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Estilística da frase


É por meio da sintaxe que quem fala ou escreve escolhe entre os tipos de frase, de acordo com as regras gramaticais, mas esse processo não está relacionado apenas ao domínio gramatical, mas também ao domínio estilístico.

A frase veicula valores expressivos em potencial nas palavras, que adquirem seu sentido explicitado e o seu tom particular – neutro ou afetivo. À estilística interessa tanto a combinação das regras estabelecidas pela norma gramatical quanto os desvios dela que constituem traços originais e expressivos.

Como unidade de comunicação, a frase exprime um sentido, encerra um conteúdo, que corresponde à sua função. Daí a classificação em:

– declarativa, em que o emissor exprime um fato que a seu juízo é verdadeiro ou falso; marcada por entonação descendente que corresponde ao ponto final;

– exclamativa, que realiza a função emotiva, em que o falante deixa transparecer sentimentos variados, com entonação ascendente;

– imperativa, que realiza a função apelativa, em que o falante exprime um fato desejável ou indesejável numa ordem, num pedido, numa súplica;

– interrogativa, que é simultaneamente emotiva e apelativa, de entonação variável, conforme tenha ou não palavra interrogativa.

Denomina-se, geralmente, oração a frase de estrutura binária (sujeito + predicado). Portanto, a frase pode ou não ser oração, ser completa e incompleta, explícita e implícita. O mais comum, porém, é que um discurso se constitua de mais de uma frase, havendo entre elas elementos de coesão como conjunções, vocábulos anafóricos, elipse, vocábulos repetidos, sinônimos ou pertencentes a um mesmo campo de significação.

O adjetivo predicativo do sujeito alterna frequentemente com o advérbio, tirando os estilistas proveito dessa dupla possibilidade.

É o que se vê no exemplo selecionado por Martins (2000, p. 136):

A neve caía, levemente.
A neve ia caindo direta e vaga....
A neve caía desfeita e branca.
A neve caía, contínua, silenciosa.
(Prosas bárbaras, em Obras de Eça de Queiroz, pp. 569-775).

Há também a possibilidade de haver ou não uma pausa entre o sujeito e o verbo dos vários tipos de frase. Isso quer dizer que a ligação entre os dois elementos da frase pode apresentar graus, variando a estrutura rítmica.

Exemplos:
O menino brincava.
O menino, brincava./O menino, ele brincava.

A segmentação é, frequentemente, acompanhada de uma inversão e de um pleonasmo: “Ele é interessante, esse livro.” Esse procedimento é minentemente expressivo, em que ambas as partes ganham relevo, e é usual na língua falada.

Qualquer termo, além do sujeito, pode ser destacado na oração, tornando-se tema do enunciado. Outro recurso sintático é a elipse: brevidade da expressão resultante de alguma coisa que se deixou de dizer, ou por se ter dito em outra frase, oração ou sintagma, ou por outra razão de ordem afetiva ou estética.

Exemplo:
“Os mangues da outra margem jogam folhas vermelhas na corrente. Descem como canoinhas. Param um momento ali naquele remanso” (ROSA, 2001, p. 192).

A elipse de palavras gramaticais é a que geralmente ocorre, visto que a relação ou determinação que elas exprimem é dedutível da própria significação dos termos expressos.

Exemplos:
“Mulher perguntou se ele queria beber gol, se doente estava” (ROSA, 1998, p. 20).
“Ali mesmo, para cima do curral, vez pegaram um tatu peba” (ROSA, 1984, p. 139).
“Tenho tempo hoje não, moça” (ROSA, 1998, p. 19).
“Aquele silêncio, que pior que uma alarida” (ROSA, 1986, p. 207).

Denomina-se pleonasmo o que se considera redundância pelo fato de uma informação ser transmitida por uma quantidade de signos linguísticos superior ao essencialmente necessário. Ocorre em todos os níveis da linguagem (fônico, semântico, morfossintático). A noção de grau normal de redundância da língua faz parte da competência dos usuários. Sentimos a sua redução na elipse e o seu aumento no pleonasmo.

Segundo Bally, pleonasmo gramatical é a redundância normal da língua (marca de plural, por exemplo). Já o pleonasmo vicioso é o que se deve à ignorância do significado exato ou da etimologia das palavras (do tipo hemorragia de sangue, decapitar a cabeça etc.). É expressivo o pleonasmo que enfatiza as ideias transmitidas.

