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Doutor em microbiologia defende uso de máscaras em Jussiape e alerta para risco de contaminação pela saliva; veja entrevista

Foto: Reprodução

O engenheiro agrônomo, Danilo Tosta Souza, de 34 anos, é mestre e doutor em microbiologia e atualmente atua como pesquisador em pós-doutorado na área de química de produtos naturais na Universidade de São Paulo (USP).

Os estudos desenvolvidos pelo cientista focam nas interações entre comunidades bacterianas associadas às plantas e aos animais marinhos para gerar valor a uma agricultura moderna, mais produtiva e sustentável, tendo os microorganismos como base de inovação.

Atualmente, o grupo de pesquisa, do qual Tosta integra, tem descrito novas espécies de bactérias produtoras de substâncias químicas com ação fungicida e herbicida, ou seja, moléculas naturais capazes de controlar diversas doenças e pragas que ocorrem na agricultura. Essa pesquisa é estratégica para o Brasil por ser o maior consumidor de agrotóxicos no mundo que, por questões de segurança ambiental e a saúde humana, precisa adotar tecnologias sustentáveis para reduzir o uso de agroquímicos sintéticos.

A primeira morte por Covid-19 no Brasil completou um mês no dia 16 de abril. Desde então, o Brasil já registrou mais de 2 mil mortes e se aproxima de 50 mil casos confirmados de infectados.

Tosta, que possui raízes familiares paternas em Jussiape, defende medidas como a criação de uma lei municipal para uso de máscara caseira, produzidas por artesãos locais, durante a pandemia e a permanência da população em casa.

Veja a entrevista concedida pelo cientista à Jussi Up.



Quais os prováveis impactos da sua pesquisa sobre o Covid-19 e quais as possíveis descobertas que podemos esperar da ciência no curto e longo prazo? Devido a minha pesquisa ser aplicada à agricultura, as minhas investigações científicas não causam um impacto direto sobre a pandemia de Covid-19. Pelo contrário, a doença Covid-19 é que tem causado impacto nas minhas atividades científicas e em alguns setores da agricultura, principalmente em produtos que requerem beneficiamento em curto prazo. Como pesquisador, tenho acompanhado o que a comunidade científica tem publicado sobre o Sars-CoV-2 (coronavírus) e a pandemia de Covid-19, sobretudo após o novo coronavírus ter chegado com força ao país, que em diferentes regiões já enfrenta epidemias de sarampo, febre amarela, dengue, chikungunya e zika. Em particular, tenho observado que no curto prazo os pesquisadores em todo o mundo buscam conhecer o ciclo de transmissão do vírus, onde e como surgiu a infecção humana, bem como métodos para combater a contaminação. De fato, alguns conhecimentos estão consolidados, tais como os eficientes métodos de higiene das mãos com água e sabão, uso de álcool 70%, constante limpeza dos ambientes, uso de máscara N95 e isolamento social como estratégias para mitigar a contaminação pelo novo coronavírus. Ao passo que, infelizmente, as diversas drogas que têm sido testadas, inclusive em fases avançadas de testes clínicos, apesar de terem algum grau de atividade contra o coronavírus, ainda não apresentaram comprovada eficiência para combater a pandemia. Mesmo assim, estou esperançoso que no curto prazo algum medicamento seja descoberto para controlar os efeitos da Covid-19.

É importante ressaltar que diversos estudos comprovaram que o vírus pode estar ativo no ambiente por um período de tempo suficiente para infectar uma pessoa, portanto, ter cuidados com a higiene pessoal e com o ambiente, ao meu ver, é de alta prioridade, inclusive, limpando constantemente maçanetas, corrimão, chaves e todas as superfícies que temos contatos diários.

Embora estudos de biologia molecular têm comprovado com exatidão a origem biológica inquestionável do novo coronavírus, ainda permanece a dúvida de onde surgiu o primeiro caso da infecção humana. Essa questão ocorre devido às informações conflitantes em que a doença poderia ter surgido em um mercado de frutos do mar em Wuhan, na China, ou por meio de pesquisadores que há anos manipulam o vírus em laboratórios de alta segurança biológica. Particularmente, trago essa informação aqui para quebrar o ciclo de notícias falsas que circulam nas redes sociais quanto uma possível origem não natural do vírus e conspiração envolvendo o povo chinês.

