Will
Assunção
Nenhum deles
presta, logo todos são comprados. Só se fala bem, só se fala mal. Nunca fez
nada. Todos são ladrões. A mais simples e
superficial análise sobre as afirmações anteriores pode constatar o quanto a generalização
é a fuga mais costumaz de quem não tem conhecimento sobre determinado assunto. Ao
tratarmos dos escândalos na política, dos números da economia, das várias formas
da cultura se manifestar, do modo como nos dedicamos à religião ou mesmo como lidamos
com o pensamento filosófico, notamos que alegações genéricas costumam sempre apelar à falácia.
Fica evidente também que, sobretudo em pleno século 21, em
um cenário em que o pós-modernismo, talvez, tenha atingido o seu ápice, o
quanto a humanidade exerce o pensamento maniqueísta, ao adotar dualismos morais
perfeitos. As pessoas, as ações, os
partidos políticos, as instituições são, neste contexto, necessariamente
classificadas categoricamente em boas ou ruins, morais ou imorais, éticas ou
antiéticas. Não existe o reconhecimento da realização de boas ações diante do
fato de algumas delas terem sido acompanhadas por algum erro. O pensamento binário
tende sempre a prevalecer no discurso de quem adota essa postura.
Como pensar é árduo, odiar se torna fácil.
O ódio nasce, na maioria das vezes, da busca pelo
conforto fácil e instantâneo como resposta a algo ou a alguém que atingiu uma
zona segura a qual mantemos intacta no nosso arcabouço de pensamentos
cristalizados.
O ataque ao próximo nos faz sentir mais confortável. Ao
afirmar que meu colega é um idiota porque escolheu um partido político contrário
ao meu, logo, por oposição, estou afirmando que sou alguém inteligente, pois
escolhi a sigla partidária correta e, portanto, não sou idiota. De igual modo,
serve também para piadas sexistas. Ao debochar dos homossexuais, eu, de forma
subtendida, destaco que a minha orientação sexual é superior. O que revela que
todo ódio é um autoelogio com clara tendência a ser uma fraude grosseira.
Ao invocar Freud, não fica difícil de perceber que o
ódio traz um traço evidente do nosso narciso infantil. As pessoas que me cercam
devem concordar comigo. Do contrário, estão todas erradas. Há muitos adultos que
adotam uma postura de criança: fazem cara feia, ficam de birra, postam textos
com desabafos e desaforos nas redes sociais, e não ouvem ninguém. Melhor,
ouvem, desde que concorde com elas. Logo, esse alguém que a ouviu é,
evidentemente, sábio e equilibrado, diferente de quem discorda de mim.
No livro Todos Contra Todos –o Ódio Nosso de Cada Dia,
do historiador Leandro Carnaval, comprova que o ódio é sempre uma resposta ao
medo, à insegurança e à ignorância. O jussiapense, como brasileiro, tem
dificuldade de se assumir como um povo que sente ódio e o manifesta a qualquer
custo. Para evidenciar isso basta olharmos para os folhetins difamatórios que
são distribuídos pela cidade e que atacam a imagem de pessoas nem sempre
públicas, muros pichados com ofensas graves, perfis anônimos nas redes sociais
que alastram falsas notícias enviesadas de ódio, tentativas de homicídios,
tragédias, discurso intolerantes de líderes políticos com salvas de palma de
uma plateia sedenta por violência e por ai adiante.
Embora tenhamos tentado da forma mais caprichosa
esconder o ódio que se reverbera pela cidade, em abril deste ano o muro de uma
escola municipal amanheceu pichado com ofensas direcionadas ao prefeito Éder
Jakes e à primeira-dama. Um ataque covarde que revela o quanto o ódio ganha
força quando está sob a proteção do anonimato.
A ideia de que o jussiapense é um povo acolhedor é bem
verdade. Somos receptíveis a quem vem de fora, nosso carisma, talvez, seja uma
das principais marcas vendidas a quem nos visita. Ao passo em que somos um povo
que também expressa ódio facilmente. No entanto, paira a falsa ideia de que nós somos puramente
pacíficos. Perceba que esse deslumbre perpetuou ao longo dos anos. Isso
acontece porque é exatamente como nós gostaríamos de ser ou como desejaríamos
nos ver.
Se buscarmos respaldo em um contextualização histórica
e sociológica para tentarmos explicar a origem de tanto ódio encontraremos a mais
perversa violência na formação do território que atualmente compreende o
município. Não hesito ao afirmar que Jussiape foi erguida sobre muito sangue.
Os primeiros europeus ao chegarem às margens do Contas tinham um único
propósito: dizimar os donos destas terras. Milhares de índios foram mortos em
uma guerra regida pela mais brutal violência em nome da cobiça por minérios preciosos.
O ouro e o diamante sempre tiveram mais valor do que a vida de determinados grupo
étnicos.
A tragédia de 24 de Novembro talvez seja a expressão
máxima do ódio vivido na história recente de Jussiape: 4 pessoas mortas, outras
3 feridas e um trauma coletivo que ainda reverbera pela cidade. Ainda que às
escondidas, muita gente expressou um sentimento de satisfação revestido de ódio
pela morte do prefeito-médico e da sua esposa. Muita gente ainda tentou
justificar o ato do atirador. Não há justificativa, não pode haver nenhum
sentimento de satisfação.
