
Em uma tarde fria e pouco ensolarada, típica do
inverno paulistano, Will Assunção, um típico escritor frustrado com o seu
tempo, se encontra com uma de suas melhores companhias dos últimos tempos em um
café aconchegante com vista para a cidade, que parece acompanhar o ritmo de um
jazz triste que toca ao fundo. A conversa entre os dois começa com uma
surpresa:
_Mas como pode?, disse com uma voz atônita, falha e um
pouco apressada, quase denunciando sua desestabilidade emocional, apontada
pelas pontas dos dedos indicadores.
_O quê?, perguntou com surpresa e interesse sincero em
saber o que acabara de suceder com sua companhia de fim de tarde.
_Você não viu?, insistiu em perguntar apenas como
forma de dar ênfase a sua incredulidade.
_Permitirem colocar drogas no café servido à gente com
alta propensão a manifestar distúrbios mentais apenas como forma de criar consumidores
compulsivos e viciados?, respondeu de forma pontual.
_Não!, disse alterando o tom de voz quase gritando.
Logo em seguida, fez um meneio com uma de suas mãos na
altura do queixo e fechando os olhos por segundos seguintes respondeu:
_A atendente saber meu nome (...).
_Will!..., respondeu em seguida esperando surgir na
mente alguma explicação óbvia, como surgem os pensamentos libidinosos nas
madrugadas solitárias.
_Quero dizer!, como ela pôde ter escrito meu nome no
copo se ela nem me conhece?, completou sem esperar uma resposta mais
contundente.
_ Atendentes de cafés estão habituadas a relações
efêmeras e melancólicas!, ainda mais quando se trabalha em um ambiente que
cheira a café e se ouve jazz o tempo todo, disse com uma naturalidade automática,
mas logo interrompeu sua fala abruptamente ao sobrepor com uma pergunta:
_O quê? Ela fez isso? Mas..., como pôde? Hey..., disse
pausadamente separando em orações curtas e pontuais, quase sibilando.
_Não apenas escreveu, como me chamou pelo nome, disse
mais calmo, mas com a mesma incredulidade de antes.
_Ouh!, isso é incrível, não?, completou com o mesmo
ceticismo de que haveria uma explicação lógica que explicaria o que havia
acontecido.
_Yeaaah, sim, mas eu não consigo entender como isso
pôde ter acontecido, you know?, disse.
_Está tudo bem, Will!, acrescentou.
_Okay, but!..., disse, dessa vez, assoprando as
palavras que soaram quase inaudíveis.
_Não precisa ficar com essa cara, investiu tentando
inverter o efeito.
_“Essa cara” (?), repetiu ao tom de um quase
questionamento.
_Sim, respondeu com um acanhamento pouco velado o e
acrescentou:
_De quem acabou de acordar e descobriu que se levantou
da mesma cama Audrey Hepburn. Ou James Dean. Talvez Marlon Brando, arriscou.
_Eu estou com cara de quem poderia ter dormido ao lado
de James Dean. Ou Andrey Bepburn? Marlon Brando?, perguntou tentando entender a
si mesmo.
_Sim, você está!, completou da forma mais cética
possível.
_Qualquer um ficaria com “essa cara”. Marlon Brando
ficaria com “essa cara”. Talvez Hemingway também ficasse..., acrescentou.
_Will!, você já veio aqui, certo?, insistiu tentando
encontrar uma explicação.
_Duas, três vezes!, Não mais que isso, justificou.
_Então! Ela pôde ter se lembrado de você, disse.
_Mas é como você disse: elas mantêm uma relação fugaz
e solúvel em um lugar com luz baixa e deprimente ao som eterno de um clarinete
delirante. Não sei (...). O que será que eles tocam? Sidney Bechet?,
questionou.
_Eu tenho certeza de que ela se lembrou dos seus olhos
e de como você é atraente. Provavelmente foi isso. Melhor, é incontestável!,
disse sorrindo, meio sério, tentando se tranquilizar ao acreditar ter
encontrado a resposta mais coerente.
_Atraente? Você me acha atraente? Mesmo? Quero dizer...,
perguntou deixando transparecer sua insegurança.
_Sim, eu acho!, pontuou.
_Quero dizer, as chances de ela se lembrar de alguém
como eu são mínimas, levando em consideração o número de pessoas que passam por
aqui todos os dias, você consegue me entender?, perguntou.
_Will, você gostou de fazer sexo comigo?, perguntou
com espontaneidade e curiosidade.
