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Machado de Assis: literato, antiescravista e conservador; conheça a visão satírica do escritor

ANDRÉ NOGUEIRA

Machado de Assis Foto: Reprodução

A literatura brasileira tem nomes de peso, mesmo a nível social. Porém, da vasta produção literária no país, poucos se destacam mais que Machado de Assis, um dos principais contistas e romancistas fluminenses e um dos mais relevantes escritores da língua portuguesa, junto a José Saramago, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa. Além de uma vida interessantíssima, a produção escrita de Machado é um profundo mergulho nas perspectivas e críticas da sociedade de sua época, o mundo escravocrata e aristocrata da Rio de Janeiro imperial.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) era um homem singular. Monarquista convicto, homem bastante conservador e ácido crítico da aristocracia brasileira com que tinha contato. Este escritor viveu o momento de maior dinâmica da capital Rio de Janeiro, momento em que esta era a capital imperial de uma monarquia extremamente oligárquica e estamental, que sustentava como principal eixo das relações sociais citadinas o mundo da escravidão. Diferentemente de, por exemplo, Lima Barreto, responsável por uma crítica escancarada do escravismo na sociedade, Machado era muito sutil, trabalhando na chave da ironia que estruturava um texto altamente crítico à realidade escravista e racista, mas que fosse lido pela própria aristocracia escravocrata, em frente a um debochado retrato de si mesma.

Machado e Joaquim Nabuco Foto: Reprodução

Machado de Assis era um homem negro e de origem significativamente humilde, mesmo que tenha sido sempre representado como branco. Nascido no Morro do Livramento, na periferia do RJ, ele passou poucos anos na escola pública e não frequentou qualquer universidade ou liceu. Ao contrário, Machado era interessado pelo mundo da boemia e da vida social. Porém, mesmo que o autor nunca tenha aprendido a ler e escrever na escola, sua experiência pessoal foi marcada pelo autodidatismo, forma como ele aprendeu a leitura e a escrita não somente da língua portuguesa, mas também o inglês e o francês. Machado também nunca saiu do Rio de Janeiro, tendo viajado, no máximo, ao município de Petrópolis.

O escritor acreditava na ideia de ascensão pessoal na sociedade através da cultura e do conhecimento erudito, percebendo bem quais os reais critérios de hierarquização social no mundo urbano imperial, composto por intelectuais, políticos e nobres. Aprendendo a ler e contar, Machado passou por três ministérios do governo (Agricultura, Comércio e Obras Públicas), além de ter sido diretor de bibliotecas e arquivos.

Nesse aspecto, Machado é um homem bastante conservador. Mesmo contra a escravidão, as questões políticas e sociais para ele não passavam pelo crivo da tentativa de mudança do mundo, mas da denúncia pragmática dos podres da sociedade, carregada de uma aceitabilidade da vida real e do esforço de ingressar no esquema e nas relações de poder da sociedade, fazendo ser mais relevante a participação no sistema e usufruto dos artifícios possibilitados por ele do que uma tentativa de destruir os males da sociedade por fora.

Por esse motivo, Machado era um fissurado na literatura e um amante dos cânones e do mundo vernáculo e prosaico. Mesmo crítico à sua visão, Machado era um grande admirador de José de Alencar. Por esse motivo, ao entrar na Academia Brasileira de Letras, fundou uma cadeira em homenagem ao autor de Iracema (1865). Dessa maneira, vemos em Machado uma atração pela arte erudita e um gosto pelo mundo literário tradicional, mesmo que o próprio Machado brinque com a necessidade de voz da arte popular no caso de Pestana em seu conto “Um Homem Célebre” (1896).

Muitos historiadores e críticos literários concordam que o principal tema abordado por Machado envolve o mundo escravista e suas características autofágicas e degradantes. Além de uma crítica à escravidão como estatuto legal, a obra do artista, mesmo em sua fase romântica, traz denúncias das consequências sociais e subjetivas do mundo escravista na relação entre as pessoas, brincando ao mesmo tempo com a infelicidade da escravidão e com a tentativa de apagamento da questão pelo Império, que sempre tratou o assunto como uma lacuna jurídica e moral. Assim como os governantes não queriam discutir a questão servil, no universo literário machadiano o racismo escravista aparece nas entrelinhas.

Isso se torna básico de sua literatura quando Machado ingressa em sua fase realista. Quando romancista, sua denúncia fazia parte de um imaginário reproduzido pelos enredos em que as tramas românticas conciliam o problema apontado. Sobre influência de Balzac, Byron, Schopenhauer e Flaubert, o uso da lírica realista por Machado se encaixa perfeitamente na proposta de denúncia do autor. Diferentemente da proposta romântica, o realismo é caracterizado pela trama em que  as faces negativas e escondidas da sociedade – a realidade – são reveladas de modo singelo e ardiloso, porém gritante quando percebido, de modo que as relações pessoais narradas exteriorizam os problemas intrínsecos da sociedade. É a base mais completa para a denúncia de Machado à escravidão.

Uma das mais famosas obras dele, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), é considerada romance fundador do realismo brasileiro. No livro, Machado descreve um narrador-cadáver que conta sua história em vida em que Brás é, ao mesmo tempo, o herói-protagonista e um verdadeiro cretino apoiador da inferiorização de parte da sociedade. Seu filho, Fulgencio, é um trambiqueiro e agressor de escravos. O tempo todo, Machado descreve citações em que Brás Cubas demonstra as perversidades e os podres do cidadão fluminense que quer sucesso na vida da maneira mais prazerosa e menos custosa possível, sua amargura pessoal e seu pensamento escravocrata. A mesma ironia com tom de denúncia está, por exemplo, em Quincas Borba (1891), quando o protagonista se sente constrangido em trocar seu escravo por um cozinheiro francês e um criado espanhol. O problema não está na servidão, mas no fato de que Quincas não se sente confortável com os dois criados europeus. E ao vencedor, claro, as batatas.

Última foto conhecida do autor (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional de España)

É importante lembrar que a principal chave com que pensa Machado em sua obra é a ironia. Constantemente o autor está usando da ironia para brincar com seus personagens, enganar o leitor e satirizar a realidade. Ler Machado de Assis é ser engando por ele, ser constantemente levado a cair nas piadas e sátiras do autor a ponto de muitas vezes sermos tidos como tontos pelos jogos narrativos enquanto ele caçoa de nós. Um bom exemplo é Dom Casmurro (1899), em que vivemos discutindo uma questão completamente sem sentido e sem qualquer evidência para qualquer uma das opiniões. Mas mesmo assim acreditamos nas neuras de Bentinho e debates a possível traição de Capitu.

É impossível entender Machado de Assis sem entender sua ironia. É por isso que muita gente ainda não o entende na escola.