do mesmo jeito.
Grande abraço
Will Assunção
Editor-chefe

