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É mais fácil culpar os professores do que admitir fazer parte de uma sociedade degenerada


Nesta semana, após uma página na internet afirmar que Jussiape possui a pior educação da Chapada Diamantina, uma ode, fundamentada no senso comum, contra os professores do município ganhou voz nas redes sociais. Os docentes foram atacados, julgados e condenados pelo mesmo tribunal que segue a cartilha da ignorância, e acredita que jovens são doutrinados em salas de aula e ideologia de gênero é uma prática corriqueira entre educadores.

Os dados de 2016, que tomam como base informações do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA) e do Índice de Performance da Educação nos Municípios (Ipem), reproduzidos sem nenhuma cautela, logo ganharam verniz de pós-verdade. Melhor, se transformaram em pós-verdade. O fato em si não importava mais. O grande feito era a sensação causada pela manchete; o impacto da notícia lustrosa, sedutora. O que não é de se estranhar em tempos já previstos por Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade líquida, é que ninguém – nem mesmo os que se dizem integrar órgãos da imprensa – se preocupou em checar fontes, verificar números ou contactar órgãos responsáveis pela avaliação do desempenho dos municípios baianos na educação. E, impulsionados pelo furor causado pelo sensacionalismo midiático, cabia agora aos receptores encontrar um culpado. O que não foi tarefa difícil.

Se em Jussiape a educação é pouco valorizada pelos gestores públicos e os repasses não são aplicados devidamente como prevê a Legislação, os professores – personagens centrais na educação – também são diretamente afetados, assim como seu filho, meu vizinho e o jovem da padaria, que sonha em ter uma boa educação para ter uma chance de ser alguém na vida. Ou seja, os professores não são vilões, mas vítimas de um sistema que precariza a educação no país. Se é um desejo nosso ver a cidade oferecer uma boa educação às crianças, é um anseio dos professores tralharem em um ambiente saudável, seguro e valorizado pela sociedade.

Apontar a culpa para os professores é fácil quando não conseguimos admitir fazer parte de uma sociedade degenerada. Para comprovar isso, basta pensarmos na possível conjectura: nós jamais encontraremos um engenheiro em uma sala de parto, realizando procedimentos necessários em uma lactante. Mas é possível encontrar, sem grandes dificuldades, profissionais sem nenhuma formação na área de educação atuando em sala de aula, ao lecionar para os nossos alunos.

O fato citado se torna fácil de acreditar quando nos deparamos com um levantamento divulgado pela Varkey Foundation, que atua na área educacional, ao tratar do Índice Global de Status de Professores sobre a percepção que a sociedade tem do prestígio dos educadores em 35 países. O documento revela que o Brasil continua andando na contramão. Enquanto no mundo inteiro os professores são cada vez mais respeitados pelos alunos, pelos pais de alunos e pela sociedade em geral, entre nós tem ocorrido justamente o inverso. O resultado foi determinado, entre outros fatores, pelos salários pagos à categoria, especialmente na rede pública de ensino, pela carga excessiva de trabalho, que os impede de estudar, por exemplo, e pela crescente falta de respeito dos alunos nas salas de aula.

É sempre necessário e urgente ratificar que o professor, como educador, é um agente formador de cidadãos conscientes, críticos e ativos, que passarão a exercer um protagonismo cada vez maior na sociedade em que estão inseridos. A educação, portanto, não deve ser achacada, mas aperfeiçoada sempre. Essa mesma máxima vale também para os educadores, seja os que atuam na rede pública ou privada de ensino. Precisamos entender de uma vez por todas que o professor é um contribuinte fundamental para os pilares de qualquer sociedade que se pretenda ser democrática e plural, portanto, desferir ataques irracionais aos professores e educadores em geral é golpear o que há de melhor em nós mesmos como um todo.