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Nem sempre a boca fala o que quer; às vezes, escapole

A linguagem do jornalismo, ou melhor, o texto jornalístico, na sua concepção mais ampla, deve ser claro, conciso, direto, preciso, simples e objetivo – está cravado na tábua do bom jornalismo. Características que advêm da própria natureza do jornalismo.

Na era das fake news e da pós-verdade, a desinformação é um dos pratos principais no cardápio da pós-modernidade. Mas, afinal, em quem confiar? A resposta é mais simples do que parece: em quem faz jornalismo de qualidade.

Fazer bom jornalismo não é tratar os fatos com mansidão, mas lidar com efemérides e opiniões e optar pela inteligência antes da emoção. Deve sempre prevalecer a clareza do raciocínio e, portanto, o domínio da razão sobre a paixão.

Outro ponto importante é pressupor conhecimento, e não ignorância. No jornalismo, ninguém tem direito à ignorância. Não há espaço para a insipiência. Deve-se entender das factualidades para, então, transmiti-las ao público.

Este texto mais parece uma aula de jornalismo do que um artigo de opinião. Na verdade, a imprensa muitas vezes precisa deixar claro como se concretiza a própria atividade jornalística, a exemplo dos discursos direto e indireto, além do indireto livre – este último tem provocado uma confusão envolvendo imprensa, políticos e autoridades Brasil afora.

No discurso direto a transcrição exata da fala de alguém, sem participação do narrador. Já o discurso indireto é marcado pela intervenção de quem narra ao utilizar as suas próprias palavras para reproduzir as falas dos envolvidos.

Tido como o mais dinâmico e opaco dos discursos, o indireto livre é aquele que permite que os acontecimentos sejam narrados em simultâneo, estando as falas dos envolvidos direta e integralmente inseridas dentro do discurso do narrador.

Tornou-se comum, após divulgação de declarações polêmicas ou controversas, por parte da imprensa, figuras públicas tentarem negar ou desdizerem suas próprias falas expostas pela imprensa. Isto porque boca nem sempre fala o que quer; às vezes, escapole mesmo. Ou, em última hipótese, tem-se o azar de escolher a palavra errada.

De qualquer forma, a imprensa está longe de ficar isenta de erros. O jornalismo é feito por seres humanos e, portanto, é suscetível a erros. Ainda mais quem se propõe a fazer jornalismo diário, como a Jussi Up.

Como diretor de conteúdo, cargo equivalente a editor-chefe e publisher, eu também atuo como redator, repórter e fotógrafo. E com quase dez anos na Jussi Up, defendo que a agência continue inquieta e em constante renovação, mas sem abrir mão dos valores que a consagraram: jornalismo crítico a todos os poderes instituídos, independente, plural e apartidário. Além de produzir o melhor conteúdo sobre Jussiape. Prova disso é como nos comportamos na cobertura dos fatos.

Ocasionalmente, a Jussi Up lida com alguns entraves, isto porque desde que adotou uma postura mais crítica e independente, com a renovação editorial em outubro de 2016, entidades e personalidades têm demonstrado dificuldade em entender o papel do jornalismo, que é o de iluminar os debates dos problemas coletivos, com informações bem apuradas e embasadas, monitorar o que fazem os políticos, além de se comprometer em defender a democracia e fatores que levem ao desenvolvimento do nosso município.

Atualmente, Jussiape vive em um cenário que é desejado por qualquer imprensa livre. E sempre que posso menciono publicamente como é lidar com um Executivo e um Legislativo que respeitam e entendem o papel da imprensa como exercício basilar da estrutura do Estado Democrático de Direito, inclusive essa minha fala é um ensaio para o editorial da agência que deverá ser publicado ainda nesta semana.

E do verbo se fez advérbio. É preciso cautela ao nos depararmos na imprensa com afirmações em que haja determinados adjetivos – como possível – e advérbios – tal como possivelmente –, pois implica em um entendimento semântico flexível. Ou seja, apenas expressa a possibilidade de concretizar o que foi dito, não necessariamente a consumação de uma ocorrência, como um fato.

O verbo pode talvez seja o mais utilizado pelos colegas profissionais da imprensa, pois se subtende uma informação. Isso significa que são informações dependentes da interpretação do leitor. Podem ser ou não verdadeiros e podem ser facilmente negados, visto serem unicamente da responsabilidade de quem interpreta a frase.

Trago à luz algo que aprendi com Nilson Lage, um dos mestres do jornalismo, sobre os verbos poder e dever. É preciso ter cuidados com esses verbos, pois, em primeiro lugar, pode tanto significa é capaz de quanto é possível que. Assim, a vacina pode prevenir a Aids tanto significa que ela é capaz de prevenir a Aids quanto ela tem possibilidade (talvez) de prevenir a Adis – os dois sentidos são nitidamente diferentes.

De igual modo, o verbo deve tanto significa tem obrigação de quanto é provável que. Assim, o presidente deve renunciar tanto significa que ele tem o dever (moral ou a intenção) de renunciar quanto é provável que ele renuncie.