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Pego de calças curtas


Eu tenho dito por aí que vivemos tempos de estranheza. O vírus, que tem atormentado a humanidade, nos impôs diversos desafios e regras de convivência que nos custam tempo e determinação. No entanto, teremos que aprender a nos comportar com os novos hábitos vigentes desde que a pandemia do novo coronavírus tomou o mundo.

Lavar as mãos toda vez que nos parecer necessário para evitar possível contato com locais contaminados, usar máscara e separar roupas e calçados para sair de casa é uma rotina que se tornou comum na maior parte do planeta. Sem falar no distanciamento social que nos obriga a enxergar esse vírus como o novo vilão da pós-modernidade.

Manter-se distante fisicamente dos amigos e familiares não tem sido lá muito fácil para nós brasileiros, acostumados a toques e abraços a cada encontro. Ficar confinados em casa é outro obstáculo difícil de ser cumprido nesses três meses. Na tentativa de superarmos as adversidades do isolamento social – que, no início, mais se parecia com férias prolongadas oriundas de uma promessa do acaso a um adolescente –, é que nós revelamos hábitos excêntricos e manias incomuns adquiridos nesse meio tempo.

Desde que o distanciamento social foi aderido pela parcela lúcida da população, eu tenho permanecido em casa a maior parte dos dias. O modelo de home office apesar de ser bem confortável e prático, nos deixa um pouco desleixado com a aparência. A barba cresce mais que o usual, o que antes era uma crina aparada se torna uma juba e você passa a ter como peça de estimação uma velha camisa de algodão confortável.

No último domingo (10), eu havia marcado uma entrevista com o prefeito de Jussiape, Éder Jakes (PSD), por meio de uma plataforma que transmitiria o nosso encontro ao vivo. Assista à integra da entrevista. O programa estava marcado para ir ao ar às 9h, no entanto, devido a problemas técnicos, só pôde começar depois das 10h – quando ele teve de sair de sua casa em Livramento de Nossa Senhora e se deslocar até a minha, em Jussiape.

Em pouco mais de meia hora, transformei meu quarto em um escritório digno de uma redação de um grande jornal como o The New York Times: câmera posicionada em um tripé, luzes sobrepostas, dois computadores, um deles com painel, que transmitia nossa entrevista em áudio e vídeo, e microfones de lapela: para cada um. O espaço estava controlado: esterilizado e ventilado. Devido a todas essas providências, me senti confortável em não precisar recorrer à máscara de proteção.

Optei por usar uma camisa de mangas longas e um blazer. Mas havia esquecido da calça. Sem me dar conta do tempo, o prefeito chegou e tratamos de dar início à entrevista para amenizar o atraso. O painel deu o sinal de que estaríamos ao vivo e em três segundo começamos a dialogar. Cumprimentei o público e anunciei o gestor como meu convidado daquele dia. Logo nos primeiros segundos da transmissão, fui pego de calças curtas pelo público. A câmera exibia parte das minhas pernas. Amigos e pessoas mais próximos comentaram em tom de brincadeira o meu visual inusitado. Os outros escolheram não tecer opiniões em público acerca do meu novo estilo.

O termo “ser pego de calça curta é uma gíria usada no sentido de ser pego de surpresa, de forma inesperada, como ocorreu comigo naquele instante. Não havia outra expressão que traduzisse tão bem esse momento. De lá para cá, a pandemia tem evidenciado muita coisa que guardamos em nós mesmos e nunca expomos, das engraçadas às mais estranhas. No meu caso, uma convencionalidade um tanto estrambólico para lidar com o confinamento.

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