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Pragmática linguística

A pragmática linguística tem como objeto a ação materializada pela linguagem: o que a interação linguística produz em termos de “ação” no mundo? A pragmática é o estudo do uso linguístico, da interação entre o código linguístico, a linguagem e a sociedade.

Sobre a distinção entre pragmática e semântica formal: temos que a semântica é o estudo do significado da língua e seus códigos, retirados (separados) do contexto ou da situação empírica de uso; a semântica formal está vinculada ao estudo do valor de verdade das sentenças (proposições lógicas), enquanto a pragmática está associada ao estudo do significado da linguagem, inserido em contextos de uso específicos, considerando as suas condições de produção.

Para melhor visualizarmos essa distinção, consideremos um exemplo tão comum nos livros e aulas de pragmática: “A porta está aberta”. Semanticamente não temos dúvida sobre a informação veiculada por essa sentença a respeito do estado do objeto “porta”. Por outro lado, se essa mesma sentença for enunciada em diferentes situações de uso, ela ganhará diferentes sentidos.

Vejamos algumas possibilidades de diferentes significados:

1º Antes de tudo, temos que considerar o significado mais referencial relativo ao estado de coisa do objeto porta na condição de aberta sendo usado literalmente: uma pessoa vai verificar o estado da porta e constata, dizendo: “A porta está aberta”. O significado dessa proposição é meramente a constatação de que a porta está aberta e não fechada ou encostada ou entreaberta...

2º Um casal está discutindo acaloradamente e, em dado momento, o marido ameaça a mulher de deixá-la, indo embora para sempre, ao que a esposa responde não menos ameaçadora: “A porta está aberta!”. Tal proposição pode ser uma forma de desdém (“pode ir”) em relação à presença do outro ou uma ameaça do tipo “se for na precisa voltar mais” ou uma provocação (“não quero mais você aqui”).

3º Em um dia de excessivo frio e vento, num ambiente de trabalho em meio a uma reunião de vendedores, o gerente adverte: “A porta está aberta”. Tal proposição é uma ordem para que algum funcionário feche a porta.

4º Mediante à insatisfação dos funcionários de uma fábrica, o gerente mostra as condições de trabalho, salário e os benefícios possíveis naquele momento de crise e ameaça os funcionários que não estiverem satisfeitos com o que a empresa oferece, dizendo: “Aos insatisfeitos, a porta está aberta”. Tal proposição é claramente ameaçadora no sentido de que quem não estiver de acordo com as regras será demitido.

Observe ainda outros exemplos em que o significado semântico pode ser outro em contexto de uso (pragmáticos):

Ironia
“Você está feliz, hein?”.

Mudança de perspectiva - passivas, ergativas:
“O prato foi quebrado”.
“O prato quebrou”.

Sinonímia
A diferença entre medo e pavor:
“Tenho medo de cachorro”.
“Tenho pavor de cachorro”.

Contradição
“Sua advogada é muito competente”.
“Ela é e não é”.

Prosódia
“A-hã, a-hã”.
“Hum”.

Sentenças clivadas
“Não foi a proposta que foi reprovada”.

a) Condições de verdade ou acarretamento.
Se a proposição p é verdadeira, a proposição q também é verdadeira: P = José derramou o leite acarreta; Q = O leite derramou. A investigação dos acarretamentos estabelece-se no campo de estudo da semântica.

b) Implicaturas convencionais.
Os dêiticos – dêixis social (senhor, ô cara, mas rapaz); dêiticos do discurso (nossa! então, mas, bem, oh!); alguns dêiticos de tempo (bom dia!, tarde, noite). Já que as
inferências feitas pelo interlocutor sobre esses dêiticos são convencionalizadas, eles não mudam com o contexto, e o estudo dos mesmos dá-se no campo da semântica.

c) Pressuposições
Pedro parou de bater na mulher ou Pedro não parou de bater na mulher pressupõe
que Pedro batia antes. Como para inferirmos que Pedro batia antes, temos que tomar isso como verdade, por exemplo, termos algum tipo de conhecimento anterior à sentença, o estudo das pressuposições estabelece-se no domínio de estudo da pragmática. Mesmo assim, não se deve desconsiderar que deve existir algum tipo de elemento semântico desencadeador da inferência. No exemplo posto, seria a expressão lexical parou de.

d) Condições de felicidade ou adequação ao contexto
A sentença “Eu vos declaro marido e mulher!” deve ser proferida ou enunciada por um representante da lei ou um padre para que seja um enunciado com sucesso. O estudo das condições de felicidade dos enunciados em seu contexto de uso está no domínio da pragmática.

e) Implicaturas conversacionais:
A: _Você vai à aula?
B: _ Estou com uma enxaqueca!

