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O que é língua?

Há um debate sobre o rompimento com a visão de língua como estrutura, ao mesmo tempo em que há uma tendência de entendê-la como uma construção social. A concepção de língua como estrutura, conjunto de regras, está ligada à corrente estruturalista e também à corrente chomskiana de estudos linguísticos. A primeira, fundamentada em Saussure, enfatizava a língua como estrutura e excluía de sua análise a fala, ou seja, excluía exatamente o uso social da língua.

A segunda, fundamentada em Chomsky, via a língua como um conjunto de regras inatas ao falante, considerava competência e desempenho, mas excluía da análise linguística o falante real, ou seja, excluía também o uso social da língua.

Práticas de sala de aula pautadas na visão de língua como estrutura e conjunto de regras são aquelas que se mostram preocupadas com o uso correto da língua, reforçando comportamentos linguísticos considerados mais adequados e descartando os considerados menos adequados; são as práticas que enfatizam e priorizam o ensino da gramática.

Vamos, agora, à concepção de língua que orientará toda a nossa discussão didático-pedagógica na concepção da língua como construção social. Essa visão é sustentada pelos estudos de Bakhtin, que, em meados do século 20, considerando a língua como um fato social que existe em função da necessidade dos indivíduos se comunicarem, valoriza a fala e formula a teoria da enunciação.

A linguagem é vista então como resultado da interação humana e tem caráter essencialmente dialógico, não apenas como alternância de vozes, mas como confronto de vozes que existem em tempo e lugar social, historicamente determinados.

Para Bakhtin e Volochinov, o enunciado não é somente a matéria linguística. Outra parte, não verbal, correspondente ao contexto da enunciação, é de fundamental importância. Essa abordagem sociointeracional da linguagem considera que é na intersubjetividade e na interação das diferentes vozes que compõem o discurso, que as manifestações ideológicas se apresentam, deixando transparecer os pontos de vista de cada indivíduo no ato da comunicação.

Ainda para Bakhtin e Volochinov, estudar a linguagem enquanto um processo físico, fisiológico ou psicológico, não bastaria. Essas esferas isoladas não explicariam um fato linguístico senão fazendo parte de um contexto mais amplo de relações imbricadas, ou seja, o contexto social.

Segundo o objetivismo abstrato, língua e fala estariam separadas uma da outra. A língua seria objeto da linguística (formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua) e nessa perspectiva, o indivíduo receberia, em seu meio social, um sistema imutável, de normas estáveis, de caráter abstrato e objetivo.

Não seria considerado, nessa visão, o contexto da enunciação; a língua estaria desvinculada da esfera real de produção e de qualquer valor ideológico.

A crítica de Bakhtin e Volochinov nesse sentido refere-se, principalmente, ao fato de que nessa visão não se considera a história da língua e o valor ideológico que ela tem para cada falante, não sendo diretamente acessível a sua consciência. A língua estaria fora do fluxo da comunicação verbal e enquanto este fluxo avança, ela permaneceria estável.

Bakhtin e Volochinov veem os indivíduos penetrando na corrente da comunicação verbal e se conscientizando de forma a poder usar a língua. Bakhtin e Volochinov expressam-se em relação à linguagem, considerando a interação verbal como sendo uma síntese dialética constituída a partir do subjetivismo idealista e do objetivismo abstrato.

Para ele, toda enunciação é determinada por uma situação social imediata e pelo meio social mais amplo no qual o indivíduo está inserido e se dá na interação entre os indivíduos. Para Bakhtin e Volochinov a verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação
verbal realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua.

Ao considerar a linguagem, por um lado, a partir de suas características formais e, por outro, de suas características sociais e de subjetividade, enquanto discurso, podemos analisa-la e compreendê-la como interação e mais ainda, como o lugar privilegiado para que os sujeitos manifestem suas representações ideológicas. Esse lugar do conflito que se dá pela linguagem, é, entre outros, a sala de aula. As relações sociais que acontecem nesse ambiente, em nenhum momento podem ser atribuídas a um sujeito individual, mas, segundo o dialogismo bakhtiniano, a um sujeito que se constitui socialmente por meio das interações verbais das quais participa.

Considerando-se essa concepção dialógica de língua/linguagem, as práticas didático-pedagógicas em sala de aula de língua portuguesa ou de línguas estrangeiras não devem ter como foco o conteúdo das disciplinas. Estes são, nessa visão, artefatos culturais ou instrumentos que propiciam aos estudantes (sujeitos da atividade) contextos para produzir, compreender, interpretar, negociar significados de situações de uso da linguagem, necessárias ao seu desenvolvimento.