WILL ASSUNÇÃO

Foto: Will Assunção/JUP

É possível facilmente traçar um cenário da formação de Jussiape descrito em uma história que tomou o imaginário popular desde que todos pássaros beberam água nesse lugar. Em meados do século 19, Jussiape era chamado de Fazenda do Gado e por aqui apenas havia gados, engenhos de cana-de-açúcar e centenas de escravos. O que acha dessa descrição? A mais difundida? Certamente. Mas provavelmente a mais equivocada. Essa história está virando, literalmente, coisa do passado.

A verdade é que Jussiape tem seus primeiros registros no século 18, precisamente nos anos entre 1722 e 1732, nos quais são descritos o aparecimento de outros povos que não o indígena, segundo texto histórico que documenta a captura de negros em Jussiape, acusados de roubar ouro, e presos em Rio de Contas.

Pesquisas recentes realizadas por diversos historiadores no Brasil ilustram bem como era a realidade pelo país naquela época. A descoberta do ouro não apenas em partes distantes do Brasil, como em Jussiape, e os impostos pagos a Portugal fizeram homens ricos, entre eles negros, que construíram negócios promissores e uma reputação digna de europeu não botar defeito, e não como latifundiários, mas como comerciantes; o fato desnuda um passado um tanto controverso. Grande parte da história de Jussiape que se conhece hoje foi criada ou virou consenso.

Com a penetração dos bandeirantes na Chapada Diamantina, a busca por minérios preciosos impulsionou a chegada de exploradores, que haviam deixado para trás o sonho das Minas Gerais após os primeiros sinais da decadência da exploração do ouro, nas décadas iniciais da segunda metade do século 18. Logo as Lavras Diamantinas, na região central do Estado da Bahia, ganhariam novos rumos: serras e ribeirões foram rasgados para formar novos garimpos. Por ocasião do centro de riquezas estar localizado às margens do Contas, entre vales e serras, uma povoação logo se formaria, dando origem a Jussiape. Mas vamos ao que interessa: segundo registros históricos, garimpos pagaram a Portugal de Quinto, imposto da época, 450 arrobas de ouro, segundo relato de um documento histórico.

A descoberta das Lavras Diamantinas, que atraíram exploradores de todas as partes, por estarem próximas daquele centro de riqueza, faziam com que as estradas se tornassem bem concorridas. Ao longo do caminho para as Lavras foram edificadas algumas pequenas construções que, com o tempo, o território que atualmente compreende Jussiape, tornar-se-ia uma povoação comercial, segundo informações do Diário Oficial de 1923.

Entre os pesquisadores que se dedicam à história desse período, tornou-se unânime a afirmação de que o comércio em Jussiape teve suas origens com a descoberta das Lavras Diamantinas e com a presença dos tropeiros, que traziam e levavam mercadorias das Lavras.

Segundo trecho do livro Bandeirantes Sertanistas Baianos, durante os séculos 18 e 19, as bandeiras sertanistas estavam em plena atividade no sertão baiano. Ou seja, nessa época, havia muitos bandeirantes em nome da Coroa Portuguesa invadindo territórios indígenas e dizimando milhares de índios que dificultavam a penetração dos europeus nessas terras.

Em uma das passagens do livro que retrata a exploração dos sertões baianos, é possível se deparar com uma narrativa sobre os esforços desses bandeirantes: “Pelos avisos que tive do coronel André da Rocha Pinto, se dificultarão os descobrimentos, e mais projetos, em que por ordem minha anda ocupado, sendo o principal motivo dessa dificuldade as duas aldeias de gentio brabo entre o Rio Prado (ou Pardo) e Rio das Contas; uma da nação do Gongayo, e outra nação Crancayo e ser conveniente destrui-los e incapacitá-los, da sorte que não embarrassem progressos tão úteis ordenho-vos lhe dê toda a ajuda que precisa, fornecendo índios e mais mamelucos e mulatos forros”.

