Foto:
Gulliver Ribeiro/JUP
Já havia se passado alguns anos desde que fui abandonado em
meio ao caos que me consumia após perder alguém especial. Antes de qualquer
coisa é bom deixar claro que ele não morreu, mas apenas se despediu de mim e da
vida que levava comigo. Ele abriu mão de tudo que nós havíamos construído
juntos. Entre todas as coisas, eu poderia citar, por exemplo, uma playlist de
indierock armazenada em pastas separadas por bandas no meu computador; uma lista
completa de filmes antigos em preto e branco que prometemos assistir juntos;
games; viagens; algumas camisas que eu havia comprado pela internet para ele e
o Correio tardaria a entregar no meu endereço, levando anos para eu criar
disposição e coragem para me desfazer daqueles embrulhos que sequer foram abertos;
rituais vespertinos realizados debaixo de um ventilador de teto envolvendo
chocolate ao leite, travesseiros e música alta; debates sobre o modo de como
desejaríamos morrer e até as convicções éticas, morais e filosóficas que um dia
tivemos certeza de que seguiríamos para sempre.
Naquela época, era impossível invocar qualquer tipo de deus,
por mais que eu fosse um ateu agnóstico e estava predisposto a levar a sério aquele
papo de física quântica e da possibilidade de se eternizar através das
moléculas universo afora. Um estado depressivo tomara conta da minha mente e do
meu corpo, que se recusavam a reagir a qualquer estímulo. Era inconcebível
levar a vida sem B. ao meu lado. Acreditava que não haveria a menor chance de
alegria em sair pelo mundo, naquele instante, sem a companhia de alguém que julgava
ter passado os melhores dias da minha vida.
A dor da separação é a mesma da morte. E não precisou da
ciência para me dizer isto, pois para mim havia isso havia se tornado
irrefutável, desde então, porque eu sofri tudo o quanto podia em um único
momento da minha vida. Eu me via sozinho. Eu estava sozinho. E, por algum
motivo, recusava, naquele período, qualquer companhia que durasse mais que duas
horas ao meu lado. Na verdade, eu é que não conseguia ser alguém legal o
bastante para servir de companhia a alguém.
Eu estava sempre com um olhar perdido, enterrado em uma
profunda tristeza e com minha mente atormentada, desequilibrada, sem saber o
que procurar ou a quem recorrer. Não demorou muito para eu perceber que teria
que aprender, por mais difícil que fosse, a continuar tentando ser feliz sem necessariamente
ter alguém ao meu lado. O que estava acontecendo comigo era algo inédito, já
que acreditava piamente que celebraria a vida e os meu últimos dias na
companhia do meu parceiro de jornada.
***
É difícil dizer quando foi a primeira vez em que dei de cara
com deus. Não estou me referindo à figura presente em escrituras sagradas,
personificada e encontrada comumente em religiões, à conveniência de cada
cultura, espalhadas pelo mundo. Tampouco um contato transcendente com a
natureza do tipo que quando se é jovem e vai acampar longe de casa, em algum
destino que se tornou lendário, a procura de uma experiência espiritual. Ou, em
última análise, numa situação em que você se vê em extremo perigo e, de forma
inexplicável, sobrevive e passa a acreditar ter estado, por algum tempo, em
contato direto com alguma entidade sagrada. Eu me reporto ao universo, o que
inclui neste entendimento de deus a minha própria existência.
Não acredito em um deus feito à imagem e semelhança do homem
que pode ser encontrado sob o teto de algum templo sagrado com mais de dois mil
anos. O deus que me refiro pode estar mais próximo do seu ombro do que você
pode imaginar. Ele pode ser encontrado na dor no peito que sentimos nas
madrugadas quando, de forma recorrente, nos lembramos de alguém que pertence ao
passado; na chuva que cai no fim da tarde; no café que exala aroma antes do
primeiro raio de sol iluminar o ambiente que nos cerca ou mesmo naquela música
que faz tudo parecer mais calmo. Deus vive na sua consciência, dentro de você.
