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Tipos de narradores


Narrador onisciente intruso (editorial omniscience)
Para Leite, o narrador onisciente intruso, presente mais no sumário do que na cena, caracteriza-se pela total liberdade de narrar a história, a partir de qualquer ponto de vista: de fora, de frente, por cima, opinando e comentando sobre o narrado.

Utiliza como canal de informação ao leitor, suas próprias palavras e pensamentos. Ele pode opinar e/ou comentar sobre o caráter das personagens, os fatos ocorridos, os costumes e a moral, sendo que nem sempre essa intromissão está articulada com a história narrada. Há, dessa forma, a observação direta por parte dele, concomitantemente ao acesso aos pensamentos das personagens, numa espécie de mediação da relação leitor-personagem.

Pode-se dizer que essa categoria narrativa foi muito utilizada pelos escritores dos séculos 18 e 19, como, por exemplo, Machado de Assis. Os narradores machadianos interferem de fora nos acontecimentos narrados, mostrando ao leitor a importância das intenções implícitas contidas neles. O narrador onisciente intruso, então:

- intromete-se na narrativa, tecendo comentários, julgando o comportamento das personagens;
- valoriza o sumário;
- possui liberdade para narrar de qualquer ângulo;
- narra à vontade, pode utilizar-se de várias visões;
- seu traço específico é a intrusão, ou seja, faz seus comentários sobre a vida, os costumes, os caracteres, a moral, que podem ou não estar entrosados com a história narrada.

O excerto do romance “Quincas Borba”, de Machado de Assis, é exemplar para a visualização desse tipo de narrador. Perceba como o narrador dialoga com o leitor e revela suas opiniões e constatações:

Narrador onisciente neutro (neutral omniscience)
Esse tipo de narrador, o onisciente neutro, aparece de forma neutra, sem intromissão no desenrolar da narrativa. Ele possui estratégia de ângulos, de distância e dos canais, similar à do narrador onisciente intruso. A única diferença é a ausência de comentários, opiniões e manipulação das personagens.

Utiliza-se do sumário e, algumas vezes, experimenta a cena narrativa em trechos de diálogos e ação. Desse modo, o narrador onisciente neutro:

- sabe tudo sobre as personagens;
- é construído na primeira ou terceira pessoa;
- tende ao sumário;
- não interfere na narrativa com comentários;
- é impessoal, mas sua presença se interpõe entre o leitor e a história.

Para Leite, esse narrador apareceu como alternativa narrativa dos escritores oitocentistas. No século 20, foi utilizado por alguns romances policiais americanos, como a obra O falcão maltês, de Dashiel Hammett.

Aqui, sem a opinião do narrador, fica ao leitor a possibilidade de inferência sobre o acontecimento. O foco está na descrição externa até mesmo do sentimento da personagem, por meio dos detalhes de suas feições e gesto. Os outros dois exemplos, retirados dos livros Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert, podem confirmar as características neutras desse tipo de narrador

“Eu” como testemunha (“I” as witness)
Em primeira pessoa, aparece o narrador-testemunha. Ele é um narrador que participa da história, mas, não sendo protagonista, possui uma visão de uma personagem secundária. Com isso, há uma grande limitação no aprofundamento sobre as situações observadas, sem possibilidades de chegar a alcançar os pensamentos das personagens.

Ele apenas lança hipóteses do que testemunhou, ouviu falar ou encontrou em documentos de que se apossou. A sua visão é totalmente interna e mais próxima das personagens, tornando a narrativa mais verossímil. Assim, nessa categoria narrativa:

- não há mediação de uma voz exterior;
- o narrador geralmente não é a personagem principal, mas pode ser uma personagem importante que narra os acontecimentos dos quais participou; é uma personagem secundária que observa os acontecimentos;
- seu ângulo é a periferia, está fora dos fatos, mas dentro da narrativa e pode observar os fatos de modo mais direto. Mediante esse seu perfil de testemunha, confere à história um caráter de mais verossimilhança;
- não tem acesso aos pensamentos das personagens, utilizase de cartas, documentos secretos, depoimentos;
- usa da cena ou sumário.

