Foto: Will Assunção/JUP
De onde estou, eu vejo uma casa azul. É uma casa que
possui suas peculiaridades. Não me encantei quando a vi pela primeira vez. Na
grande casa azul, mora um velho; ele é dono de tudo de existe por lá. Vivem
nela também uma velha senhora e seu tom de voz cansado, rouco e ensurdecedor,
além de um adulto, uma jovem e uma criança. Todos aparentam ser felizes naquele
lugar, mesmo carregando em seus rostos o peso do sofrimento de uma vida difícil.
No entanto, o frio do inverno deixa tudo mais triste, inclusive as coisas que
os rodeiam. Quase me esqueci de citar aqui que na casa azul vivia também um
cão, daqueles que nem mesmo a morte tem se importado em levar. Era época de
Páscoa, e o vento gélido do inverno começava a dar seus primeiros sinais de que
aquele ano o tempo iria castigar um pouco mais os moradores da rua sem nome.
Eles nunca tinham nada para comer, nem mesmo para contar. Falavam apenas o
necessário, se assim arranjassem disposição para abrirem a boca e se pronunciar.
Pouco era ouvido naquela casa de paredes esburacadas e telhado sem forro.
Quem não tem história, conta histórias dos outros,
dizia a velha ao olhar para a jovem sem nenhuma expressão no rosto. Eles tinham
uma, embora não precisasse ninguém narrar qualquer episódio, pois as marcas
ficaram nos corpos de cada membro daquela família. A pobreza fazia tudo ficar
mais evidente naquela casa, inclusive a natureza do próprio ser humano, pois o
simples ato de comer um pão envelhecido era motivo para contar velhas histórias
do passado. E talvez a mais recorrente era de como aquela família foi arrastada
para aquela rua de uma cidade estranha, onde no começo nada existia. Sempre à
noite era realizado um ritual antes que todos fossem dormir. Agradeciam a Deus
por mais um dia em suas vidas esquecidas, olhando para um céu limpo e repleto
de estrelas. Quase não se conseguia ouvir nada na rua em que a Prefeitura não
se importara em dar nome. Aquele pedaço de civilização ficava longe de tudo.
Todos naquela casa, exceto a menina, sabiam que o dia
tinha amanhecido, porque no quintal havia um poleiro, e toda manhã o galo
anunciava um novo sol. Quando o dia nascia com um pouco mais de sol, a menina
podia ver que havia amanhecido por conta de um buraco no telhado, que lembrava
o formato do rosto de alguém que ela não se lembrava de quem. A velha era a
primeira a sentir a brisa matutina invadindo os seus pulmões. Ela fechava os
olhos e deixava a leve força da brisa esvoaçar as suas mechas branco-prateadas
nas manhãs de inverno. Era uma das poucas vezes que se sentia bela e viva. Sua
roupa trazia um pouco dos anos passados, apesar de puída, havia sinais de que
aquele vestido, que outrora fora azul, havia sido costurado por mãos
talentosas. Todos os dias ela ficava parada no quintal observando o alto dos
morros como se conseguisse ver a vida passar diante dos seus olhos naqueles
instantes em que passava imersa em pensamentos. De repente, voltava a si, e o
semblante de paz sumia e logo voltava a assumir um tom áspero e cansado. “Já
está na hora de se levantar menina, não é todo dia que a gente pode ter um
almoço de gente decente”, gritava para acordar a criança, fazendo-a lembrar de
que aquele era um dia santo. Poucas vezes no ano podia ser vista a mesa repleta
de comida naquela casa, mesmo que composta de pratos simples.
Aquela família indubitavelmente não se parecia com
nenhuma outra daquela época. Enquanto outras crianças da cidade estavam em suas
salas confortáveis, protegidas do frio intenso, desprezando o privilégio de ter
na mesa um cardápio variado para o almoço, a menina da casa azul se importava
apenas em dividir o pouco de comida servida para todos naquele momento. Cercada
por todos que compunham aquela família, ela se via reunida em volta de uma
grande e velha mesa de madeira, coberta por uma toalha desbotada e puída. Então,
a menina da casa azul sentia, ao seu modo, um pouco do gosto de felicidade.