Segundo consta em pesquisas recentes, Antônio Veloso da Silva, um bandeirante que se tornou popular na história por dizimar índios, fundou uma fazenda chamada Boqueirão nas proximidades de Rio de Contas enquanto combatia os índios “bravos” e negros fugitivos. Em 1719, esse mesmo bandeirante teve ordem do governo baiano para combater tribos indígenas em Cairu. Já em 1721, fundava um arraial na região de Cachoeira. No ano de 1725, atacou uma localidade conhecida por Maloca, em Cairu, e ao longo de Jiriçá, na Bahia.

Em 1726, voltando a atacar essas paragens, no ano seguinte, numa terceira expedição, foi ferido em conflito com os indígenas na aldeia de João Amaro. Em 1732, Antônio Veloso da Silva teve violentos embates com os índios do trecho do Rio das Contas, exterminando e fundando no local uma fazenda de criação de gado que, cem anos depois, se consolidaria como a Fazenda do Gado, segundo o escritor Renato Bandeira.

A exploração do território que atualmente compreende vários municípios da Chapada Diamantina está ligada diretamente ao movimento expansionista do século 18, o que remota a penetração dos bandeirantes no sertão, quando subiram o Rio das Contas, a procura de minérios preciosos, especificamente diamante e ouro, reconhecendo o território aurífero nas margens desse rio próximo à Serra da Tromba.

Nos anos de 1718 a 1719, consta em registros históricos que Sebastião Pinheiro da Fonseca Repouso extraiu oitenta arrobas de ouro no local chamado Mato Grosso, próximo ao Arraial dos Crioulos, em Rio de Contas. Já no final do século 17 até o quarto do século 18, muitos bandeirantes se aventuraram pelo sertão do Rio de Contas, inevitavelmente estavam em conflitos com os gentios, como eram chamados os índios que habitavam esses territórios.

Dentre muitos bandeirantes da época, alguns, como Pinheiro Raposo, Damasco Coelho de Pinha, Pedro Barbosa Leal ganharam notoriedade pelas atividades exploratórias nos sertões da Bahia, e talvez tenha se consagrado como o último grupo encarregado pelo vice–rei de Portugal, o conde de Sabugosa, a abrir caminhos ligando o Arraial dos Crioulos a Jacobina.

COMO ERA O BRASIL DE FATO?
Se você conseguisse viajar no tempo e conhecesse o Brasil de três séculos atrás, poderia, sim, topar com engenhos de cana-de-acúcar com centenas de escravos. Mas também veria cenas diferentes. “Diversos estudos novos mostram que a maioria dos senhores tinha poucos escravos. Eram grupos pequenos”, diz Renato Marcondes, professor de história econômica da USP. Você ficaria surpreso ao perceber que alguns desses senhores eram negros. Sabe-se hoje que, em muitas vilas e cidades brasileiras, ex-escravos eram uma parte considerável dos donos de escravos. Em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, um terço dos donos de escravos era de negros, revela reportagem da revista Superinteressante.

Segundo levantamento feito ainda nos anos de 1990, revela que o testamento dos homens mais endinheirados no Brasil mostrava que a maioria não fez fortuna exportando cana-de-açúcar, mas fabricando ferramentas ou emprestando dinheiro. Eles compravam fazendas só depois de ricos, para ganhar status de proprietários de terras e eventuais títulos de nobreza, afirma a pesquisa. O mais recente estudo com essa nova visão virou o livro História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, lançado em 2009. Ele mostra mais um mito do Brasil colonial: a ideia de que só havia por aqui uma enorme massa de escravos e seus senhores. Em 1819, os escravos eram um quarto da população total, de 4,4 milhões de pessoas. E, entre os brasileiros livres, 91% deles não tinham escravos. “Com essa população, o Brasil tinha uma economia maior que a de Portugal”, diz Jorge Caldeira publicada pela Super.

Um navio negreiro valia mais que um engenho inteiro. Só 25% dos maiores testamentos eram de fazendeiros, o resto era de comerciantes, banqueiros e traficantes de escravos. Esses homens, para ganhar status, compravam terras no fim da vida.

Os bandeirantes não eram desbravadores europeus. Esses homens eram, na verdade, filhos de índios com brancos, andavam quase nus e seguiam a cultura tupi-guarani, inclusive quase nenhum deles falava português.

