Header Ads

LightBlog

Cultura digital: Facebook e sua linguagem líquida


As comunidades virtuais são extensões dos gêneros digitais e nelas as possibilidades de expressão entre usuários têm uma gama maior. A visão de que o mundo se renova por completo atinge os usuários das tecnologias digitais, que apresentam o fenômeno social representado pelas comunidades virtuais como um sistema autopoético, crítico, e visionário, inerente à sociedade do conhecimento. Nessas comunidades virtuais, percebemos atitudes de colaboração e cooperação entre os usuários integrantes dessas comunidades, como o uso de processos de auto-organização com apoio de recursos lógicos, físicos e ideológicos constituintes da comunidade. Os usuários mantêm um senso de comunidade e linguagem que compartilham.

Reconhecem também o universo simbólico particular apresentando um senso de respeito pelas convenções do grupo e responsabilidades. Aqueles que não o respeitam são exonerados da comunidade. Acessível a todo o momento, permite o contato e a resposta imediata a qualquer comentário feito na rede. Integrada aos espaços públicos como parte geográfica, os meios digitais passam cada vez mais para estados físicos, contribuindo na formação do espaço.

Essas comunidades virtuais visam solucionar problemas do mundo contemporâneo e trazer possíveis soluções, algo complexo que acaba por não atingir os objetivos finais de todos os integrantes, apresentando qualidades e problemas, pois a liberdade no uso da internet pode ser tanto positiva quanto negativa, e se dá pelas implicações particulares de cada integrante. Recriadas, reinventadas, as comunidades virtuais não se tornam estáveis, elas e seus integrantes agem de acordo com a situação momentânea a qual o mundo vive. Nestas páginas da comunidade, há uma constante ligação de textos gerando a hipertextualidade, em que aglomerados de informações se fundem, não se limitando a uma única visão; apesar de o texto sofrer modificações em sua forma substancial ao se concretizar no meio digital, os textos tornam a interatividade constante. Um arquivo digital pode ser acessado a qualquer momento e hora, e não ocupa espaço físico considerável. Com uma característica peculiar na demonstração de sua não linearidade, estes meios digitais tendem a aperfeiçoar-se na transmissão dos textos a cada era.

Os hiperlinks citados por Santaella são agentes condutores dessa diversificação e distribuição da informação por meio do texto. É meio de conexão que favorece a veiculação da informação rápida nos meios digitais tecnológicos, inclusive nas comunidades digitais. Os integrantes de uma comunidade têm a necessidade dessa hipertextualidade buscada em outros gêneros digitais. Com retrato do desconhecido, do cotidiano, de lembranças familiares, de suas leituras e hábitos, dos sonhos pessoais e profissionais, de política, da escola, das aulas, dos professores, de religiosidade, de inquietações com o futuro, da sexualidade, dos amores, mecanismos ocultos de escolhas, gestos e sensibilidade, defende Marchuschi e Xavier.

Ela passa a ser a extensão de inúmeros gêneros, uma comunidade ultrapassa questões concretas dissolvendo-as com as várias visões de seus integrantes. A volatilidade também está presente, não nas características das pessoas, mas na forma como se coloca diante das condições do mundo social, político e histórico.

Nas comunidades virtuais os integrantes rebuscam olhares de pessoas que compartilhem das mesmas opiniões e indignações, em defesa de suas ideias com objetivos comuns. Muitas vezes o que perpetua a durabilidade de uma nova comunidade virtual são as opiniões adversas, fazendo com que integrantes usem da interatividade para defender suas ideias adversas ou não.

Assim como toda e qualquer mídia, a comunidade digital ou virtual usa a tecnologia em prol da informação, populariza ainda mais o uso da internet. Criadas e desfeitas, as mídias digitais ganham força ou perdem força na medida em que tratam de assuntos atuais que indignam ou cativam a sociedade. Na verdade, quanto mais atual o tema, mais credibilidade se aponta ao meio. Neste fato é que percebemos a volatilidade da mídia: “Em certos casos, esses gêneros emergentes parecem projeções ou ‘transmutações’ de outros como suas contrapartes prévias”, pontua Marchuschi e Xavier.

A comunidade virtual envolve três pontos usados constantemente em sua composição; o uso do visual, sonoro e verbal adequando-os ao contexto. Ela apresenta grande representatividade no mundo digital, foca a composição textual, não se tratando apenas de aglomerados de expressões soltas em um meio digital. O fato de ser um texto digital não descaracteriza de um texto não digital, ambos seguem as mesmas definições.