A resposta dada por B não é a adequada e esperada por A. A tem de inferir algum outro tipo de significado do que B respondeu: certamente, B está querendo dizer que não vai à aula, pois está muito doente. A investigação dessas implicaturas decorrentes das conversações está no âmbito da pragmática, pois dependem exclusivamente do contexto de uso para serem compreendidas e analisadas.

f) Inferências baseadas na estrutura conversacional
A está relatando a B um problema familiar e, ao longo de sua narrativa, B responde de vez em quando: “Sei, entendi.” Esse tipo de enunciado tende a significar que B esteja atento ao que A está falando e que B possa prosseguir com seu turno de conversação. Nesse caso, o estudo de tomadas de turno, entre outros aspectos das conversações, está no domínio da pragmática.

Stephen Levinson (op. cit.) destaca assim que o sentido do termo pragmática merece uma tentativa de definição. Porém, não é fácil construir tal definição sem tropeçar em incoerências, restrições, insuficiências, e o autor tenta mostrar em seu trabalho certo número de possibilidades, que esboçam um leque de possíveis domínios para o campo da pragmática.

Vejamos algumas dessas principais definições:

“1. A pragmática é o estudo dos princípios que explicam por que certo grupo de sentenças corresponde a elocuções anômalas ou não possíveis.”

“2. A pragmática é o estudo da linguagem numa perspectiva funcional.”

Essa perspectiva tenta explanar facetas da estrutura linguística em referência a pressões e causas extralinguísticas. Mas tal definição ou escopo deixaria de distinguir a pragmática linguística de diversas outras disciplinas interessadas num enfoque funcional da linguagem, incluindo a psicolinguística e a sociolinguística. Além disso, poder-se-ia admitir que adotar uma definição desse tipo é confundir os motivos para o estudo da pragmática com os objetivos ou o modelo geral de uma teoria.

“3. A pragmática deveria preocupar-se apenas com princípios de usos linguísticos, sem nada a ver com a descrição da estrutura da língua.”

Segundo Levinson, em tal definição evoca-se a dicotomia estabelecida por Noam Chomsky, com a distinção entre competência e desempenho: a competência estuda a habilidade inata do homem para a linguagem e o desempenho estuda o uso contextualizado dessa linguagem. Fica estabelecido que o estudo da língua diz respeito ao campo da competência e o estudo da linguagem diz respeito ao campo do desempenho. Por consequência, nessa perspectiva, temos que a pragmática estuda o
desempenho e a linguagem.

A pragmática deveria ocupar-se essencialmente do esclarecimento de sentenças ambíguas pelos contextos em que elas foram proferidas. De fato, é certo que os contextos fazem muito mais do que meramente selecionar possíveis leituras semânticas de sentenças, por exemplo, a ironia, a dissimulação e coisas que são tipos de uso que realmente criam novas interpretações contextuais.

Também se poderia afirmar que a gramática (no sentido lato) trata da indicação não contextual do significado das formas linguísticas, enquanto a pragmática está voltada para uma interpretação adicional dessas formas dentro de um contexto.

Um sério problema esconde-se nessa definição: a questão é que alguns aspectos da estrutura linguística às vezes codificam partes do contexto (ou interagem com elas de outra maneira). Torna-se então impossível traçar uma fronteira clara entre competência (gramática independente do contexto) e desempenho (interpretação dependente do contexto), conforme Levinson (op. cit., p. 9).

“4. A pragmática é o estudo das relações entre língua e contexto, que são gramaticalizadas ou codificadas na estrutura da língua.”

Seria o estudo dos aspectos de relacionamento entre língua e contexto que são relevantes para a elaboração dos livros de gramática. Essa definição restringe a pragmática ao estudo de certos aspectos da estrutura linguística e contrasta fortemente com a proposta esboçada acima, que limita a pragmática ao estudo de aspectos gramaticalmente irrelevantes do uso da língua.

O autor diz que tal escopo para a pragmática conteria o estudo da dêixis, inclusive pronomes de tratamento, e provavelmente o estudo da pressuposição e dos atos de fala, e excluiria o estudo dos princípios de uso linguístico cujas repercussões na gramática das línguas não pudessem ser demonstradas. Isso poderia causar embaraços porque, pelo menos à primeira vista, as relações extremamente importantes chamadas implicaturas conversacionais ficariam fora do alcance de uma teoria pragmática. Por outro lado, tal escopo para a pragmática teria a provável vantagem de delimitar efetivamente a sua área e excluir campos fronteiriços como a sociolinguística e a psicolinguística, de tal forma que lhe garantiria relevância linguística.

Em resumo, a principal valia dessa definição de pragmática é que restringe o campo a questões puramente linguísticas. Porém, ela é provavelmente muito restritiva para refletir com exatidão o uso corrente de uma língua. A pior restrição é a exclusão desses princípios de uso e interpretação da língua que explica como um significado adicional (num sentido amplo) está ‘inscrito’ nas elocuções sem que nelas esteja efetivamente codificado. Eis então uma definição que trabalha o aspecto da pragmática voltado para a estrutura linguística, mas não a parte que trata dos princípios de uso da língua, ou que
faz isso apenas indiretamente, quando esses princípios colidem com a organização linguística.

