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O que as epígrafes da poesia de Machado de Assis dizem sobre sua obra?

Guilherme Eler

Joaquim Maria Machado de Assis, aos 57 anos Foto: Reprodução

Se Machado de Assis (1839-1908) tornou-se um dos maiores escritores brasileiros e referência mundial da literatura do século 19, muito se deve às histórias de personagens como Quincas Borba, Capitu e Brás Cubas. É na literatura em prosa que o escritor carioca expressa as marcas de seu estilo, entre elas o uso de ironia e humor ácido, além de interrupções narrativas e constantes conversas com o leitor.

Como “prosa”, entende-se os textos literários convencionais, organizados em parágrafos e que não obedecem métrica ou ritmo próprios, por exemplo. As principais obras de Machado, como os clássicos Dom Casmurro (1899) e Esaú e Jacó (1904), além de explorarem questões da sociedade fluminense e a transição histórica entre monarquia e República, têm em comum o fato de serem narrativas desse tipo.

A produção literária machadiana, no entanto, não pode ser resumida à prosa de ficção. Ao longo da carreira de escritor, o autor foi também dramaturgo, poeta, contista, cronista e crítico literário com vasta produção.

“Sem dúvida, foi pela prosa que o escritor se tornou grande, mas o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) não nasceu grande, tampouco nasceu prosador”, argumenta Audrey Ludmilla Miasso, em sua dissertação sobre a poética do escritor apresentada em 2016 e lançada no formato de livro em 2018, com o nome de “Epígrafes e diálogos na obra de Machado de Assis”.

Os primeiros passos de Machado na escrita, ainda adolescente, deram-se na poesia. Seu soneto inaugural, chamado À Ilma. Sra. D. P. J. A., que assinou no jornal Periódico dos Pobres, em 3 de outubro de 1854, foi publicado quando tinha 15 anos. Boa parte dos poemas de Crisálidas (1864), sua primeira obra, por exemplo, é um compilado de sua produção em jornais entre 1860 e 1862.

“Machado poeta ficou ‘na sombra’ de Machado prosador por uma questão de amadurecimento da escrita e de preferência da crítica literária. Muitos temas trabalhados na juventude foram retrabalhados na maturidade graças à incessante autocorreção machadiana”, disse Miasso, atualmente doutoranda em estudos de literatura na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) em entrevista ao Nexo.

O QUE É UMA EPÍGRAFE?
Recurso comum em textos literários, a epígrafe costuma ser definida como uma espécie de citação que, por ter inspirado o autor de alguma forma, merece ser registrada com destaque na obra. A ideia é que a referência sirva para deixar quem lê a par do tema e da proposta do texto que virá em seguida.

“[Uma epígrafe] é inserida no começo de uma obra literária para explicar o propósito por trás de determinada visão do autor. Geralmente uma citação breve de outra obra, a epígrafe não costuma ser um comentário direto sobre o trabalho em questão, mas é usada para estabelecer um parâmetro sobre os fatos que contribuíram para que o trabalho fosse daquela forma”, define a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, em seu site.

Acredita-se que essa forma de fazer referências em literatura tenha se popularizado a partir do século 18. A palavra epígrafe foi registrada em dicionário pela primeira vez em 1704 - no caso, o Dictionnaire de Trévoux, publicação francesa editada entre 1704 e 1771. Na literatura brasileira, o exemplo mais antigo de que se tem notícia vem da obra Glaura, escrita pelo poeta mineiro Silva Alvarenga e impressa em Portugal em 1799.

Além de obras de literatura, trabalhos acadêmicos também são um exemplo de publicação em que ocorre o uso de epígrafes.

“No caso do trabalho em questão, a epígrafe é uma citação entre o título e o poema, colocada em separado do poema, geralmente na margem direita da página”, explica Miasso.

Em seu livro, a autora analisa as três principais obras poéticas de Machado: Crisálidas (1864), Falenas (1870) e Americanas (1875). Além dessas, outra compilação do gênero, que levou o nome de Poesias Completas, foi editada em 1901. Nela, consta o volume inédito Ocidentais, com poemas que ainda não haviam sido divulgados, bem como outros textos já publicados anteriormente.

A autora destaca que o recurso foi especialmente utilizado nos anos iniciais da produção poética de Machado. Em Crisálidas, são 14 poemas epigrafados, de um total de 28 assinados pelo autor. Já em Falenas, que também reúne 28 poemas, nove deles são epigrafados, e há também uma epígrafe para o livro em si. Em Americanas, por fim, de um total de 13, oito poemas foram epigrafados. Além de certos poemas trazerem mais de uma epígrafe, o livro como um todo também tem o seu próprio.

Entre as referências feitas no formato de epígrafes encontram-se obras de diferentes vertentes e épocas da literatura. Na sua poesia, Machado “presta homenagem” a textos bíblicos, a trechos escritos pelo francês Victor Hugo, ou pelos portugueses Luís de Camões e Bocage, por exemplo. Há ainda lugar para referências clássicas, como Dante e Homero, e até mesmo autores anônimos, de pouca representatividade.

“Citar era visto com bons olhos e a epígrafe é um tipo especial de citação. Por se tratar de uma produção da juventude machadiana, também é possível, por meio das epígrafes, delinear um caminho de formação do escritor dentro do universo literário, os escritores que leu e que fizeram parte de sua formação”, explica a autora.

Da mesma forma, a quantidade de epígrafes acompanha os diferentes estágios de sua produção literária. Crisálidas, lançado por um Machado mais jovem e romântico, conta com o maior número de epígrafes. Por outro lado, o volume inédito Ocidentais, publicado em Poesias completas, não traz nenhuma. Acredita-se que esse padrão possa ser explicado pelo amadurecimento e menor necessidade de “autoafirmação” do autor em relação aos seus primeiros volumes.

A BUSCA POR NOVAS REFERÊNCIAS
“É uma grande questão da crítica literária entender como um jovem escritor negro se insere no universo intelectual de uma sociedade escravocrata”, explica Wilton José Marques, professor associado de Literatura Brasileira e Teoria Literária da UFSCar e orientador do projeto, ao Nexo. “A melhor forma de tentar responder a essa pergunta é recorrer às epígrafes.”

Segundo Marques, o estudo da obra machadiana costuma ser olhado de “trás para frente”, analisando-se primeiro o Machado ficcionista, autor de romances e, depois, a sua poética e outras produções paralelas. A escolha acaba resultando em perdas, já que boa parte desses textos não foram organizados em livros. “Para entender seu processo de formação é preciso olhar para onde ele começou, nos jornais e revistas”, completa.

Foi consultando um acervo de jornais do Rio de Janeiro do século 19 que o pesquisador redescobriu, em 2015, o “mais recente” poema de Machado. Grito do Ipiranga foi publicado no extinto Correio Mercantil em outubro de 1858, e não havia sido catalogado pelos especialistas até então.

O poema relaciona a Independência do Brasil ao processo de formação do império romano. Na comparação, o autor carioca, aos 17 anos, faz referência ao conteúdo do Livro I da História de Roma, escrito pelo historiador romano Tito Lívio, morto no século 1.