Exemplos:
“Todos nus e da cor da escura treva” (CAMÕES, 2009, grifo nosso).
“Deus, esse, minha rica, está longe” (QUEIRÓS, 1982, grifo nosso).
“[...] estavam sem saber como voltar para suas casinhas deles.” (ROSA, 1984, p. 18, grifo nosso).

Se o termo que inicia a frase fica sem função sintática própria, servindo apenas como correferente e um pronome mais ou menos próximo, temos a quebra de construção a que se dá o nome de anacoluto.

Exemplo:
“Eu, que era branca e linda, eis-me medonha e escura” (BANDEIRA, 1967, p. 126).

Certas partículas destituídas de valor nocional e sintático, mas portadoras de valor expressivo, são comumente chamadas de realce ou espontaneidade, ou ainda expletivas.

Exemplos:
“E vocês também não me voltem mortos. Quero-os bem vivinhos e perfeitos” (LOBATO, 1968, p. 84, grifo nosso).

“Vocês são brancos, lá se entendam” (frase feita).

Assim como os termos da oração, as orações que entram numa frase também apresentam maior ou menor grau de dependência e coesão.

Quanto à relação entre as orações, esta pode ser estabelecida sem dependência uma da outra. É o que se denomina coordenação. Ela pode ser feita com ou sem o elemento de ligação, nexo ou conjunção.

A construção assindética é mais comum na língua oral, tem um tom mais espontâneo, menor rigor lógico; é mais ágil, sugere a simultaneidade ou rápida sequência dos fatos. Esse tipo de construção é apreciada por Graciliano Ramos.

No caso da coordenação sindética, a coesão entre as orações é reforçada por um nexo – a conjunção coordenativa. A conjunção mais frequente é e, cujo valor fundamental é reunir fatos que se acrescentam (aditiva), mas pode estabelecer várias outras relações que se apreendem pela própria significação das orações.

É o que ocorre nos versos:
[...] E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanto felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais [...]
(Valsinha, de Chico Buarque e Vinícius de Moraes).

De cunho estilístico, a ausência de conjunção denomina-se assíndeto e a repetição a partir da segunda oração, polissíndeto (construção enfática, visto que destaca cada uma das orações). Quando há subordinação entre as orações, há uma relação de dependência ou regência e a oração subordinada equivale a um substantivo, adjetivo ou advérbio que tem valor de termo subordinante.

Há escritores que preferem períodos mais curtos, outros períodos mais longos, dependendo do gosto pessoal, do estilo da época ou do gênero de composição do texto. A epopeia, por exemplo, caracteriza-se por ser constituída de períodos longos em que se encadeiam enumerações, além de ser rica de modulações, atendendo à grandiosidade desse estilo.

Já em textos do tipo crônica ou em outros de cunho didático, o período breve está mais de acordo com a simplicidade, com a espontaneidade das manifestações emotivas ou com a vivacidade dos diálogos, bem como de acordo com o tom despretensioso.

Há frases que não se estruturam em sujeito e predicado. Trata-se da frase incompleta, também denominada inorgânica, inarticulada, elíptica, cujo entendimento exige certos dados contidos na situação de enunciação ou no contexto linguístico.

A frase incompleta pode apresentar vários graus de implicitação e de afetividade. Partindo das frases com menos elementos implícitos para as mais condensadas, temos:

a) Frases de dois membros (dirremas)

Há construções do tipo “Bonita, sua blusa”, que exprime o mesmo fato da frase completa: “Esta blusa é bonita”.

Esse tipo de construção compõe muitos provérbios e frases sentenciosas, que têm a sua expressividade realçada por essa construção (ausência de verbo), tornando-os atemporais, de valor permanente, universal.

Veja no exemplo:
Cada macaco em seu galho é mais impressivo que seria Cada macaco deve ficar em seu galho. Muitas das frases desse tipo apresentam um paralelismo que acentua uma ideia implícita de causa, consequência, oposição, tempo etc.

b) Frases de um só membro (monorremas), cujo sentido se completa com um segundo membro não expresso, mas inerente no contexto ou na situação. Esse tipo de construção ocorre em casos de informações sumárias, avisos, anúncios, por exemplo:

“Fechado para almoço”.
“Rua sem saída”.

As frases desse tipo têm função referencial e conativa: comunicam e advertem.