Por fim, no longo prazo, esperamos que a ciência nos entregue uma vacina eficiente que venha a imunizar a população mundial, pois, felizmente, a comunidade científica tem trabalhado com afinco para desenvolver métodos seguros de combate a pandemia. Em especial, quando o novo coronavírus chegou ao Brasil, encontrou uma equipe de pesquisadores que, prontamente, em tempo recorde, realizou o mapeamento genético do vírus, pesquisadores esses que, muitas vezes, tem trabalhado de forma voluntária ou são subestimados pela população que desconhecem a importância de desenvolver ciência e tecnologia no país.

Apesar de Jussiape ainda não ter registrado nenhum caso de Covid-19, o isolamento social vem perdendo força nas últimas semanas na cidade e em áreas rurais do município. Quais os riscos que a população corre ao optar por não aderir ao confinamento social neste momento? Os métodos de isolamento residencial, distanciamento social seguido por quarentena são cruciais para limitar a transmissão do vírus e reduzir o número de pessoas que podem procurar a Casa de Saúde, que, até o meu conhecimento, é desprovida de infraestrutura e recursos humanos para combater a covid-19. Em especial, a situação de Jussiape é mais agravante devido ao alto número de pessoas em situação de risco que, segundo dados do IBGE, revelam uma considerável população idosa. Entre outras maneiras, o novo coronavírus pode ser transmitido por meio de gotículas de saliva. Altamente contagioso, infecta tanto pessoas que adoecem rapidamente como aquelas que se mantém assintomáticas, embora continuem a favorecer sua propagação. Portanto, são nestes fatos que residem o perigo de precocemente não seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no tocante ao isolamento social. Ademais, a possível subnotificação dos casos, muitas vezes devido à falta ou demora na realização de testes, sugere que a velocidade de propagação do vírus poderia ser maior do que a registrada, nos acendendo um alerta mesmo em uma população tão diminuta como a da nossa querida Jussiape.

Por outro lado, há uma preocupação mundial quanto à economia durante o período de quarentena, principalmente com a população em situação de carência social e financeira. Particularmente, acho extremamente difícil seguir com sucesso essa dicotomia (vidas versus economia). No entanto, acredito muito na empatia com o próximo no sentido a minimizar os efeitos de um isolamento social, seja ajudando financeiramente alguma pessoa, cordialmente comprando alimentos e remédios para alguém do grupo de risco ou até mesmo um simples telefonema, uma vez que além do problema econômico, o isolamento pode trazer efeitos psicológicos indesejados.

Sendo assim, minha orientação ao povo jussiapense é que fique em casa, cuide da família, amigos e pessoas em situação de risco. É momento de exercer o amor ao próximo. Quanto aos empreendedores e empresários, continuem trabalhando preferencialmente na modalide de delivery ou, em último caso, de portas fechadas, atendendo uma pessoa por vez e adotando constantes medidas de higiene pessoal e do ambiente, bem como o uso de máscara que a partir de agora deve ser obrigatório. Ressalto que essas últimas recomendações são para aquelas pessoas que, infelizmente, não podem adiar quaisquer tratamentos que estão em curso. Reitero que as pessoas devem evitar ao máximo saírem do isolamento, a não ser que seja estritamente necessário neste momento. Certamente o mundo dos negócios será outro após a pandemia, devido à avenida de possibilidades que o isolamento social trouxe para o comércio, seja por delivery, drive-thru, reuniões virtuais, cursos EaD, plataformas de bancos digitais, entre uma infinidade de possibilidades. 

No início do ano, sua preocupação como cientista, era tão grande quanto nas últimas semanas sobre o risco de uma pandemia? Na sua opinião, os governos protelaram medidas importantes diante do risco do Covid-19? Em dezembro de 2019, o mundo entrou em alerta sobre a iminência de uma nova epidemia de coronavírus, desde então minha preocupação aumentou consideravelmente com a possível chegada desse vírus no Brasil. Até que, em meados de fevereiro de 2020, o Sars-CoV-2 chegou ao Brasil sendo importado da Itália, logo após o período de carnaval.

Certamente, houve negligência do setor público para evitar a pandemia, uma vez que cientistas já alertavam há anos a possibilidade de um novo surto de coronavírus. Negligência que pode ser compartilhada por todos os governantes no mundo que protelaram ações de combate, informação e investimento em ciência e tecnologia para se precaver de um mal que ataca sem distinção a população mundial.

Durante esse novo surto de coronavírus, em minha opinião, acredito que o governo brasileiro demorou muito para controlar as nossas fronteiras, sobretudo os aeroportos. Segundo informação obtida por outros pesquisadores, supostamente quem traz as novas doenças é a classe média, que viaja mais, uma situação inversa da que acontecia outrora, quando marinheiros eram acusados de trazer doenças importadas.

