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Amiga que cuidou de ‘Zeca Alfaiate’ na velhice participa de homenagem ao artista

Amiga e comadre de Zeca Alfaiate participa de homenagem ao artista Foto: Will Assunção/JUP

José Rodrigues de Brito, artista de multilinguagens, foi homenageado na tarde da última sexta-feira (8), no evento em que alunos do Colégio Estadual Horácio de Matos, em Jussiape, participaram dos projetos estruturantes desenvolvidos desde 2007 pela Secretaria da Educação do Estado com ações nas áreas de arte e cultura.

Almides Ribeiro de Novais, 88, foi convidada pela direção do Colégio para participar do evento, que homenageia o artista, por ser uma integrante da família que cuidou de Rodrigues na velhice. “Gostei, e muito, até porque eu não esperava que (a homenagem) fosse daquele jeito. Eu fiz de tudo por ele, e não me arrependo de nada, ele era muito querido e até foi meu compadre”, disse a amiga do artista.

Ao receber de presente da organização uma caneca com a foto do alfaiate estampada, a comadre do artista brincou, “é bom que dá para tomar café”.

José Rodrigues de Brito nasceu em São João do Paraguaçu, atual município de Mucugê, na Chapada Diamantina. O artista fez o ensino primário em sua terra natal, onde foi colega do médico Edgard Prates e Carlos Machado. No mesmo período, José Brito participou de grupos de teatro escolar. Já na adolescência, ainda estudante, aprendeu o ofício da alfaiataria, o que lhe renderia anos mais tarde o apelido de Zeca Alfaiate.

Nos primeiros anos da década de 1930, Rodrigues veio para Vila de Jussiape, na companhia de Augusto Alfaiate, onde residiu até os últimos dias de sua vida. Segundo o pesquisador e diretor do Museu de Antiguidades de Jussiape Onildo Silva, o homem com maior número de afilhados no município contribuiu para diversas manifestações cultuais e artísticas de Jussiape.

Artista plástico, dramaturgo, alfaiate e grande entusiasta e incentivador da cultura, José Rodrigues Brito participou com protagonismo de manifestações culturais, como reisado, teatro, Carnaval, São João e da queima de Judas.

Sua participação no Reisado de Olavo da Rocha Luz, realizado entre os dias 1º a 6 de janeiro, era sempre lembrada por comemorar o nascimento de Jesus Cristo.

Já no Carnaval, sempre realizado no final do mês de fevereiro para o início do mês de março, as fantasias utilizadas na festa do Cordão de Olavo eram confeccionadas pelo alfaiate Zeca, como era conhecido pela população. A Burrinha de Ouro, feita pelo alfaiate, percorria as ruas da cidade, como uma das atrações carnavalescas.

Aos sábados de Aleluia, na Semana Santa, era feita a “Queima de Judas”, como uma antiga tradição extinta no município, aberta ao público. O boneco, que representava o personagem bíblico, era confeccionado pelo próprio alfaiate e preso a uma estrutura em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Saúde, no centro da cidade.

A leitura do testamento era geralmente feita pelo médico da cidade Feliciano da Silva Assunção. Após a divisa dos bens de Judas, o acusado de trair o primogênito do deus judaico-cristão era queimado ao som do grupo de terno de reis “A Minerva de Justino”.

Zeca Alfaiate é retratado em tela Foto: Will Assunção/JUP

Zeca Alfaiate comemorava o Dia de Santo Antônio com uma celebração em sua residência e, ao final, distribuía licores e bolos para seus convidados. Nos dias de festejos juninos era apresentada uma jornada com jovens vestidos de caipira, com vestimentas produzidas pelo próprio anfitrião das comemorações.

Amante das artes cênicas, José Rodrigues Brito marcou sua chegada a Jussiape com algumas peças teatrais, que eram apresentadas no fundo do prédio da Câmara Municipal de Vereadores e em frente a sua própria residência, ambas localidades ficam na Praça Rodrigo Alves Teixeira.

A produção trazida aos palcos do município por Zeca Alfaiate, que mais se popularizou entre o público foi “Bárbara Heliodora - A Heroína da Inconfidência”. A montagem foi apresentada pelos estudantes do Colégio Normal Dr. Edgard Prates, em 1976, no Clube Social.

Dedicado às artes plásticas, José Rodrigues de Brito sempre manteve uma relação de multilinguagem com a arte. Suas pinturas eram sempre expostas na parede de sua alfaiataria e, geralmente, retratavam pessoas ligadas a ele, além de ser comum, em suas telas, cenários bucólicos.

Suas obras despertavam curiosidade na população e nas pessoas que costumavam frequentar sua “tenda” – espécie de ateliê onde se dedicava ao ofício de alfaiataria.

“Padrinho Zeca, como era chamado pela população de Jussiape, era alguém respeitado e admirado não somente pelos seus afilhados, mas por todos aqueles que o conheciam”, pontua Onildo Silva à agência de notícias Jussi Up Press. Segundo o diretor da instituição museal, Zeca foi o padrinho com o maior número de afilhados no município.

No início da década de 1980, provavelmente no ano de 1984, Jussiape perderia uma das figuras que mais contribuiu com a cultura e a arte no município. José Rodrigues faleceu em Jussiape, em sua residência, deixando um imensurável legado cultural.