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A voz de Machado ecoa em meus alunos

Foto: JUP

Há exatos 111 anos, em um 29 de setembro, o escritor e jornalista Euclides da Cunha presenciou e noticiou os momentos finais de Machado de Assis. Como uma das suas mais célebres personagens, o Bruxo do Cosme Velho também não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.

Mas não é sempre que Machado é lembrado pelos seus mais de cem anos de morte. Muitas vezes, o autor é trazido ao calor das memórias por jovens estudantes por meio das constantes reclamações dele trazer uma linguagem demasiadamente rebuscada e difícil em seus romances, como Memórias Póstumas de Brás Cubas.     

Pensando no abismo secular, antes de apesentar o Bruxo do Cosme Velho aos meus alunos, eu me rebusco de uma estratégia infalível que consiste em procurar conhecer o perfil psicológico e social de cada um deles, ainda que de forma ligeira e superficial.

Se um aluno veio da periferia de uma grande cidade brasileira, começo dizendo que Machado nasceu no Morro do Livramento, zona portuária pouco privilegiada do Rio de Janeiro, que conserva muito de uma cidade oitocentista.

Posso dizer também àqueles que gostam de utilizar em seus questionamentos determinadas figuras de pensamentos, que recursos linguísticos, como a ironia e o sarcasmo, estão presentes na obra de Machado, revelando o humor fino do autor.

E ainda a quem se interessar pelo erotismo velado na literatura, traição ou triângulos machadianos, apresento contos, como “Missa do Galo”. O que importa neste momento de contato com a literatura machadiana é a realidade de cada estudante, pois, ao encontrar afinidades e semelhanças na vida de cada um deles, se torna viável dar início à abordagem ao estudos sobre o maior escritor brasileiros de todos os tempos.

Muito embora a obra de Machado de Assis seja quase que exclusivamente dedicada à crítica aos costumes burgueses, é possível encontrar uma diversidade de temas dentro desse universo urbano da sociedade burguesa oitocentista.

É evidente que alguns temas machadianos se sobrepõe a outros. Explicar, por exemplo, se Capitu traiu ou não Bentinho, se torna um caso à parte. É uma discussão sem fim, mas extremamente necessária para quem se dedica a estudar literatura brasileira.

Por se tratar de um autor do Realismo, eu revelo a todos como esse movimento nega o ideal do amor romântico inventado no século 19.

Na verdade, uma coisa puxa a outra, pois quando eu exploro a trilogia realista composta por obras escritas pelo autor, explico aos meus alunos a frustração de Machado em não ter se tornado o bardo do teatro brasileiro. Pouca gente sabe, mas Machado nunca sonhou em ser um escritor renomado. Para quem não sabe, o nosso bruxo foi, talvez, o maior admirador da sua época de William Shakespeare, e cultivou o sonho de se tornar um grande nome do teatro, assim como o dramaturgo de Stratford.

No entanto, as expectativas do escritor chegaram ao fim ao receber uma carta de um amigo em que o aconselhava com muita estima a se dedicar a outros gêneros nos quais pudesse encontrar verdadeiro talento. Anos mais tarde, Machado encontraria a celebridade nos romances e contos publicados ainda em vida.

Mas, no fim das contas, o que eu faço apenas é desatar as duas pontas da vida. Seja desvendar as artimanhas literárias em Dom Casmurro ou me debruçar sobre a vida de Joaquim Maria, a literatura sempre rompe com os limites impostos à arte da palavra.