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Amor e ódio: como Drummond mudou de opinião sobre Machado de Assis

RUAN DE SOUSA GABRIEL

Foto: Reprodução

Em 1958, Carlos Drummond de Andrade publicou, no “Correio da Manhã”, o poema “A um bruxo, com amor”. Os versos passeiam pela obra de Machado de Assis, lembram alguns de seus personagens — “Marcela, a rir com expressão cândida”, “Capitu, (olhos) abertos como a vaga do mar lá fora” — e elogiam a agudeza do Bruxo do Cosme Velho (apelido que Drummond ajudou a espalhar): “Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.”

Mas não se engane, leitor. A relação do poeta de Itabira com o velho Machado nem sempre foi pacífica. Em 1925, quando ainda era um estudante de farmácia de 22 anos, Drummond publicou, na imprensa mineira, o artigo “Sobre a tradição em literatura”. No texto, Drummond acusa Machado de “romancista tão curioso e, ao cabo, tão monótono” e professor de uma “falsa lição” a ser repudiado. Sim: repudiado.

“Amor nenhum dispensa uma gota de ácido”, livro recém-publicado e organizado pelo machadiano Hélio de Seixas Guimarães, professor da Universidade de São Paulo (USP), ajuda a entender como o repúdio juvenil se transformou em admiração e poesia na maturidade. O livro reúne 37 textos escritos por Drummond entre 1925 e 1986 (dos 22 aos 83 anos) nos quais Machado de Assis é invocado. A maioria dos textos foi recolhida nos arquivos da Fundação da Casa de Rui Barbosa, onde estão os cadernos e pastas de recortes colecionados pelo bibliófilo Plínio Doyle e pelo próprio Drummond.

— O que os textos de Drummond sobre Machado mostram é justamente a passagem da recusa à compenetração, por parte do escritor mais jovem, da lição do escritor mais velho — observa Guimarães. — Essa trajetória do repúdio à incorporação, descrita por Drummond, coincide em grande medida com o que Machado significou para o modernismo brasileiro.

Segundo o autor, os modernistas reconheciam a excepcionalidade de Machado, mas, ao mesmo tempo, o viam como um escritor passadista, associado ao academicismo e ao lusitanismo.

“Machado era pedra no caminho dos modernistas, se quisermos usar uma imagem drummondiana. Para Mário de Andrade, Machado sempre seria um engasgo. Para Drummond, foram necessárias algumas décadas para incorporar a escrita machadiana a sua dicção”, afirma Hélio de Seixas Guimarães.

Para o modernista, Machado era quase um estrangeiro, um escritor afrancesado, requintado demais e, principalmente, distante do Brasil real, esse que a patota moderna queria redescobrir. Não era fácil para aqueles jovens que sonhavam renovar a literatura pátria, como Drummond e Mário de Andrade, engolir um antepassado como Machado, fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL) e sepultado sob os elogios parnasianos de Olavo Bilac. “A razão está sempre com a mocidade”, escreveu Drummond, em 1925, para justificar o repúdio ao Bruxo do Cosme Velho.

Com o passar dos anos, Drummond passou a publicar elogios a Machado, o autor da “obra de arte literária mais perfeita já elaborada no Brasil”. Quando a ABL transportou os restos mortais de escritor, do jazigo que dividia com a mulher, Carolina, para o mausoléu acadêmico, o poeta itabirano se valeu de seu espaço na imprensa para protestar contra esse “atentado”.

Em vários textos, Drummond recorda o trabalho burocrático de Machado no Ministério da Viação. O itabirano também passou a vida a bater ponto em repartição pública. A condição de funcionário-escritor talvez tenha contribuído para amolecer a pena de Drummond, que também compartilhava outras afinidades com o velho Machado, como o estilo límpido, pessimista e ácido, escrito com a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

Figura paterna
Não foi só Drummond que reviu suas impressões de Machado. Ao longo do século 20, críticos modernistas espanaram a poeira academicista que cobria a obra machadiana e passaram a lê-la como uma crítica corrosiva à sociedade brasileira. Em 1981, o poeta sugeriu que o Prêmio Esso de jornalismo fosse concedido a Machado, que continuava “o mais atual, o mais agudo observador do nosso tempo e sociedade”.

— Sem dúvida a ironia e a densidade reflexiva são um traço comum a esses dois escritores-funcionários, que nos deixaram algumas das páginas de prosa e poesia mais críticas e autocríticas escritas no Brasil – afirma Guimarães. — Se lermos os poemas de Drummond em paralelo aos seus escritos sobre Machado, podemos notar muitas correspondências entre a transformação da figura paterna e a mudança de sua visão sobre o velho escritor. É como se as palavras do antecessor fossem ganhando sentido mais pleno com o passar do tempo.

Em um texto de 1986, Drummond reafirmou sua admiração por Machado e tentou justificar suas malcriações juvenis: “nenhum amor dispensa uma gota de ácido”.