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Contas precisa de força-tarefa para ser salvo

Foto: Will Assunção/JUP

O Rio das Contas, um dos nossos maiores patrimônios naturais, está comprometido por uma série de fatores que vão de assoreamento, ausência da mata ciliar, esgoto lançado nas suas águas à contaminação por agrotóxicos. A culpa? É toda nossa.

Sim, além de não possuirmos consciência sustentável voltada ao meio ambiente, nós ainda somos uma população formada por cidadãos mal educados. E é por isso que precisamos promover educação ambiental para que o cidadão pare de jogar lixo, pneu, móveis, produtos químicos e tudo o que for possível dentro do rio.

É provável que encontremos, sem grandes dificuldades, uma água escura e malcheirosa, no rio, ainda margeando a zona urbana de Jussiape. A visão que se pode ter é de dejetos em estado bruto de boa parte da população escorrendo a céu aberto até o Contas, ao alcance dos olhos e do nariz de qualquer pessoa. Ou seja, o esgoto doméstico se mistura aos resíduos que ficam depositados, por exemplo, em embalagens de agrotóxicos, que muitas vezes são descartados às margens do rio.

A partir do início dos anos de 1980, quando o grosso do esgoto doméstico começou a ser lançado diretamente no rio, a impressão que se tinha é que as águas do Contas levariam toda a sujeira embora, e que, no futuro, não teríamos problemas com a poluição ou contaminação do solo. Enquanto a sujeira era pouca, ele dava conta de se limpar. No entanto, já na década de 1990, as águas do Contas não suportaram mais a carga pesada de esgotos de uma cidade que aumentava a cada ano a sua população, e, ainda no início da primeira década do século 21, parte do Rio das Contas fora comprometida sem o governo avistar uma solução viável.

Ao alargar a calha do rio, que permitiu maior vazão, nós despejamos todo o nosso esgoto nele. Assim o rio, além de percorrer quase despido de vegetação, nos anos de 1980, foi sofrendo com o processo de poluição, se transformando em veículo receptor e transportador de resíduos domésticos. Além de restos de animais, que sempre eram lançados nas águas do Contas, contribuindo com a sua deterioração.

Trazer o Contas de volta é uma proposta que, à primeira vista, parece impossível. Mas até então não há em vista um projeto que estime o quanto custaria para despoluir as suas águas. O nosso rio precisa de um grupamento de unidades de diferentes tipos, temporariamente sob um comando único, para executar uma missão específica, que exige certa independência de cada unidade. Em outras palavras, o Contas precisa de uma força-tarefa que atue com eficiência para conseguir o que foi proposto.

Mas o problema não perpassa apenas pelo saneamento básico da cidade, construído sem nenhuma preocupação ambiental há quase 40 anos, o uso e descarte de embalagens de agrotóxicos. O assoreamento do rio — ou o acúmulo de terra no fundo — é um capítulo especial que merece igualmente destaque nesse debate.

O desassoreamento, feito geralmente com escavadeiras, retira toda lama do fundo e amontoa tudo o que foi retirado nas margens. Nesse sistema, escavadeiras hidráulicas, instaladas sobre flutuantes dentro do rio, retiram o lodo e a terra do fundo do leito, depositando-os sobre batelões. Após sua retirada, o resíduo é transportado por caminhões para um local destinado. É dessa forma que comumente um rio pode ser salvo do assoreamento. Uma ideia dentre tantas outras.

As margens do rio deveriam também ser utilizadas para empregos de táticas sustentáveis, como o plantio de árvores e grama. É um projeto muito ambicioso, e nós sabemos que não pode ser um feito exclusivo do governo municipal, já que deve envolver esforços dos governos estadual e federal, além da Embasa, concessionária responsável pela gestão de recursos hídricos no município.

O que diz a nossa Constituição é que o saneamento básico está estreitamente ligado ao direito à saúde e à moradia, previsto no art. 6º; e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, previsto no art. 225. Dessa forma, o saneamento básico não pode mais ser considerado como uma simples prestação de serviço público, já que se mostra como política pública hábil à concretização de direitos sociais.