“5. A pragmática é o estudo de todos os aspectos do significado não abrangidos numa teoria semântica.”

Conforme Gazdar (1979, apud LEVINSON, 2007, p.14): “[...] a pragmática tem como tópico os aspectos do significado das enunciações que não podem ser explicados por referência direta às condições de verdade das sentenças enunciadas. Grosso modo
Pragmática = significado – condições de verdade”.

Tal definição pode, a princípio, causar confusão. Certamente, a semântica é, por definição, o estudo do significado em sua totalidade e, sendo assim, como pode haver algum resíduo para compor o assunto da pragmática? Mas precisamos notar aqui que a definição de semântica como o estudo do significado é na verdade tão simplista quanto a definição da pragmática como o estudo do uso da língua.

Alguns problemas com essa definição:

As pressuposições trazem sempre desencadeadores do nível da semântica, porém, tomam um conhecimento de mundo como verdade e, além disso, alguns dos componentes do significado são inferências anuláveis;

As implicaturas convencionais mostram que as inferências são semânticas, pois não mudam com o contexto, já que são convencionalizadas;

O significado semântico da sentença pode não ser igual ao significado pragmático: o enunciado “Maria é um gênio” pode significar excelência intelectual de Maria ou ironicamente significar mediocridade intelectual de Maria;

Dêixis: fora os dêiticos convencionalizados que não mudam de sentido em outro contexto (Bom dia!), a maioria são elementos semânticos, com baixa densidade sêmica, e que só adquirem significado no contexto;

Há ainda alguns enunciados que não são sentenças: “Oh!”, “hum, hum”, “Sshhhh” etc.

“6. A pragmática é o estudo das relações entre língua e contexto que são básicas para a
explicação da compreensão da língua.”

Conforme Levinson (op. cit., p. 25), os pontos positivos dessa definição são:

Ela constata que a pragmática está essencialmente envolvida com a inferência, pois, dada uma estrutura linguística enunciada em um contexto, a teoria pragmática leva em consideração a inferência de pressuposições, implicaturas, força ilocucionária e outras implicações pragmáticas.

Ela não faz distinção entre semântica e pragmática no processo de codificação/decodificação; isso é importante porque ainda há controvérsia sobre tais implicações pragmáticas como pressuposições ou força ilocucionária, se seriam ou não gramaticalizadas ou codificadas em formas linguísticas.

Ela inclui alguns aspectos do estudo de princípios de uso da língua, pois parece haver um princípio genérico da seguinte ordem: para cada grupo sistemático de preceitos de uso da língua haverá um grupo correspondente de procedimentos inferenciais que serão empregados para a compreensão linguística.

Os pontos fracos, por sua vez, são também bastante claros: a pragmática teria de incluir o estudo da interação entre o conhecimento linguístico e a totalidade do conhecimento de mundo dos participantes (ou ‘conhecimento enciclopédico’).

Contudo, essa dependência interpretativa de suposições de experiência prévia tem sido usada como argumento contra a possibilidade de qualquer estudo sistemático da
compreensão linguística: se o grupo de suposições potencialmente relevantes coincide com todo o grupo de fatos e crenças dos participantes, então o estudo desse processo interpretativo será o estudo da soma total do conhecimento e das crenças do ser humano. O argumento é claramente falacioso: assim como podem ser estabelecidas as regras de dedução lógica que irão ser aplicadas a um grupo de proposições infinitamente grande, também pode ser possível que os princípios que irão governar a interação entre enunciados e suposições sejam rigorosamente estabelecidos.

Não obstante, se a pragmática deve ser considerada um componente dentro da teoria
linguística, pode acontecer que incluir tais princípios seja realmente incluir além da conta. Mas não se tem pensado a sério sobre isso.

De acordo com o autor, outra dificuldade enfrentada para a fixação de um escopo para a pragmática é que ele carece de alguma caracterização explícita da noção de contexto.

“7. Pragmática é o estudo da habilidade que têm os usuários da língua de combinar sentenças com os contextos nos quais elas se tornam adequadas.”

Conforme o autor, uma das definições mais bem-aceitas pela literatura especializada é esta que vê a noção de adequação ou acerto como o ponto central da pragmática. Tal visão fornece um interessante paralelo com a semântica: ocupando-se a teoria semântica, por assim dizer, da atribuição de condições de verdade a fórmulas bem-construídas, cuida também a pragmática da atribuição de condições de adequação ao mesmo grupo de sentenças com suas interpretações semânticas. Ou seja, uma teoria
pragmática deveria em princípio indicar, para cada uma das sentenças bem-construídas de uma língua, uma leitura semântica particular, o grupo de contextos ao qual elas seriam adequadas.