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A verdade da ficção: literatura pode ser lente poderosa para compreensão do mundo

OBJETIVO SOROCABA

Foto: Pexels/Divulgação

Não há como negar: a literatura de ficção é parte importante de nossas vidas. Não é necessário dizer uma coisa dessas aos leitores habituais. Cada vez que eles terminam um livro marcante, as personagens passam a fazer parte de seu mundo. Muitas decisões na vida real acabam passando pelo filtro da literatura.

Mais ou menos assim: o que Sancho Pança faria no meu lugar? Não resolve todos os nossos problemas, mas pode tornar tudo mais leve.

Mas os leitores esporádicos também recebem a influência da literatura de ficção. Muitas das novelas da televisão recorrem aos textos literários na hora da construção de personagens e da elaboração da trama. Não é incomum nos depararmos com um personagem idealista que cria um mundo paralelo de acordo com os seus valores e que enfrenta situações que tentam eliminar esse mundo paralelo. Isso é Dom Quixote.

Pensem nas variações em torno da vingança que marca o romance “O conde de Monte Cristo”. Várias das melhores séries deveriam fazer uma menção a Charles Dickens nos créditos. Se leitores habituais e esporádicos são devedores da literatura de ficção, espera-se que as narrativas sejam reconhecidas por todos nós como algo fundamental. Infelizmente não é assim. Muita gente encara as histórias inventadas como um passatempo interessante. E só. Para essas pessoas, a vida séria não se entrelaça com a fantasia: questões políticas e sociais graves devem ser tratadas por cidadãos realistas e frios. A fantasia fica com os idealistas ingênuos.

Trata-se de um equívoco. A literatura de ficção pode ser uma lente poderosa para compreendermos o mundo. O século 19, nesse sentido, caprichou. Balzac, Zola, Dickens, Flaubert, Tolstói, Machado de Assis e Eça de Queirós entregaram histórias poderosas que eram, ao mesmo tempo, retratos imbatíveis de uma época. No caso de Dickens, a literatura moldou algumas decisões do parlamento inglês. As discussões em torno de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, foram muito além da literatura.

Talvez, neste momento, alguém diga que esse poder da literatura de ficção se esgotou. Que as coisas não funcionam como funcionavam antigamente. Não há como negar que a concorrência aumentou. Basta olhar para o lado e perceber que a literatura não é, hoje, a principal fonte de narrativas. Mas ela não está morta.

Escritores como Ian McEwan e Amós Oz têm publicado, nas últimas décadas, romances que abrem nossos olhos para questões fundamentais. Globalização, terrorismo, Guerra Fria, Israel, Palestina, aquecimento global e internet aparecem em seus romances. Não são panfletos. A atualidade aparece no meio de histórias maravilhosamente arquitetadas. O leitor desses autores ganha em dobro: narrativas que prendem e visões lúcidas de um mundo cada vez mais instável.