É difícil para todos nós jussiapenses admitir isso,
mas a violência ocorre sempre diante dos nossos olhos. A violência sofrida pela
minoria religiosa ou mesmo por aqueles que não dispõem da fé de beatitude
celeste, a violência imposta pelo tráfico de drogas, a violência do homem
contra a mulher, a violência contra os mais pobres, a violência contra os
educadores, a violência contra os políticos e gente desprovida de respaldo
socioeconômico, a violência contra os homossexuais, a violência contra os que
não atendem aos padrões sociais vigentes na época etc. Todos são vítimas de uma
violência sistemática que encontra sua base no preconceito. No entanto, acreditamos veementemente que a violência do outro, dos municípios vizinhos, é estrutural
e endêmica, a nossa, por sinal, é acidental, fruto de eventos esporádicos e
isolados. Jussiape aos nossos olhos é um paraíso pacifista.
O ódio tanto em Jussiape quanto no Brasil e no mundo, é baseado no preconceito, logo, chegamos à conclusão de que ele tenta
estabelecer uma generalização. Não é empírico e, portanto, é quase sempre fruto
do senso comum. O preconceito é, entrelinhas, a dificuldade de lidarmos com o
que nos é diferente. Atacamos aquilo que tememos. Quanto mais uma pessoa se
afirma, mais a insegurança dos outros se define.
Nas redes sociais, especificamente nos espaços
destinados aos comentários, as pessoas tendem a exorcizar os seus demônios mais
medonhos. Ali elas se afirmam quem verdadeiramente são. Muitos se esquecem de
que nós temos o direito de discordar do que é subjetivo, mas não do que é criminoso. A nossa
liberdade de expressão não pode ferir a dignidade do outro.
O ódio tem uma função muito peculiar no processo de
como lidamos com o próximo. Pois a partir do momento que reconheço a ofensa
desnecessária como a admissão do fracasso pessoal, eu tenho o ódio para servir
de analgésico.
Buscamos de forma odiosa algo ou alguém para exorcizar
o nosso fracasso pessoal. Se eu fracassei no vestibular é porque há cotas para
negros e pobres que receberam privilégios e me superaram de forma injusta. Jamais porque eu não estudei ou não tenha
me preparado o suficiente. Se meu adversário político venceu o pleito é por
conta das artimanhas de naturezas inconfessáveis. Jamais porque eu me tornei impopular e não prestei um bom serviço à
população. Se o meu negócio não vai bem das pernas é por conta da má conduta
dos clientes. Jamais porque adultero o
valor das mercadorias.
A internet, incontestavelmente, deu vozes a idiotas.
Outro ponto crucial que precisamos entender é que a rede intensifica e faz reverberar
com uma velocidade jamais vista qualquer expressão de ódio. A internet não
criou os idiotas, mas o ataque anônimo nas redes, sem o custo do ataque
pessoal, deu ao ódio do covarde um poder de comunicação muito grande. Junte a
proteção do anonimato, o senso de identidade do ódio e acrescente o poder de alcançar
um grande número de pessoas. Qualquer um tem acesso ao que chamamos no século
21 de pós-verdade. Não importa se eu tenho consciência de que o que espalho é
verdade ou mentira, mas o quanto isso se verbera pela rede. O quanto de impacto
vai causar.
Para entender esse fenômeno podemos citar, como exemplo,
as táticas terroristas. O terrorismo para ser terrorismo precisa de público, de
atenção, de visibilidade. O segredo do terrorismo é o medo causado pelo caos,
pela falta de segurança, pela desordem que foge ao controle das autoridades.
Desde os primórdios da política em Jussiape, em épocas
distintas de desagrado, quando a gestão municipal não acerta a mão ou não agrada
a um pequeno grupo, geralmente o qual pertence o autor responsável por
folhetins clandestinos, a vida particular de pessoas que nem sempre são figuras
públicas são expostas com sérias acusações e difamações das mais variadas
naturezas.
Na era do digital em que o papel ficou obsoleto, vieram
os perfis anônimos nas redes sociais. Se o ódio antes era impresso em papel e,
consequentemente, dava mais trabalho para ser propagado, hoje ficou muito mais
fácil levá-los até às pessoas com a internet.
Após denúncias de irregularidades contra o prefeito
serem feitas recentemente pelos vereadores Edilando Brandão e José Roberto, todos do PMDB, os parlamentares foram, juntos a empresários e figuras da imprensa, incluindo a
mim, alvos de ataques vindos de um perfil anônimo que vocifera falsas notícias enviesadas
de ódio pela rede. O perfil que se esconde no anonimato chegou a tecer uma suposição
sobre como o vereador Edilando teve sorte por não ter sido alvejado. A
conclusão imediata que podemos ter é que uma boa crítica busca sempre o aperfeiçoamento
de uma ideia quando é desapaixonada. Mas quando a crítica é apaixonada, é
movida por emoções, ela fala mais de mim do que do objeto criticado.
A atitude do responsável pelas fake news pode ser
explicado pela falta do sentimento de comunidade. O jussiapense, o brasileiro e
boa parte do mundo, tende a se tornar individual nas suas escolhas políticas,
profissionais e pessoais. Hanna Arendt, pensadora política alemã, consegue
explicar isso facilmente. É fácil perceber que não raramente flagramos pessoas legislando
prioritariamente para os próprios interesses. O pensamento coletivo é raro.
O discurso raivoso se sustenta exatamente pelo fato de,
no fundo, nós, interlocutores, querermos ouvir o que o locutor sabe previamente
o que nossa parte mais obscura deseja ter aos pés do ouvido. Volto a repetir, o
ódio nos oferece um conforto imediato, pois não necessita pensar. Quase sempre
pessoas que possuem o ódio e o pensamento binário como repertório psicológico possuem
soluções fáceis demais como intervenção para resolver problemas sérios a nossa
volta. Afinal é sempre muito fácil oferecer soluções instantâneas para questões
complexas. No nosso tempo, difícil mesmo é o empoderamento regido pelo raciocínio
lógico.


