Em um insight, Embroda,
a mulher do fim do mundo, rodeada por grandes nomes do jazz contemporâneo,
disparou: se eu enfio o dedo em qualquer buraco,
logo tenho razão. O dedo é meu, e o prazer também. Mas e o buraco?, questiona.
A mulher do fim do mundo
impõe limites para o que chama de discurso
ideológico aplicado à política coletiva, pois, para ela, a ideia que não
respeita a existência individual, minorias ou povo desprovido de poder, concretizada
pelo discurso e apoiada por práticas baseadas em conceitos morais ultrapassados,
é um risco ao próximo, sobretudo, quando se alia à política.
Foi, então, que riu de
alívio por ser atemporal, diacrônica etc. Rui tanto que pensou ter voltado a meados
do século 20 e encontrado alguém por quem sempre prezou: Hanna Arendt. Um raio de lucidez sobre o que eu acabava de
falar, pensou consigo. Ela explicou, ainda fumando um charuto e ouvindo
Ella Fitzgerald ao fundo, que a maldade é um feito banal, ao contrário da
bondade, que pode se revelar como um ato extraordinário.
A maldade é facilmente
encontrada na ignorância de pessoas comuns que estão a nossa volta. É muito
provável que não em suas intenções a priori, mas, talvez, no seu inconsciente,
e manifestada, posteriormente, e também sem maiores dificuldades pelo delírio
coletivo, ratifica. Esse tipo de comportamento despreza ponderações éticas.
Existe um fenômeno
social chamado de viés de confirmação,
que explora, sobretudo, atitudes de pessoas irracionais, que mantém a própria
opinião mesmo diante dos argumentos mais irrefutáveis: a tendência que a mente
humana tem de abraçar informações que apoiam suas crenças, e rejeitar dados que
as contradizem.
O século 21 é o porre
para o raciocínio lógico, pois perde espaço para o absurdo. É cenário propício,
portanto, para a pós-verdade, para a realpolitik. Embroda leva em conta o que certo
filósofo da suspeita, Friedrich Nietzsche, já tinha nos alertado: nós somos
animais de manada, costumamos seguir tendências por mais suicidas que elas
possam ser. E o homem do novo milênio só confirma o que foi dito pelo bigodudo.
Se filosofia é questionamento, eu questiono,
provoca Embora: o que deu de tão errado
com a humanidade em pleno século 21 que não soube aproveitar do aporte
tecnológico, o qual disponibiliza toneladas de informações convertidas em
bytes? Se houve um emburrecimento do homem ou uma superficialização do seu
pensamento, provocado pela instantaneidade, já alertada por Zygmunt Bauman, eu
não arrisco em dizer, por mais pessimista que eu esteja esta noite.
No entanto, o que os
discursos de Obama e Trump revelam, ao expor que é necessária uma linguagem
utilizada por crianças de até 11 anos para que haja entendimento de forma geral,
é que nós, a massa deste mundo, somos
adultos infantilizados (ou emburrecidos), como cravaria Freud, se estivesse
comigo agora.
No fim das contas, eu digo que agora um tango não me cairia
mal.

