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Ninguém chama Stephen Hawking de doutor – ainda que ele tenha defendido uma tese de doutorado –, mas todo mundo chama Dráuzio Varella de Dr. Dráuzio, ainda que ele não tenha um doutorado. O que aconteceu?

No Brasil, o médico não sai da faculdade com um doutorado, porque aqui o curso de Medicina é uma graduação, e não uma pós-graduação. Mas o uso do termo “doutor” para se referir a alguns profissionais liberais, como advogados e médicos, vem da época em que os ricaços mandavam os filhos estudarem em faculdades europeias.

Eles voltavam “doutores” no jargão popular, como um meio de distinguir as classes sociais e demonstrar respeito. Muitos médicos e advogados, hoje, negam o título por causa de seu passado pernicioso, e pedem aos clientes que não sejam tratados desta forma.

Nos EUA, a faculdade de medicina não funciona exatamente como a nossa. Os alunos já saem do curso, uma espécie de pós-graduação, com o título MD (“medical doctor”), que é um grau de formação equivalente a um PhD (“philosophiae doctor”, o doutorado strictu sensu que a gente conhece), mas em uma área de atuação prática.

Ou seja: lá a palavra “doutorado” não tem uma acepção única. Doutores de áreas práticas e teóricas têm que trilhar passos diferentes em suas carreiras. Uma pessoa formada em direito é um JD (juris doctor), e existe até o DBA, que é tipo o MBA, só que no nível de doutor, em vez de mestre.

Algumas faculdades europeias do século 19 de fato funcionavam nos atuais moldes americanos e formavam médicos e advogados já “doutores” no sentido de que concediam títulos equivalentes à pós-graduação. Mas isso não era uma regra. Na prática, o termo se consagrou no Brasil por tradição. Uma tradição tão sólida que um decreto assinado por D. Pedro I em 1827 determinou que aqueles que concluíssem os cursos de ciências jurídicas no Brasil poderiam ser considerados doutores.

A palavra “doutor” vem do latim “doctor”, que significa “aquele que ensina” ou, simplesmente, “professor”. Esse sentido se mantém em português, oculto na palavra “docente”, que é um jeito chique de dizer “professor” e geralmente aparece na expressão “corpo docente”. A palavra “doctor” era uma variação do verbo “docere”, que significava “ensinar”. Ou seja: era como se doctor significasse, ao pé da letra, “ensinador”.

Só após o século 11, com a fundação das primeiras universidades na Europa, surgiu o título “philosophiae doctor” (“doutor em filosofia”, mais conhecido pela sigla PhD nos EUA e simplesmente como “doutorado” no Brasil).

É importante notar que a palavra “filosofia”, nessa época, tinha uma acepção bem mais ampla, próxima ao significado original da palavra em grego, que é “amor ao conhecimento”. Os PhDs, então, eram os especialistas mais gabaritados em física, ou matemática, ou filologia, ou quaisquer outras áreas que envolvem teoria e pesquisa – e não o exercício prático de uma profissão (como no caso de advogados, médicos e teólogos, por exemplo). É nessa distinção que se baseia, até hoje, o sistema de pós-graduação dos EUA. É por isso que lá existe PhD e MD.

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