Do ponto de vista normativo, o uso dos particípios passados gastado e ganhado é correto e faz-se de maneira igual à de outros particípios regulares, isto é, ocorrendo só com o auxiliar ter. Com o auxiliar ser, o particípio passado tem sempre forma curta ou irregular (gasto e ganho). No entanto, há muito que certos gramáticos vêm assinalando a preferência do uso pelas formas irregulares destes particípios passados, mesmo em associação com o auxiliar ter («tinha gasto/ganho»):

– Vasco Botelho de Amaral, no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas da Língua Portuguesa (1958), observa que ganhado «vai rareando», e gastado, também.

– Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1984, pág.440) consideram que pagado foi substituído por pago, e ganhado com gastado tendem a ser substituídos pelas formas irregulares.

– Em obras exclusivamente elaboradas por gramáticos brasileiros, as posições podem não coincidir completamente: E. Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, 2002, págs. 229/230) inclui ganhado, gasto e até mesmo pagado ao lado das formas curtas numa lista de formas participiais duplas, mas deixa indicação de estas formas irregulares poderem usar-se tanto na passiva como nos tempos compostos. Maria Helena de Moura Neves (Guia de Uso do Português, 2003), procurando conciliar a tradição normativa com a observação do uso por meio de corpora, apresenta ganhado e gastado como formas pouco usadas.

– Na Gramática do Português (GP) da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, 2013, p. 1490) considera-se que Cunha e Cintra (1984) são demasiado taxativos sobre o uso de pagado, ganhado e gastado, porque, apesar de haver alguma preferência pelos particípios curtos nos tempos compostos, há falantes que veem como correta a ocorrência de particípios regulares nesses contextos (a perspectiva da GP apoia-se nos juízos dos falantes, não sendo porém coincidente com a gramática prescritiva, porque esta se fundamenta apenas no uso dos bons autores para definir regras e critérios).

Refira-se que uma consulta do Corpus de Português (Mark Davies e Michael Ferreira) confirma o escasso uso de ganhado e gastado em textos do séc. XX.
Em suma, os particípios regulares aqui referidos são considerados corretos entre os gramáticos com preocupações normativas, mas alguns entre estes não deixam de frisar que se trata de formas pouco usadas. Seja como for, em contexto escolar, por exemplo, numa situação de exame, nenhuma destas formas estaria errada: «tinha ganhado»/«tinhas ganho», «tinha gastado»/«tinha gasto».

Finalmente, apesar de os mais puristas os considerarem errados*, a verdade é que o particípio passado empregue ocorre na descrição gramatical há já algum tempo; por exemplo, Bechara (2002) diz que é forma recente, característica do português de Portugal). E mesmo encarregue, constantemente condenado pela norma mais conservador**, também já é mencionado pelo Dicionário Houaiss, desde a 1.ª edição, de 2001, mais uma vez, como forma usada em Portugal.

** Encarregue não é aceite, porque o particípio passado de carregar, verbo donde deriva encarregar, é carregado, e não *carregue. A forma em causa, de origem popular, terá sido motivada pela analogia com entregue, particípio passado irregular de entregar, mas não são de excluir razões eufónicas e semânticas para o pouco apreço de encarregue entre os mais ciosos da elegância na expressão: com efeito, encarregue evoca carregue, 3.ª pessoa do singular do presente do conjuntivo do verbo carregar, que ocorre em expressões ofensivas como«(que vá para) o diabo que o/a carregue»; a forma não seria, portanto, adequada a um discurso isento de conotações vulgares (assinale-se que estas considerações constituem mera suposição, não encontrando apoio nas fontes consultadas).

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