Para Lévy, novos tipos de leitura se permitem a partir de um texto digitalizado: os textos se conectam a outros por meio de ligações hipertextuais, possibilitando prático e rápido exame do conteúdo, acesso não linear e seletivo do texto, segmentação do saber em módulos, conexões múltiplas, processo bem diferente da leitura em papel impresso. O autor chama esse processo de continuum variado, que se desenrola entre a leitura individual de um determinado texto e a navegação em vastas redes digitais, que pode ser realizada por um grande número de pessoas.

Assim, em relação à noção de hipertexto, todo texto, para ser um texto, seja digital ou não, precisa apresentar textualidade, isto é, não pode ser um amontoado de palavras e frases soltas e ideias sem nexo. Isso significa que todo texto precisa apresentar coesão (conexão entre as palavras) e coerência (conexão entre as ideais).

Em um texto lido, as palavras e expressões devem fazer conexões umas às outras em relação à compreensão textual. Elas indicam a sequência de fatos no tempo e opõem ideias. Estas, por sua vez, quando articuladas numa sequência lógica, garantem a coerência. Um texto apresenta textualidade na medida em que é bem-estruturado, ou seja, formando um todo significativo.

Essas características, mencionadas em relação a um texto escrito, não desqualificam um texto virtual veiculado nas comunidades virtuais. A internet tornou-se fonte da criação de neologismos na língua, por meio da dinâmica partida do comportamento humano. Há momentos em que os neologismos deixam de ser criações de plenos pensamentos e passam a vulgarizar e banalizar a linguagem virtual e globalizada.

A dinamicidade do comportamento humano, [...] ditado pelo ritmo frenético das mudanças tecnocientíficas, tem atingido diretamente as ações e, consequentemente, vem produzindo criações lexicais e terminológicas inéditas. A informática é uma das áreas de inovação tecnológica que mais tem contribuído para o surgimento de neologismos. Em Linguagens da Internet: um Meio de Comunicação Global, Fernanda Galli analisa alguns aspectos da linguagem veiculada pela internet, especificamente os processos de banalização e/ou de vulgarização que envolvem os termos que circulam na grande rede. A pesquisadora centrou-se nos vocábulos técnico-informáticos que são determinados pela reflexão coletiva e interligam-se a um sistema de padronização do uso social inserido no contexto da comunicação virtual e globalizada, acrescenta Marchuschi e Xavier.

Os empregos corretos desses textos como comunicação fortalecem os meios de comunicação digitais, que se tornam documentos digitalizados e de acesso comunitário. Quando se cria uma comunidade virtual, ultrapassam-se pensamentos individuais e aprofundam-se em questões sociais que rodeiam a sociedade mundial. Por meio do acesso rápido e fácil, a internet facilita a comunicação entre culturas diferentes que acabaram por se difundirem em pensamentos e objetivos iguais. O aparecimento de uma linguagem universal, no seu sentido amplo, é um dos aspectos mais importantes da globalização. Por necessidade estes gêneros mutáveis adaptam-se ao desenvolvimento sócio-político-cultural do século e tendem a ser renovados a cada passo da humanidade.

Seja por meio de uma rede social, de uma comunidade virtual, a nova era está digitalizada e reconstruída em sua essência, não importando quem usufrui, mas sim a devastação que uma publicação pode causar e incomodar a população mundial, com demonstrações, seja por meio de palavras ou gestos. O mundo volátil do novo século é o percussor dessa evolução efervescente da digitalização em função do crescimento da evolução. Para exemplificar o uso corrente da cibercultura, destacamos a linguagem líquida utilizada em
usuários da rede social Facebook. Foram selecionados materiais contidos na rede social Facebook durante um período de 24 horas consecutivas. Dois perfis cederam informações para este livro-texto: o sujeito número 1 é do sexo masculino, tem 15 anos e apresenta 8 anos de escolaridade; o sujeito número 2 é do sexo feminino, tem 31 anos e apresenta 11 anos de escolaridade.

A página do Facebook disponibiliza ícones de solicitação de amizades (as quais independem de os usuários de se conhecerem pessoalmente), atualização de mensagens privadas entre usuários e atualização de posts, (mensagens adversas inseridas no site), as quais permitem a visibilidade de todos os usuários da rede que integram a lista de “amigos” do usuário. O material acessado e objeto do presente estudo foi retirado dos posts dos dois sujeitos-alvo. A análise de dados foi elaborada considerando o formato da página do Facebook, convergindo, assim, com as questões já citadas anteriormente sobre conceitos de liquidez e suas manifestações em decorrência dos usuários e receptores. Santaella pormenoriza os conceitos de volatilidade, espontaneidade e velocidade na transmissão da informação.

