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O poema em prosa ou a prosa poética

Até o neoclassicismo, século 16, a distinção entre prosa e poesia baseava-se mais no aspecto formal do que no efeito de sentido produzido. A poesia caracterizava-se pelo uso da versificação, da escolha das palavras e das figuras de estilo. Entretanto, a partir do pré-romantismo ocorre significativa mudança: a prosa literária tende a poetizar-se pelo emprego de imagens, símbolos e ritmos, e a poesia busca aproximar-se cada vez mais da prosa literária, desprezando os esquemas formais: métricos, rítmicos
e estróficos. O verso livre passa a ser entendido como impedimento ao retorno fônico propiciado pela rima. A poesia atual privilegia o paralelismo sonoro.

Observemos o exemplo retirado do livro Iracema, de José de Alencar: Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares que brilhais, como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros! No exemplo anterior, composto linearmente em forma de prosa, vê-se abundância de recursos de linguagem poética: predominam as palavras em sentido conotativo (“mares bravios”, “verdes mares” são comparados à “líquida esmeralda”), recorrências sonoras, como a repetição de fonemas (/r/ em “Verdes mares bravios”; “terra”; “brilhais”; “frondes”). Nota-se ainda que a maioria das palavras é paroxítona, conferindo ao texto uma cadência rítmica pela alternância das sílabas fortes e fracas e refletindo uma visão subjetiva do autor a respeito dos elementos naturais da região descrita.

Assim, o que passa a distinguir prosa literária de poesia é o nível de poeticidade que apresentam, ou seja, a poesia diferencia-se da prosa literária pela presença, em maior grau, dos elementos fônicos, lexicais, sintáticos e semânticos, constitutivos da linguagem poética.