Há uma perceptível falta de memória histórica na população brasileira sobre o que é uma doença infecciosa com taxas de mortalidade consideráveis. Aglomerações podem ser vistas em qualquer cidade do País. Quais medidas necessárias os gestores deveriam tomar neste momento da pandemia? Sem sombra de dúvidas, as mais diversas pandemias que passaram por nosso país deixaram um legado na história com um número significativo de óbitos e de pessoas mórbidas. Por exemplo, a gripe espanhola do início do século 20, também de alcance mundial, infectou cerca de 500 milhões de pessoas, o equivalente a um terço da população mundial na época, e em cerca de dois anos matou entre 25-50 milhões, que no período tinham um total desconhecimento do que era um vírus. Essa experiência foi capaz de nos mostrar a necessidade de estudar a causa da doença e, no longo prazo, elaborar planos de preparação para enfrentamento de pandemias. No entanto, ao passo que hoje detemos o conhecimento acerca de diversos vírus, ainda permanece pouco efetivo um plano coordenado para enfrentar pandemias, com ressalvas para as amplas medidas de vacinação em massa adotadas há anos pelo SUS.

Em minha opinião, várias medidas podem ser tomadas pelo poder público jussiapense: manter as pessoas informadas quanto os números de casos na região e a importância de manter o isolamento residencial, distanciamento social e quarentena; monitorar pessoas que estão no grupo de risco ou vieram de epicentros de contaminação; promover a assistência às pessoas em situações de carência socioeconômica; estimular o comércio local com serviços por meio de “delivery, seja mercados, feiras, farmácias, restaurantes e outras necessidades básicas; orientar e fornecer equipamentos de proteção individual aos profissionais de saúde; adquirir com o governo estadual e federal testes rápidos para Sars-CoV-2; estabelecer uma lei municipal para uso de máscara caseira durante a pandemia, inclusive a prefeitura deve fornecer um lote dessas máscaras confeccionadas por artesãos locais; estimular o movimento de empatia e responsabilidade social, talvez, fomentando a criação de grupos de jovens, não detetores de comorbidades preexistentes, capazes de ajudar pessoas vulneráveis; isentar ou adiar tributos fiscais durante a pandemia; estabelecer uma equipe e local para receber possíveis doentes em casos mais avançados de Covid-19.

Nos últimos dias, notícias de pessoas infectadas pela segunda vez chamaram a atenção do mundo. O fato se apresenta com ineditismo para a ciência? O que se sabe até agora sobre esses casos? A reinfecção pelo novo coronavírus tem sido observado em algumas situações de grande exposição a altas cargas virais, portanto, esse fato não é inédito. Também a verdade é que o mundo está aprendendo dia após dia com o coronavírus. Além do mais, o método de RT-PCR utilizado para detecção de Sars-CoV-2 é muito sensível, capaz de detectar fragmentos de material genético do vírus em quantidades absurdamente pequenas, talvez, em alguns desses casos de suspeita de reinfecção, poderia ter ocorrido, na verdade, uma contaminação da amostra a ser testada. Particularmente, acho pouco provável que nesse momento uma reinfecção seja um grande problema, até por que as análises moleculares indicam que Sars-Cov-2 não possuem uma alta taxa de mutações, o que certamente é importante para o reconhecimento do nosso sistema natural de defesa.

Há alguma previsão de quando voltaremos à vida que tínhamos? Infelizmente, neste momento é difícil determinar uma data para que possamos voltar à vida que tínhamos, uma vez que nem se quer alcançamos o pico epidemiológico da doença. O importante, no momento, é que se agirmos hoje, teremos evitado diversas infecções no próximo mês e assim teremos uma melhor definição de quando voltaremos ao normal.

O que mais te assusta sobre o vírus ou causa maior impacto em você como pesquisador? Com certeza a alta taxa de transmissão do vírus que pode levar ao colapso do SUS e a falta de suprimentos para testar em massa a população brasileira. Para se ter uma ideia, no início do século 20, o vírus da gripe espanhola demorou três meses para dar a volta ao mundo, enquanto no momento atual, em um mundo globalizado, o novo coronavírus levou apenas 48 horas, segundo destaca uma recente reportagem na revista Fapesp.

Como cientista, qual o conselho mais importante que você daria para a população de Jussiape se manter segura do Covid-19? Fiquem em casa, cuidem da família, amigos e pessoas em situação de risco, é momento de exercer o amor ao próximo.

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