Os engenhos com muitos escravos eram raridade. No século 18, a maioria estava, em média, em plantéis pequenos, geralmente de 4 ou 5 pessoas. Então, esqueça a narrativa de que os senhores de engenho em Jussiape possuíam inúmeros escravos. A história de Jussiape costuma ser narrada com força baseada no patriotismo. Na tentativa de construir um passado comum entre os habitantes e deixá-los orgulhosos do lugar onde viviam.

TRIBOS E MAIS TRIBOS
Segundo o livro História da Bahia, de Luís Henrique Dias Tavares, publicado em 1963, todo o território da Bahia foi, ao longo dos séculos, povoado pela contribuição de três grupos humanos: o índio, o africano e o europeu. O índio foi o único povo que já se encontrava no território que mais tarde ganharia o nome de Brasil. Enquanto o africano e o europeu foram trazidos (ou vieram) por conta da colonização europeia.

A mistura desses três povos resultou em relações que produziram os tipos: mestiço (africano e português) do mameluco ou caboclo (índio e europeu) e do cafuzo (africano e índio). Tais cruzamentos são responsáveis pela herança genética que compõe o povo brasileiro, assim como a própria formação étnica baiana.

De acordo com cronistas do século 17 e 18, junto à comprovação de testemunhos arqueológicos (sambaquis e inscrições em pedra) é possível chegar à conclusão de que habitavam o interior da Bahia as tribos dos Paiaiás e os Sapoias ou Sapuias.

Segundo o Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, de Francisco de Assis Carvalho Franco, sertanista baiano filho de Marcelino Coelho Bittencourt e sobrinho afim de João Amaro Maciel Parente, como indica na própria publicação, a presença dos colonizadores se deu a princípio nas cabeceiras do rio Paraguaçu.

Já em 1725, o colonizador tinha licença do delegado régio para combater os tupinambás – ou seja, dizimar, matar, extinguir com a mais brutal violência em nome da cobiça por minérios preciosos – que dificultavam o trânsito das minas do rio das Contas para a Bahia, tendo feito enorme mortandade entre os índios e devastando aqueles sertões que antes eram temidos.

Em 1732, muitos bandeirantes prestaram assistência ao sertanista Antônio Veloso da Silva, em sua campanha contra os índios de Jussiape (por presunção histórica, entende-se que seja no território banhado pelo rio Jussiape, que hoje recebe o nome de Rio das Contas). Logo em seguida, Antônio Veloso fez explorações nos sertões de Maracás, além de cooperar nas empresas sertanistas do coronel Pedro Barbosa Leal.

É possível encontrar no livro Iacina, de Lindolpho Rocha, publicado em 1907, que as tribos Maracás habitavam em suas tabas na vasta zona compreendida entre o Paraná-assú, Paraná-una e Jussiape onde exerciam “a agricultura, a caça e a pesca na mais feliz abundância”, quando “o mais rancoroso pataxó os deixava gozar em paz os proventos de seus trabalhos e a prodigalidade da natureza”. Aquele povo era tranquilo e sempre utilizava do ócio em dias de paz quando assim, as tribos vizinhas permitiam.

A dança e a ginástica eram presentes quando antecipava grandes movimentos festivos; ficavam animados com os sons dos animais utilizando ferramentas como machados de pedra para um ritual típico do plantio da mandioca, do anali, do amaniú e da pilima.

JUSSIAPE, QUAL O TEU SIGNIFICADO?
A povoação que compreende hoje o território do município apenas passou a ser chamada de Jussiape oficialmente em 1890, segundo narrativas históricas. No ano de 1880, a povoação era ainda denominada Fazenda do Gado, pois, segundo o engenheiro Theodoro Sampaio, ele chegou ao arraial, às margens do Rio das Contas, no dia 11 de janeiro deste mesmo ano, como consta em seus registros publicados em 1905.

