Foi-se o tempo em que cuidar de dragão de Komodo era
sinônimo de amor à natureza e preservação de espécies excêntricas. Hoje em dia,
a luta é por mera questão de sobrevivência, meu amor. O bicho-sogra é tão
detestável que até o nome rima com sobra. Lá ela, lá (!), já diriam os
soteropolitanos, da terra de Oxum, com a sua mais genuína baianidade nagô.
Quem já teve o azar na vida de ter que lidar com esse bicho
pavoroso sabe bem a que eu estou me referindo. As perseguições constantes, as
injurias a nosso respeito para poluir os ouvidos do amado(a), a constante
expressão facial, de mal comida, de quem não faz amor há séculos. Sem falar das
implicâncias ad aeternum, mesmo
depois do fim do relacionamento. Quem é que pode com esse diabo?
Contar com uma sogra é ter que conviver sempre com a
sensação de ditatura na terra do amor, do medo à livre opinião, da pura ausência
de liberdade dentro do seu próprio lar, doce lar. É ter a opinião vetada por
censura prévia, pelo censor, o seu o amor, que divide a sua própria cama, em
noites de filme em preto e branco na tevê. E ai de quem falar da mãe dele(a)!
(Esse tipo de) Sogra tem mesmo que existir?
Escrever sobre sogra é como comer caranguejo em dia nublado;
tem sempre um cansaço prenunciado, enrustido,
antes mesmo de tocar no prato. É de perder o apetite!
Hora pior não existe: a DR, quando o assunto é sogra, pode
se tornar tão perigoso quanto roer pequi maduro, tem sempre o risco de ir além,
com a língua, e se ferir (junto ao relacionamento) com o espinhaço do fruto.
Évite!, em francês, diria eu, em um idioma perfeito para
proferir os mais temíveis impropérios contra a maligna Senhora das Trevas. Até porque o idioma negro de Mordor,
língua-mater da minha sogra, eu me recuso a pronunciar em qualquer lugar.
Saravá!
Das montanhas de Thangorodrim a Jussiape. Ela tudo vê. O
olho flamejante persegue os meus passos. Ela não me esquece. Fica no encalço do
passado.
Sejam justos comigo! Apesar de folclorizada, demonizada, a
mãe dos nossos amores está longe de ter, em cartório, o alvará de inocência
nesse debate caloroso e impetuoso. Até a Igreja Católica, em sua mais santa
sabedoria, já percebeu esse mal entre a civilização. Tratou de criar um curso
para domesticar sogras, a fim de preservar o casamento mundo afora.
O curso para as megeras teve início na cidade de Udine, no
norte da Itália. A tendência é que o Vaticano o estenda pelo mundo inteiro. O
projeto também vislumbra dar atenção aos sogros, junto às sobras sogras,
que são responsáveis por até cinquenta porcento do desmantelo matrimonial. A
coisa é séria, meus caros companheiros de impaciência.
Pois bem, nenhuma delas nunca me ofereceu um jocoso almoço
nos encontros dominicais. Só elogiaram meu pseudo-ar-de-intelectual-sereno e
pediu, com uma gentileza forçada, para que eu continuasse a escrever para
alegrar as manhãs do meu sogro que, apesar de ser menos chato, merece passar
uns tempos no Himalaia, sem direito a wifi.
Ter sogra é, em síntese, ter o destino conjugal traçado pelo
belzebu em dia de Sexta-Feira Santa! Façamos jus a nossa catequese: Livrai-nos
de todo mal, Amém!