Isto é, o saneamento básico é um conjunto de medidas para melhorar a vida e saúde da população. Estimativas do Ministério das Cidades, com números de 2015, dizem que 83% dos brasileiros são atendidos com abastecimento de água tratada, 50% têm acesso à coleta de esgoto e apenas 42% do esgoto do país é tratado. Esses números demonstram que grande parte dos esgotos vai diretamente para os rios e para o mar.

UM BANHO NAS ÁGUAS SUJAS DO CONTAS
A água do Contas não é poluída em todos os trechos do rio. A depender de onde suas águas passam, pode haver maior concentração de determinados poluentes, de matéria orgânica (agregadas a bactérias patogênicas) ou mesmo de agrotóxicos.

Na maioria dos casos, o perigo mais imediato é o dos pesticidas, trazidos para o leito do rio por chuvas sobre plantações às suas margens. Há uma avaliação, ainda sem comprovação científica, de que tais venenos não são quantitativamente letais devido à concentração despejada na água, no entanto, podem provocar sérios riscos à saúde.

A poluição orgânica vinda dos esgotos, por sua vez, é propícia para a proliferação dos vírus da poliomielite e da hepatite. Agrega também bactérias causadoras de febre tifóide, salmonelose e disenterias em geral.

De todo modo, o mais provável é que de imediato o que pode ocorrer com quem se banhar nas águas do Contas é uma diarreia, porque o germe da gastroenterite, responsável pelo sintoma, é a mais comum na água suja. Mas ainda existe o risco de sair até com uma doença que pode ser fatal, como hepatite ou febre tifóide. Em geral, as bactérias, vírus e outros parasitas que causam esses problemas chegam ao rio pelo esgoto doméstico – as nossas fezes é um oásis para esses microorganismos.

Entretanto não dá para afirmar ao certo que ficaremos doentes somente pelo fato de ter mergulhado em um trecho do rio considerado de alto risco. Entre outros fatores, o contágio vai depender da concentração de sujeira na água, da quantidade de líquido que você engoliu e da resistência do seu corpo. Além dos microorganismos do esgoto doméstico, outra bactéria perigosa presente nos rios sujos é a da leptospirose, transmitida pela urina dos ratos que fazem sua toca na beira dos cursos d’água.

MEDIDAS EMERGENCIAIS
A boa notícia é que é possível recuperar um rio poluído, sim. Basicamente, é preciso remover a fonte de contaminação, ou seja, garantir que o esgoto não seja mais lançado no rio sem o devido tratamento, retirar os contaminantes e contar com a vigilância da população. Saneamento básico em qualquer cidade é um dos fatores mais importantes para se manter um rio a salvo. No caso de Jussiape, significa que, na prática, devemos coletar, afastar e tratar os esgotos antes de lançá-los nas águas do Contas.

A fórmula é essa, mas a maioria das cidades não consegue aplicá-la. Um relatório da Comissão Mundial de Águas, entidade internacional ligada à ONU, aponta que entre os 500 maiores rios do mundo, mais da metade enfrenta sérios problemas de poluição. No Brasil, o triste exemplo é o Tietê, seguramente um dos rios mais poluídos do planeta.

O nosso rio, por sinal, recebe diariamente grandes quantidades de esgoto doméstico e, em trechos específicos, tem suas águas consideradas comprometidas.

Ao falarmos da despoluição do Contas, logo buscamos na memória outros rios que conseguiram ser salvos, como o Tâmisa, na Inglaterra. A história do rio mais sujo da Europa no século 19 começou a mudar na década de 1960, quando um sistema de estações de tratamento removeu quase 100% dos esgotos lançados no rio, que hoje tem peixes vivendo em toda a sua extensão.

O caso do Contas, talvez, seja um pouco mais complicado. Primeiro porque o rio que corta o nosso município está em um país que não considera as questões ambientais como sendo prioritárias. Segundo porque o próprio governo não tem se importado muito com a Bacia do Rio das Contas.

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