Segundo Leite, em O nome da rosa, de Umberto Eco, a personagem secundária, o monge, é o narrador-testemunha que acompanha a vida da protagonista:

Outro exemplo é a narrativa de Machado de Assis, intitulada Memorial de Aires. O narrador Aires centra-se na história da família de D. Carmo e na história de amor de Fidélia.

“Eu” como protagonista (“I” as protagonist)
O “eu” como protagonista é aquele narrador que participa da história como protagonista. Ele não possui onisciência e narra de um ponto fixo, a partir do “eu”, limitando a narrativa a suas percepções, pensamentos e sentimentos. Desse modo, centra-se nas percepções subjetivas do eu protagonista, distanciando-se do foco objetivo.

Ele pode utilizar-se da cena e do sumário, como no caso anterior, mantendo–se próximo do leitor, distante ou alternando ambas as distâncias. O narrador-protagonista:

- toma parte ativa da narrativa, mas perde a onisciência, pois não tem conhecimento de tudo o que se passa na história;
- tem centro fixo, é limitado a seus pensamentos e sentimentos;
- usa da cena ou sumário: a distância entre a história e o leitor pode ser próxima ou distante;
- não é onisciente;
- tem limitação na narração e centro fixo: está limitado às percepções, pensamentos e sentimentos dele.

Em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, a história é narrada por meio do ponto de vista do protagonista, Riobaldo. Podemos encontrar outros exemplos no conto Missa do galo, de Machado de Assis, no qual a personagem central, o Sr. Nogueira, relembra um acontecimento pessoal de sua vida, e em Dom Casmurro, também de Machado de Assis, no qual narrador é o próprio protagonista Bentinho.

Onisciência seletiva múltipla (multiple selective omniscience)
Na onisciência seletiva múltipla, o narrador é onisciente, em terceira pessoa, porém, ao mesmo tempo, conduz a história a partir das percepções de várias personagens, utilizando-se do discurso indireto livre. Nesse caso, ora está de fora, observando, ora está por dentro, em primeira pessoa, dando voz aos pensamentos e sentimentos das personagens, porém, sem as marcas comuns ao estilo direto, como travessão, dois pontos, aspas etc. Pode-se dizer que o recurso cena é predominante, mesclando a visão exterior do narrador. Dessa forma, na onisciência seletiva múltipla:

- perde-se o narrador: a história vem diretamente da mente das personagens, das impressões que fatos e pessoas deixam nelas;
- há predomínio da cena e do discurso indireto livre;
- acontece o monólogo interior, ou seja, os pensamentos, em sua formação com alguma ordenação lógica, são articulados, coerentes;
- ocorre o fluxo de consciência: atividade pré-consciente vem à tona por meio de pensamentos desarticulados, incoerentes.

Em Vidas Secas, segundo Leite, Graciliano Ramos vale-se da onisciência seletiva múltipla: a voz do narrador mistura-se à voz das personagens, expondo seus pensamentos e sentimentos ao leitor.

IMPORTANTE
Nem sempre é fácil distinguir o monólogo interior do fluxo de consciência; este é mais desordenado, os pensamentos parecem manifestar-se diretamente do inconsciente.

Onisciência seletiva (selective omniscience)
Já a onisciência seletiva é similar às funções da onisciência múltipla. A única diferença está no fato de que os pensamentos e percepções advêm apenas da personagem central. Gustave Flaubert, Virgínia Woolf e Clarice Lispector difundiram essa categoria narrativa.

De acordo com Leite, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi uma das primeiras obras literárias que utilizaram da onisciência seletiva. Os pensamentos e sentimentos da protagonista Emma Bovary são revelados diretamente ao leitor por meio do discurso indireto livre.