Assim como boa parte dos jussiapenses, você deve ter aprendido nos primeiros anos da escola que Jussiape significa “lugar onde todo pássaro bebe água”. Então, sinto em dizer, mas a história não é bem essa. Segundo Iacina, é possível que o vocábulo “Jussiape” tenha sido mudado ao de sua origem. Ou seja, tenha sofrido algumas alterações, ou mesmo adaptações. Pois, na concepção atual do vocábulo, é ignorado o que realmente significa, defende o autor.

No tupi, uma hipótese vaga, diria que esse nome viria de iuçuape, que tem o significado de “rio de toda caça”, pois, até então, exprimia uma verdade, já que no século 19 e início do 20, quando o autor viveu, a maior parte do rio era praticamente intocada e, por isso, concentrava uma variedade de animais as suas margens.

No entanto, é importante dizer que, o que existe é uma interpretação do autor à época, baseada no que se supõe, tendo como base a língua tupi. Ou seja, apesar de ninguém saber ao certo o real significado do nome Jussiape, o que se tem hoje é uma tradução feita pelo próprio autor, que ao trocar em miúdos, nos aproxima de um possível significado de Jussiape que pode ser “rio de toda caça” ou “onde bebe toda a caça”.

Desde que se tem notícia, as pinturas da Gruta da Tapera, assim como outros registros pelo município, teriam sido feitas por índios que conviveram com os primeiros bandeirantes europeus a pisarem nestas terras. A única dúvida que pairava, até então, era a qual tribo atribuir as pinturas, já que em Iacina, livro de 1907, do autor Lindolpho Rocha, a presença dos Maracás e Pataxós é descrita claramente por essas bandas.

O arqueólogo Alvandir Bezerra, um dos responsáveis pela exploração diagnosticou e contextualizou os territórios envolvidos no estudo. Todo o material encontrado foi estudado por uma equipe da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), sob orientação do professor de Antropologia Joaquim Perfeito.

A dupla explorou toda a extensão, revelando o passado de culturas que existiram na região. Eles identificaram 28 sítios arqueológicos, a maioria deles identificados como pré-colonial, de antes da chegada dos portugueses ao Brasil. E outros sítios bem típicos da região, como casa de farinha e antigos engenhos.

A verdade é que quatro grupos poderiam ter habitado essa região: Tupis, Aratus, Maracás e Pataxós. De lá para cá, pesquisadores e estudiosos exploraram o local e constataram o óbvio: as pinturas são muito mais velhas do que se imaginava. Por associação a outros sítios que se encontram na Bahia e no Brasil, existem algumas hipóteses que foram levantadas. Mas a principal delas é que se torna impensável para os arqueólogos que os autores das famosas pinturas tenham sido os índios que conviveram com os primeiros portugueses a chegar a Jussiape.

Os grupos responsáveis pelas pinturas rupestres na região usaram instrumentos de material disponíveis no próprio local, que hoje compreende o trecho que liga os municípios de Jussiape e Abaíra. Ainda não foi possível datar com exatidão os artefatos encontrados. Mas, por associação a outros sítios que existem no Brasil e na Bahia, existem algumas hipóteses. Há artefatos que foram coletados, e que podem ser considerados de grupos caçadores coletores, afirma o arqueólogo responsável pela exploração.

Os grupos que fizeram as pinturas rupestres na região usaram esses instrumentos. Há informações de grupos que viveram de 6 a 12 mil anos nessa região. “Os artefatos encontrados podem pertencer a uma faixa cronológica, que varia entre 6 a 9 mil anos, tendo como base a associação, sem datação absoluta”, completa Alvandir Bezerra.

Há sítios encontrados datados do século 19, quando houve na região o apogeu da ocupação europeia e a utilização dos engenhos de cana-de-açúcar. Existem também artefatos líticos que podem ser associados a grupos ceramistas. Como, por exemplo, na estrada construída de Rio de Contas a Jussiape, onde foram encontradas urnas funerárias.

Os grupos que faziam as urnas também utilizavam pedras. Eles são datados em cerca de 800 a 1.200 antes do presente, como os Aratus e Tupis. O que revela um passado com uma história rica e para lá de interessante, que passou, mas quase ninguém viu.

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