A análise do material também foi realizada baseada nos conceitos discriminados a seguir:

- não-linearidade: geralmente considerada a característica central;

- volatilidade: devido à própria natureza virtual do suporte;

- especialidade topográfica: por se tratar de um espaço de escritura/leitura sem limites;

- definidos, não-hierárquico, nem tópico;

- fragmentalidade: visto que não possui um centro regulador imanente;

- multissemiose: por viabilizar a absorção de diferentes aportes sígnicos e sensoriais, numa mesma superfície de leitura (palavras, ícones, efeitos sonoros, diagramas, tabelas tridimensionais);

- interatividade: devido à relação contínua do leitor com múltiplos autores praticamente em superposição e em tempo real;

- descentração: em virtude de um deslocamento indefinido de tópicos, embora não se trata, é claro, de um agregado aleatório de fragmentos textuais.

Sujeito 1:
A observação do material transcrito do sujeito 1 revela ausência de elementos sequenciais coesivos, com trocas de turnos comunicativos breves e rápidos, voláteis. Os tópicos discursivos caminham e se diferenciam a cada minuto, com formas não lineares de interação, como observado nos trechos a seguir.

Os tópicos discursivos não mantêm o mesmo tema e, ao mesmo tempo, aparecem com o intervalo de 3 minutos entre as duas postagens iniciais e com intervalo de 16 minutos entre a segunda e a terceira.

Chama a atenção a velocidade das postagens, que ocorrem sequencialmente, muitas vezes em intervalos menores que dois minutos. Essa velocidade se relaciona com a espontaneidade do processo de produção, o que diferencia este tipo de comunicação com a produção escrita, por exemplo. A velocidade pode ser visualizada mais acentuadamente no trecho a seguir:

As postagens são realizadas sequencialmente. Foram realizadas três produções em um intervalo de dois minutos. Quanto aos aspectos linguísticos, há vários trechos que são escritos reproduzindo a oralidade. Há inobservância de algumas regras ortográficas, bem como a tentativa de imitar marcas importantes da oralidade em suas construções.

Essas produções evidenciam não apenas a utilização de simplificações ou abreviações, mas também há características fonéticas de produção reproduzidas. Algumas regras sintáticas e ortográficas presentes na escrita também não são valorizadas.

A organização textual é independente de um eixo central, sem sequenciamento de informações. Essas formas verbais de transmissão de informação garantem ao autor da mensagem a oportunidade de manifestação quase que em tempo real, garantindo sua visualidade para outros internautas que receberão sua informação prontamente.

Na produção a seguir, o sujeito despede-se das pessoas que estão visualizando suas postagens e anuncia o horário preciso em que irá dormir. Dentre os tópicos propostos para a análise, todos estão presentes como caracterizadores dos trechos produzidos pelo sujeito 1 e foram demonstrados no conjunto do material apresentado. A multissemiose também pode ser notada, com o anexo de textos, figuras e vídeos aos posts empregados pelo sujeito, conforme exemplificado nos trechos a seguir.

O sujeito 2 foi observado no dia 19 de novembro de 2012. Tais postagens podem ser visualizadas pelo controle de tempo no qual foram publicadas. Dessa forma nos interessa discorrer sobre o seus conteúdos, particularidades e variações significantes, como tais interações sofrem mutações e como tais mutações ocorrem de acordo com a necessidade do analisado.

De acordo com Bauman, a questão de criticidade amplia muitas formas e se adapta a variadas necessidades. Neste aspecto, interessa-nos salientar que o conteúdo anexado não perde seu senso crítico, por tratar-se de um hipertexto ou gênero digital. A questão da crítica em comentários e postagens do Facebook também se adaptou à versatilidade e inconsistência que o Facebook permite.

A comunidade do Facebook interage de maneira própria e adaptável às suas necessidades, o que nos leva a crer que toda maneira de exposição e opinião torna-se válida às variadas tribos e comunidadesque cercam tal gênero. O conceito de não linearidade é uma das questões mais recorrentes de hipertextos e gêneros eletrônicos, em que a interação social ou particular independe de uma centralidade no que tange o decorrer do assunto. Neste aspecto, podemos considerar a quebra deste eixo em comparação à próxima postagem:

Nesse anexo podemos visualizar traços de oralidade e sustentação dos conceitos de Bauman, sobre a descentração, conceito este muito abordado em gêneros eletrônicos, o qual permite ao usuário posicionar-se sobre vários ângulos, havendo um deslocamento de posições ou ideais. A presença multissemiótica na imagem apresenta-se pela variedade de suportes contidos na mensagem, sendo pela presença de imagens ou nas marcas de oralidade contidas nesta postagem.

