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Estilística da palavra


Não há um conceito preciso do léxico. Segundo Martins, a Estilística léxica ou da palavra estuda os aspectos expressivos das palavras ligados aos seus componentes semânticos e morfológicos, os quais, entretanto, não podem ser completamente separados dos aspectos sintáticos e contextuais.

De acordo com a conceituação tradicional de léxico, este é denominado palavra. Assim, há duas possibilidades expressivas da nossa língua das duas espécies de palavras: as gramaticais e as lexicais.

Palavras gramaticais
Também denominadas palavras-formas, palavras-vazias e instrumentos gramaticais (ou não palavras). Sua significação é apreendida apenas no contexto linguístico, daí a afirmação de que ela é intralinguística ou interna. São pouco numerosas, mas de altíssima frequência nos enunciados.

Esse tipo de palavra tem a função de:

a) Relacionar o enunciado com a situação de enunciação, indicando os participantes da comunicação, o espaço e o tempo em que ela se dá. São os dêiticos (eu, tu e suas variantes, aqui, aí, agora, possessivos e demonstrativos referentes à 1ª e à 2ª pessoas etc.);

b) Substituir ou referir algum elemento presente no enunciado. São os anafóricos ou representantes (ele, demonstrativos não relacionados à 1ª e 2ª pessoas etc.);

c) Atualizar os nomes. São os determinantes, como artigo, pronomes adjetivos, numerais;

d) Indicar quantidade e intensificação (numerais, pronomes indefinidos, quantitativos etc.);

e) Relacionar palavras no sintagma e orações na frase;

f) Estabelecer coesão textual.

Martins afirma que: O emprego das palavras gramaticais diz respeito, portanto, à sintaxe e à organização textual, seguindo regras mais ou menos fixas. Entretanto, sempre há possibilidade de uma alteração ou violação das regras para um efeito expressivo. Palavras gramaticais podem perder, em certos empregos, esse valor gramatical e tornar-se meros elementos de realce ou ainda receber um valor nocional, aproximando-se das palavras lexicais.

Também palavras lexicais podem perder seu valor nocional, gramaticalizando-se.

Exemplos selecionados pela autora:

Advérbios cá, lá, aqui, enfatizando formas pronominais: “Eu cá sei das minhas dificuldades”; “Eles lá resolveram o caso”; “Aqui comigo é preciso tudo muito certinho”.

Processo de nominalização: “Nosso eu maravilhoso” (Rachel de Queiroz);

“Acho que nem dormia, comia o nada, nada, à pressas, pitava o tempo todo”
(Guimarães Rosa).

Cujo, que como relativo é marca da língua culta, substantivado é popular, com tom pejorativo: “- Fecha essa queixada, cujo, que isto não é comida, não, é freio” (Guimarães Rosa).

Tom depreciativo (entre outros) dos pronomes neutros tudo, isto, isso, aquilo,
referentes a pessoas: “- Arrenego! Deus me perdoe. Pois é aquilo que prega
hoje?...” (M. A. de Almeida).

Alguém com conotação valorizadora: “ser alguém na vida” ou usado em expressão indireta, dirigida a uma pessoa presente: “Alguém vai me emprestar um dinheirinho....”.

Artigos e certos pronomes adjetivos podem absorver o sentido de um modificador do substantivo que acompanham: “Aí é que era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas que ninguém podia ouvir porque o lavadouro ficava muito longe de casa” (Assis, Machado de. Obra Completa, v. I, p. 526).

Artigo definido = sintagma: “Ele é o professor!”.

Cada, tal, que, aquele e outros também assimilam um termo caracterizador em construções como: “Você arranja cada negócio!”; “Que dia, meu Deus!”.

Nexos comparativos, entre as palavras nocionais gramaticalizadas, com redução do seu valor conceitual: “Os [namorados] daqui ficam só de mãos dadas, feito uns santos...” (R. de Queiroz, 100 crônicas... p. 10).

“... o pessoal do bonde rindo que era ver uns demônios...” (Ib., p. 211).

Ainda segundo Martins: [...] muitos valores expressivos se ligam às palavras gramaticais, existindo um sistema expressivo paralelo ao sistema puramente gramatical. Uma boa parte da Estilística pode ser denominada gramática afetiva [...].

Palavras lexicais
São também denominadas lexicográficas, nocionais, reais, plenas; mesmo isoladas, despertam uma representação mental. Têm significação extralinguística ou externa. Diz-se inventário aberto, por possibilitar constante renovação do léxico de uma língua. São os substantivos, os adjetivos e os advérbios deles derivados ou a eles correspondentes, os verbos que exprimem ação e processo mental (excluídos, portanto, os auxiliares e os de ligação, que são palavras gramaticais).

As tonalidades emotivas das palavras
Podem ser inerentes ao próprio significado ou podem resultar de um emprego particular, sendo perceptíveis no enunciado, em razão do contexto, ou pela entoação, ou por algum recurso gráfico.

Assim as palavras podem expressar afetividade, julgamento ou avaliação, como se pode observar na seleção lexical de adjetivos do tipo bom/mau, feio/bonito ou de substantivos como palácio/mansão (ideia de edifício, moradia).

O sentido avaliativo pode ser expresso pelo acréscimo de afixos aos lexemas. Desse modo, podemos obter palavras como politicagem, politicalha, gentinha, gentalha, que exprimem uma avaliação negativa.

Há palavras evocativas, como estrangeirismos, arcaísmos, termos dialetais, neologismos, expressões de gíria, as quais não só transmitem um significado, mas também nos remetem a uma época, a um lugar, a um meio social ou cultural.

Devemos, ainda, lembrar-nos dos regionalismos, que permitem destacar peculiaridades de regiões do país, assim como das gírias, que caracterizam grupos sociais por meio de sua fala.