E você vive nele. Deus está em todo o lugar e é reflexo das suas próprias
escolhas.
Entender o mecanismo do universo e encontrar essa força
extraordinária que nos envolve, talvez, foi o que me fez voltar a enxergar a
graça em viver. Não como antes, pois, a partir de então, eu havia mudado todas
as minhas concepções sobre a vida. Entendi que para encontrar a felicidade
plena é necessário aceitar algumas verdades intratáveis sobre tudo. E nem todos
estão dispostos a enxergar com a mente e o coração. Aprendi também que não
podemos nos tornar dependentes de ninguém para sermos felizes. Nós viemos a
este mundo só e partiremos apenas com o que aprendemos nele. A verdadeira
felicidade brota da gente, de dentro para fora, como a flor de lótus que flutua
em um lago no Vale Catmandu, no Nepal. Isso não significa que não podemos ser
felizes ao lado de quem amamos ou que sempre estaremos exalando felicidade a
sós. Mas também não há nenhum mal em aproveitar, mesmo que por pouco tempo,
alguém que seja extraordinário que passe pelas nossas vidas e desapareça de
repente. Talvez este seja um dos mistérios da vida, saber aproveitar o que ela
nos oferece.
Alcançar um estado espiritual em que seja possível
contemplar a paz necessária para ser feliz requer muito esforço e dedicação. Eu
não me refiro a você passar dias ou horas praticando “ser feliz” em frente a um
espelho. Eu falo das escolhas diárias do seu dia a dia, como com que roupa eu
vou hoje ao meu novo emprego, que caminho eu devo seguir até chegar à casa de
meu irmão ou, então, se devo ou não tentar algo de diferente no meu próximo fim
de semana.
Na verdade, não existe prazo certo, apenas atitudes que
podem ser tomadas ao longo dos seus dias. Comigo levou três anos até eu
alcançar o mais elevado grau de aceitação e consciência; finalmente eu havia
entendido as leis que regem o cosmo. A busca pela luz que me iluminou como ser
que habita este mundo me trouxe a verdadeira felicidade. Eu passei de um ateu agnóstico
a ser um ateu agnóstico sorridente. Eu estava sorrindo para o universo e,
segundo alguns adeptos da meditação balinesa, o sorriso era o melhor exercício
para atrair boas energias. Ou seja, é o caminho mais próximo para ser e encontrar
Deus.
Se você quiser, pode abdicar de todos os conceitos que
descrevem deus e caminhos indicados para se chegar até ele. Crie você mesmo
algo em que acredita e deus se manifestará naquilo que você imaginou. Ele é o
que você vê e o que você sente. Ele pode ser o seu sonho ainda não realizado,
da mesma forma que pode ser o brilho da pupila dos olhos do seu filho que
acabou de completar cinco anos e, bem provavelmente, ele também habitará o
sorriso que seu filho dá toda vez que brinca com algo que o faz feliz. Não
desprezo as religiões, apenas acredito que cada pessoa pode encontrar deus ao
seu modo.
***
Só percebei que era feliz quando tive que acordar, em algum
dia no meio da semana, às 6h da manhã e notei que o meu mau humor matutino,
acompanhado de um concentrado dos meus piores pensamentos, que sempre apareciam
logo quando acordava, havia desaparecido. Eu sorri para minha xicara de café
enquanto ouvia Jack Jhonson. Sorrir para um objeto àquela hora do dia sem
nenhum pretexto era demais para mim. Eu, definitivamente, estava curado da
tristeza que me perseguia por anos. Eu estava sorrindo com o coração e com a
mente. E não parava de sorrir e sentir a felicidade invadir meu corpo com uma
força que irradiava uma luz sem tamanho numa pequena sala que antecedia ao meu
quarto. Ser feliz é como aprender a andar de bicicleta na infância. A gente
conhece todas as técnicas para alcançar o equilíbrio necessário para seguir em
frente sem levar tombos que pode nos deixar traumas –mesmo que não seja
possível se manter sempre em pé -, como na vida. Apenas precisamos de um bom
desempenho para nos manter sobre duas rodas.