O sujeito cria em si vários “papéis” e estes se complementam, no decorrer de sua interação, presenças voláteis e inconstantes de suas manifestações. O Facebook possibilita a interação da cadeia de amigos do usuário pelos ícones “curtir ou comentar”, e identificamos assim a interação social que tal rede proporciona. Os conceitos de liquidez contidos na mensagem dão suportes a outras ideias que tais usuários inserem na postagem, agregando opiniões ou comentários adversos.

Nessa imagem, podemos observar a presença da fragmentalidade, decorrente da inconstância de colocações, tal inconstância ocorre pela ausência de um meio regulador. Nesse aspecto, verificamos que não há uma necessidade de ser veiculada a mensagem, esta flui sem grandes necessidades de retorno ou alguma resposta específica.

A base na análise de dados foi elaborada visando ao formato da página do Facebook, convergindo assim com as questões já citadas anteriormente sobre conceitos de liquidez e suas manifestações em decorrência dos usuários e receptores deste meio de comunicação. Inicialmente é importante frisar que o Facebook representa suporte digital, sendo assim, seus acessos e meios digitais fluem de formas variadas e sem limites de tempo ou espaço. Desta forma, flui com vasta liberdade, conforme Bauman “o acesso diferencial à instantaneidade é crucial entre as versões correntes do fundamento duradouro e indestrutível da divisão social em todas as suas formas historicamente cambiantes: o acesso diferencial à imprevisibilidade e, portanto, à liberdade. Nesse aspecto, destacamos nesta análise a questão da volatilidade e interatividade, aspectos que estão intrinsicamente inseridos nessa interação entre os usuários/receptores e em como essas questões se manifestam no decorrer de variadas situações.

O usuário deixa de ser considerado o sujeito passivo e torna-se ativamente responsável pelas questões de flexibilidade, interatividade e mudanças rotineiras da forma de pensar e, assim, torna-se imprescindível que haja uma ordem central de comunicação, mesmo que esta se torne vaga com o decorrer do tempo. Antes do Facebook ou outros meios de interação digital, essas manifestações de liquidez eram mais restritas ou fechadas (comunicações eram mais demoradas), o que não permitia um dinamismo tão eficaz e interativo como as interações de hoje em dia. O hipertexto e suas formas verbais e não verbais garantem ao receptor a oportunidade de se manifestar e se fazer visto em tempo quase real, garantindo assim melhor visualidade e exposição nessas mídias.

No hipertexto o usuário/receptor torna-se agente e cria em si várias identidades, permitindo a ele manifestar ideais sociais, políticos, religiosos, ou as mais variadas formas de dogmas que possui, ampliando assim tais ideias em ambientes abertos que garantem a interação e pontos de vista variados com outros meios. Podemos assim inferir que tal interação é reflexo de uma sociedade que a cada dia torna-se mais fluida em suas formas de pensar, agir e interagir com os demais. A análise dos conceitos de liquidez revela que a sociedade torna-se fluida à medida que suas ideias e percepções estão totalmente enraizadas no Facebook, não podendo separar que isto influencia, de variadas maneiras, conceitos e pensamentos que escorrem diariamente do Facebook para sociedade e da sociedade para o Facebook.

A questão de liquidez associa-se diretamente à necessidade e adaptação da sociedade no que tange a interação e possibilidades variadas de comunicação. Os hipertextos também são formas de estruturas textuais, sendo assim, a variedade hipertextual existente nestes meios surge da necessidade de cada usuário/receptor, e suas exigências com tal interação. O hipertexto constitui um suporte linguístico-semiótico, hoje intensamente utilizado para estabelecer interações virtuais desterritorializadas. É uma escritura não sequencial e não linear, que se ramifica e permite ao leitor virtual o acesso praticamente ilimitado a outros textos, a partir de escolhas locais e sucessivas em tempo real.

As coisas atualmente mudam com muita rapidez, a necessidade de aperfeiçoamento não permite que se tenha uma estrutura fixa. Com o surgimento da globalização em um processo de interação e proximidade com as pessoas, tudo corre muito rápido, as novas tecnologias permitem que as informações cheguem com tamanha rapidez a qualquer lugar do mundo, e isso afeta diretamente a vida das pessoas, em suas decisões diárias. As pessoas decidem suas vidas de acordo com o que está acontecendo em sua volta e, como as informações correm rápido, as coisas mudam com a mesma rapidez, uma decisão a ser tomada torna-se instável, podendo ser mudada a qualquer momento de acordo a necessidade que virá a seguir. Podemos encontrar aí o motivo para o crescimento das redes de interatividades virtuais, nesses locais as pessoas podem se comunicar sem se vincular a algo ou alguém, pois podem facilmente sair ou desligar-se desses meios sem grandes efeitos na sua vida.