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O erotismo natalino de Machado de Assis



Missa do galo, de Machado de Assis, é um dos contos mais famosas da literatura brasileira. E também um dos mais misteriosos. O que de fato acontece naquela noite de Natal, quando um jovem recém-saído da adolescência se depara em meio a um estranho diálogo com uma senhora casada, na casa dos seus 30 anos, numa casa adormecida? O jogo de gato e rato entre os dois personagens diz muito sobre as arapucas da literatura machadiana. A pesquisadora Eliane Robert Moraes (USP) colocou o conto na seção “De viúvas & viúvos” da seleta O corpo descoberto: contos eróticos brasileiros 1852-1922 (Selo Suplemento Pernambuco, da Cepe Editora).

A pesquisadora conversou com o Suplemento Pernambuco sobre o mistério de Missa do galo e seu erotismo natalino. 

Em sua seleção O corpo descoberto, você joga novas luzes sobre o caráter erótico de Missa do galo, que você inclui na seção “De viúvas e viúvos”. O que você descobriu sobre esse conto em particular no processo de seleção de textos para o livro?
Se há alguma unanimidade na crítica literária brasileira, ela ganha expressão no fato de Missa do Galo ser considerado um conto perfeito. Não só participo desse grande contingente de críticos, como eu diria que, em matéria de erotismo, o juízo se repete sem reservas. A capacidade de alusão desse conto é realmente extraordinária: ao narrar o encontro noturno entre o rapaz mal saído da adolescência e a jovem senhora de 30 anos de idade, Machado consegue criar uma atmosfera onírica cuja fortíssima tonalidade erótica caminha em paralelo ao recato da situação em que flagramos os personagens. Aliás, tudo ali é marcado pela ambivalência, a começar pelo fato de que, devido à ausência de seu esposo na ocasião, a balzaquiana Conceição se apresenta como uma espécie de “viúva” de marido vivo e assim permanece em quase todo o conto. Tudo ali se dobra às reticências e meios-tons. Enfim, para evocar o sentido maior desta seleção de contos brasileiros anteriores ao modernismo que ganhou título igualmente ambivalente de O corpo descoberto: Missa do Galo dá provas cabais de que não é preciso descobrir o corpo para que o corpo seja descoberto.

Existe um conto de Lygia Fagundes Telles, Missa, em que ela revisita essa ficção de Machado (Missa do galo - variações sobre o mesmo tema) como se fosse um inseto, um voyeur, observando a cena. Podemos dizer que Missa do galo (por tudo o que ele mostra e esconde) um exemplo perfeito para a visão sobre o erotismo brasileiro entre os séculos 19 e 20 que você defende em O corpo descoberto?
Sem dúvida. Não só Lygia Fagundes Telles, mas diversos autores produziram ficções a partir de Missa do Galo, sem falar no grande número críticos que se propuseram a interpretá-lo. Na década de 1970, Osman Lins chegou a organizar uma curiosa edição que reunia essas variações ficcionais, da qual ele mesmo participou ao lado de Antonio Callado, Autran Dourado, Nélida Piñon e outros escritores. O livro foi publicado em 1977 pela Summus Editorial sob o título de Missa do Galo Machado de Assis: variações sobre o mesmo tema, sendo mais um testemunho do alcance desse conto sem igual.

Além de Missa do Galo há outro conto que se passa no Natal em O corpo descoberto que é O Natal, de Raul Pompéia. Não é curioso que dois dos grandes autores da virada entre os séculos tratassem de erotismo em pleno Natal?
É curioso e isso nos diz algo importante sobre o erotismo: ao escolher a noite das festividades natalinas como pano de fundo de seus contos plenos de erotismo, esses autores colocam as mais altas aspirações religiosas à prova dos poderes de Eros. Dito de outro modo: Machado e Pompéia obrigam o espírito a se defrontar com o corpo, o que – convenhamos – era uma provocação e tanto na época em que escreviam.