Imagem: Reprodução


Ao buscar analisar sob uma óptica mais específica, Adson Muniz é um exemplo clássico da manifestação do poder em determinados sujeitos atuando sobre outros sujeitos. Seja pelas violações cometidas contra diversas mulheres, ato em que o agressor imprime sua condição de permanente dominante, seja pela experiência que permite o regozijo através da aquisição de bens materiais, dinheiro ou manutenção do status quo, sempre imprimindo influência, por meio do poder, sobre outras pessoas.

É possível, até certo ponto, fazer um paralelo distinto ao pensamento de Michel Foucault, que defende que o poder não está centrado em uma instituição. Mas, ao entender a microfísica do poder articulado ao Estado e que atravessa toda a estrutura social, é que, então, fica evidente como o ex-vereador requeria sua posição nas relações sociais existentes do seu tempo e, para entender mais profundamente seu comportamento, é necessário dispor de uma olhar mais crítico e sensível às pretensões sociais de Muniz.

Adson Muniz, a priori, reclamou no cargo de vereador uma prática construída social e historicamente sobre os pilares do poder. O reconhecimento da comunidade a qual ele pertencia e as novas e distintas formas de se relacionar com essas pessoas entrelaça-se com o que pode ser chamado de configurações invisíveis da manifestação do poder.

Ao considerar que o poder está sempre em movimento, portanto, em constante transformação, Muniz reconhece outras dissemelhantes expressões de poder, tentando romper com a última relacionada. Desta vez, ele tenta ocupar o cargo no Congresso Nacional, como deputado federal. É evidente que a sua insaciável procura por uma nova composição de poder exige mais concentração de poder. Logo, Adson Muniz expôs sua pretensão de ocupar o cargo mais alto como autoridade máxima do Executivo de um Estado soberano, se tornando presidente da República.

Ele encontrou, nos cargos eletivos ocupados democraticamente, por meio da disciplina, o que estabelecem as relações opressor-oprimido. Trata-se, neste caso, de uma relação assimétrica que institui a autoridade e a obediência, como postulado por Foucault. É a estrutura social vigente. Muniz encontra nos cargos a sustentação das instâncias de autoridade, sobretudo os poderes instituídos do Estado.

Adson Muniz, 36, recebeu penas que somadas totalizam 59 anos e oito meses de prisão em regime fechado pelos crimes praticados contra mulheres entre os anos de 2016 e 2017. O ex-vereador de Jussiape, que se passou por um agente policial enquanto praticava crimes, foi condenado pela Justiça por estupro e roubo à nove vítimas. No entanto, a decisão ainda cabe recurso, segundo apurou o G1 e a TV Globo.

O ex-vereador não tinha passagens criminais até então. Ele pretendia se tornar presidente do Brasil um dia. Muniz aparece ao lado de um carro importado com a seguinte legenda: Adson Presidente: o Brasil em primeiro lugar!”.

Seguidor das ideias de Donald Trump, Adson Muniz chegou a chamar de amigo o futuro presidente dos Estados Unidos em 22 de agosto de 2015. Viagens a Mônaco e à final da NBA, nos EUA, além de hospedagens em hotéis de luxo são outros momentos que foram retratados nas redes sociais em imagens postadas pelo ex-vereador.

Muniz afirmou nunca ter matado ninguém e que seu foco é se tornar candidato à Presidência da República para acabar com a corrupção e com as mortes no país. Ele ainda disse ainda à imprensa que quando foi vereador em Jussiape, havia ajudado bastantes pessoas no município e que a população é testemunha de suas benfeitorias.

Nota-se facilmente nas declarações do político a engrenagem posta por Foucault de como o poder age na sociedade. Primeiro, ele expressa um desejo ávido em se tornar presidente – estabelecendo a maior instância de poder cogitada por ele –, em seguida, ao exibir a manutenção do status quo, por meio de um suporte material e um cenário que inspira poder, exerce novamente a mesma aquisição de poder. Por último, ao afirmar altivamente que quando ocupou uma posição de autoridade, ele ilustra como relações opressor-oprimido se ajustam ao próprio tecido social do seu tempo e espaço.

Algumas vítimas abordadas por Muniz contaram ao G1 que, quando não era correspondido, ele as ameaçava com uma arma de brinquedo, mostrando um distintivo, dizendo ser policial federal. Em outras ocasiões, chegava até mesmo a dizer que era amigo do preso Marcola, Marcos Willians Herbas Camacho, uma das lideranças da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) para intimidar as mulheres.

“Ele falou: ‘eu sou o Adson Muniz e sou famoso, olhe minhas fotos na internet’”, contou uma empresária de 50 anos que o reconheceu como o homem de terno que a abordou no Itaim Bibi, bairro de alto padrão de São Paulo. Como não deu nenhuma importância, ela disse que ele a atacou gritando: ‘Eu também sou amigo do Marcola’. Me puxou pelo braço, me deu um beijo na bochecha e comecei a andar rápido [sic]”.

A insistente busca por mais poder – ao exibir conexões e recursos que possibilitassem esses novos estados – se confirma no próprio discurso do ex-vereador. Entender a mente humana e os seus mais enigmáticos labirintos é fundamental para explicar fenômenos sociais como crimes e outros desajustes imperfeitos de comportamento.  


publicidade

publicidade