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Estilística: a ordem dos termos da frase


A ordem dos termos no sintagma nominal
De modo geral, o adjetivo que tem valor apreciativo é colocado antes do substantivo (uma bela resposta, uma comovente cena) e coloca-se depois do substantivo o adjetivo que enuncia particularidade do objeto, definindo-o, distinguindo-o de outros, classificando-o (homens brutos, música popular, momento especial).

Quando há dois ou mais adjetivos, as possibilidades de distribuição aumentam consideravelmente, podendo ficar todos depois ou antes do substantivo, ou ser divididos, conforme mais convenha ao ritmo desejado.

Na linguagem poética encontramos, também anteposto ao substantivo, o adjunto preposicionado. É o que ocorre nesses versos de Cruz e Sousa (1997, p. 42):

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços,
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos (grifo nosso).

A ordem dos termos no sintagma verbal
No sintagma verbal é comum o auxiliar anteceder o verbo principal. Entretanto, quando se quer enfatizar o verbo principal, ele pode ser antecipado, quer na linguagem falada, quer na linguagem poética.

Exemplos:
“Fugir você não pode.”
“Morrer, quem é que quer?”
“Oh! Ver não posso este labéu maldito!” (ALVES, 1960, p. 199).

As alterações da ordem direta
As alterações da ordem “direta” receberam da retórica as denominações de hipérbato, anástrofe, sínquise, prolepse. Como não coincide e nem é satisfatória a distinção entre umas e outras, é preferível ficar apenas com a denominação genérica de inversão. Esse processo rompe a monotonia da ordem usual, podendo favorecer um ritmo mais adequado ou propiciar um tom mais elegante; na poesia, pode atender à imposição da métrica ou da rima, além da intenção de ênfase.

Bally distingue a inversão afetiva da linguagem comum – um realce dado ao tema da frase -, que é espontânea, natural, da inversão retórica, usada na poesia mais pomposa.
São inversões de caráter afetivo, não estético, construções como:

“É um encanto essa criança.”
“Dinheiro eu não tenho.”

Como exemplos de inversão artificial, própria da linguagem poética, mais elaborada, podem servir estes versos de Gonçalves Dias (1969, p. 33), que não chegam, entretanto, a ser obscuros:

O que nos resta pois? – Resta a saudade,
Que dos passados dias
De mágoas e alegrias
Bálsamo santo extrai consolador

Concordância
Há dois tipos de concordância: a lógico-gramatical, estabelecida pela gramática normativa, e a estilística, que ultrapassa os limites da correção, a que atende a necessidades expressionais particulares, a que oferece a quem fala ou escreve possibilidades de escolha.

A concordância estilística pode ser:

Concordância por atração
Ocorre quando o adjetivo e o verbo concordam com um termo mais próximo e de maior importância no contexto e no espírito de quem fala ou escreve e não com o termo que logicamente lhes determinaria as flexões.

Exemplo:
“Vi um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade” (ASSIS, 1971, p. 167, grifo nosso).

Concordância ideológica (ad sensum, sínese, silepse)
As flexões assumidas pelo verbo ou pelo adjetivo não são compatíveis com os termos presentes na frase aos quais eles se prendem gramaticalmente, mas com a ideia que eles despertam na mente de quem fala ou escreve.

Ex.: “Consultemos o coração aqueles que o tivermos” (Camilo C. Branco, 1986, grifo nosso).

Concordância afetiva: a que se deve ao influxo da emoção
Ex.: “-Sim, e agora ando bom. E tu, meu Luís, como vamos de saúde?” (A. Garret, 1966).