Header Ads

LightBlog

Um debate acerca do suposto racismo de Machado de Assis

É recorrente o questionamento acerca do suposto racismo do maior escritor brasileiro e o primeiro a presidir a Academia Brasileira de Letras – visto por muitos biógrafos como um gênio mulato, e tido por outros como um literato negro de alma branca –, Machado de Assis, que sofreu um processo de embranquecimento ao longo dos anos, é contestado enquanto a sua postura (ou a falta dela) diante, por exemplo, da causa abolicionista e de outras manifestações de racismo em um Brasil oitocentista.

Em seu livro “Todos Contra Todos”, o historiador Leandro Karnal escreve que “Machado de Assis, nosso mais genial prosador, não gostava de ser chamado de mulato. No enterro do escritor, ao fazer um elogio fúnebre a ele, afirmando que Machado era negro na aparência e grego na alma, o orador foi criticado por amigos, porque era uma coisa que Machado não gostaria que citasse. Nem sequer no enterro”. Ainda que a declaração se apresente como um objeto insuficiente para uma análise mais profunda e completa, há o fato de que a opinião fora proferida por amigos, e não pelo próprio Machado, eximindo-o de voz própria. Outro ponto que estudiosos da vida do autor levantam é que Machado de Assis era omisso a questões sociais da época e, portanto, não agradaria ao Bruxo do Cosme Velho ver seu nome envolvido em mais uma polêmica – ao dizer que era negro de aparência e branco de alma –, haja vista que ele era muito criticado por outros intelectuais do seu tempo, a exemplo do jornalista mulato José do Patrocínio, um dos gigantes causa abolicionista, pela sua apatia diante das efemérides públicas da época e por fazer vistas grossas ao movimento de libertação dos negros.

Se consultarmos os biógrafos mais famosos do autor, como Eloi Pontes, Peregrino Jr e Lúcia Miguel Pereira, encontraremos um consenso de que Machado procurou outros caminhos, mantendo relações com gente poderosa, a exemplo da Família Real Portuguesa. Seu ciclo de amizades era composto por livreiros, políticos, escritores e servidores públicos importantes da época. Sua timidez e introspectividade foram apontados, segundo Simone, de serem resultantes da dor oculta por ser mulato, estigmatizado pela gagueira e epilepsia, numa sociedade que fez de tudo para não aderir ao trabalho livre, escreve Carlos Nobre.

Nobre ainda afirma que alguns biógrafos o acusam ainda de ter abandonado a madrasta negra Maria Inês, que se encontrava viúva, depois que se tornou escritor conhecido. Machado tinha trauma do passado pobre, e por isto, tendia a se afastar de tudo que remetia a ele. Ou como escreveu o crítico Álvaro Moreyra, em “A Notícia”, em 29/8/1939: “O descendente de africanos não quis receber o legado de sua miséria. Disparou da origem. Substituiu a condição humana pela condição literária. Foi um grande escritor. Não foi um grande homem. O povo nunca o compreenderá”.

Segundo ainda a “A Gazeta de Notícias”, em 29/9/1908, citada por Simone, Machado sempre se pautou por uma relação com os outros de “não contrariar ninguém”. Nunca dava opiniões polêmicas sobre política e literatura e nunca destratava os escritores jovens quando abordado pelos fãs na livraria Garnier, pontua Nobre. Seus personagens de impacto poucas vezes foram pobres ou os miseráveis que ele viu no morro do Livramento. Ao contrário. Eles eram burgueses com altas crises existenciais, como Bentinho, de “Dom Casmurro”. As mulheres machadianas não eram as resistentes quilombolas dos morros da Saúde, mas mulheres elegantes, dominadoras, sensuais, mais encontráveis na badalada Rua do Ouvidor. Mesmo assim, Machado produziu uma literatura de alto nível, universalista, que até hoje encanta o mundo, e é o autor brasileiro mais estudado no Brasil e no exterior, revela Nobre.

Joaquim Nabuco, em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis, diz que: “Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego”, destaca Nobre.

Em 30 de setembro de 1933, o escritor Humberto de Campos, ao escrever um artigo para o “Diário de Notícias”, traçou o seguinte perfil do colega Machado de Assis, a maior glória da literatura nacional de todos os tempos: “Era miúdo de figura, mulato de sangue, escuro de pele, e usava uma barba curta e de tonalidade confusa, que dava ares de antigo escravo brasileiro, filho do senhor e criado na casa de boa família. Era gago de boca, límpido de espírito e manso de coração. E tornara-se pelo estudo e pelo trabalho o mais belo nome, e a glória pura e mais legítima, das letras nacionais”.

No entanto, 25 anos antes desta classificação racial empreendida por Campos, Machado de Assis era considerado um integrante da elite carioca, e portanto, um homem branco. Isto foi o quê anotou no atestado de óbito de Machado de Assis, o escrivão Olimpio da Silva Pereira. Esta anotação fora feita, após a morte do autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em sua casa, no Cosme Velho, em 29 de setembro de 1908, esclarece Nobre.