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Estilística da enunciação


O paradigma atual de estudos linguísticos é denominado pragmática, no qual pressupõe-se a língua em uso efetivo. Para tanto, torna-se necessário analisar além do produto, que é o enunciado, e adentrar o que se chama enunciação.

A enunciação é um ato de comunicação em que se encontram um eu que fala para um tu, situados em um aqui e num agora. Isso quer dizer que ao falarmos de enunciação, pressupomos o ato, o processo comunicativo pelo qual se tem o resultado, o produto, que denominamos enunciado.

Portanto, os estudos linguísticos que levam em conta a Teoria da Enunciação têm por objetivo buscar nos enunciados as marcas dos elementos relacionados à enunciação, como a situação comunicativa, o contexto socio-histórico, o locutor, o interlocutor, o referente etc. Nesse sentido, há estudiosos que dividem a estilística em duas: a do enunciado, que investiga o aspecto verbal, suas particularidades fônicas, morfológicas, semânticas e sintáticas; a da enunciação, que trata da relação entre os protagonistas do discurso, ou seja, da relação locutor–interlocutor–referente.

Um dos aspectos que pode ser descrito pela estilística da enunciação é a questão da objetividade versus subjetividade na produção de textos/discursos. Para tanto, o locutor utiliza recursos da língua que lhe permitam produzir efeito de objetividade e/ou subjetividade.

Diz-se que um texto é subjetivo quando se observa neste a manifestação da 1ª pessoa do discurso. Nesse tipo de texto, encontraremos o uso de pronomes de 1ª pessoa (eu, mim, comigo, meu), assim como os indicadores de tempo e lugar - aqui, agora - relacionados a essa pessoa.

Ao contrário, podemos dizer que o texto é objetivo quando nele encontra-se marcado o uso da 3ª pessoa do discurso (ele, seu etc.) e seus respectivos indicadores de tempo e espaço (então, lá). Nesse tipo de texto, pode-se notar o distanciamento do sujeito enunciador.

Vejamos o enunciado: “Em Brasília, na quarta-feira, a governadora gaúcha afirmou que será candidata à reeleição” (www1.folha.uol.com.br/folha/Brasil).

Há referência ao locutor na 3ª pessoa: “a governadora gaúcha afirmou”, recurso que caracteriza, em um texto jornalístico, a objetividade do sujeito enunciador, mantendo-se este distante no espaço enunciativo, atribuindo, assim, indiretamente, a responsabilidade da afirmação ao “outro”.

A subjetividade pode ser explícita ou implícita. No primeiro caso, haverá marcas no enunciado de 1ª pessoa. Assim, podemos encontrar afirmações do tipo “Considero positiva a atuação do governo sobre o problema”. Já no segundo caso, quando a subjetividade está manifestada implicitamente, o sujeito não se declara. Dessa forma, poderíamos ter a mesma assertiva do seguinte modo: “A atuação do governo sobre o problema foi positiva”.

A avaliação pode ser de vários tipos e nestes a subjetividade manifesta-se em vários graus. São eles: avaliação quantitativa, modalizadora e axiológica (ou apreciativa).

No primeiro caso, quando há medidas exatas para quantificar uma ação, diz-se objetiva a avaliação, todavia as medidas são relacionadas a critérios, o que dá margem à subjetividade. Por ser mais imprecisa, torna-se mais subjetiva a avaliação quantitativa com indefinidos como muito, pouco, algum etc.

Na avaliação modalizadora, o locutor considera o fato a que se refere como verdadeiro ou falso, certo, incerto, possível, desejável. A certeza da veracidade do fato pode ser enunciada, em uma oração declarativa, pelo uso de expressões como “sem dúvida”, “realmente”, “indubitavelmente” etc. Da mesma forma, se o enunciado é objeto de citação, ele pode ser introduzido por verbos como afirmar, garantir, afiançar etc.

Quanto à avaliação axiológica (ou apreciativa), esta diz respeito ao valor moral ou estético e relaciona-se aos valores de bom/mau, bonito/feio, útil/inútil. Nesse tipo de avaliação, há uma intensificação da subjetividade, tornando-se esta de cunho pessoal, daí ser de caráter afetivo.

O enunciador pode mostrar-se emocionalmente envolvido, declarando explicitamente seus sentimentos, falando diretamente de si ou pode deixar transparecer sua emoção por meio da seleção lexical ou de determinadas construções ou figuras. Essa subjetividade afetiva é muito comum em poemas líricos, mas ela também se encontra presente em outros tipos de texto.

Atualmente, os estudos linguísticos têm ressaltado a importância da intertextualidade nos textos, uma vez que todo texto dialoga com outro(s). Desse modo, verifica-se que de forma explícita ou implícita os autores retomam outros discursos e, para tanto, utilizam recursos da língua.

Por ser amplo, este é um estudo que requer tempo e espaço e, por isso, não vamos tratar detalhadamente dele por ora. Além disso, a estilística clássica vai até o limite da frase, tendo em vista o enunciado, o produto e não o processo, como o faz os estudos da enunciação.

Um texto constitui-se basicamente de três instâncias enunciativas:

A do enunciador – Enunciatário, que diz respeito à enunciação considerada como ato implícito de produção do enunciado. Enunciador e enunciatário equivalem a autor/leitor, isto é, à imagem desses construídas pela obra e que são sempre pressupostos. O enunciador, ao produzir um enunciado, leva em conta o enunciatário a quem se dirige.

A do narrador – Narratário: eu/tu instalados no enunciado, que podem permanecer implícitos. Um exemplo é quando se narra uma história em 3ª pessoa.

A do interlocutor – Interlocutário, quando o narrador dá a voz a um personagem, em discurso direto. Desse modo, é preciso analisar as categorias pessoa, tempo e espaço para que o texto produza sentido nessa relação interacional em que se insere, do ponto de vista pragmático.

A pragmática é a ciência da língua em uso, que, segundo Fiorin (2003, p. 161) “estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística”.

IMPORTANTE
Para se estudar a língua em uso é preciso ir além do produto, que é o enunciado, e chegar até as condições de produção dele, o que corresponde ao ato, isto é, à enunciação. Isso é notório, por exemplo, em relação aos dêiticos, visto que eles indicam o lugar ou o tempo em que um enunciado é produzido, bem como os que participam da situação enunciativa.

Um dêitico só pode ser entendido na situação de comunicação, daí a importância da dêixis para a análise pragmática. Ao interpretarmos um enunciado, devemos levar em conta os participantes do ato comunicativo, ou seja, a relação eu-tu, o momento da enunciação – agora – e o lugar de produção do enunciado – aqui. Assim, podemos representar a dêixis da seguinte forma:

EU ___ TU
AQUI/AGORA

Os elementos linguísticos que servem para situar o enunciado são os dêiticos.

Na década de 70, Benveniste postulou a teoria da enunciação, em que se diferenciam o ato, o processo de produção do texto (que é a enunciação) do produto, o estado que resulta da enunciação, isto é, o enunciado.

De acordo com Fiorin (2003, p.163): Como a pessoa enuncia num dado espaço e num determinado tempo, todo espaço e todo tempo organizam-se em torno do “sujeito”, tomado como ponto de referência. Assim, espaço e tempo estão na dependência do eu, que neles se enuncia. O aqui é o espaço do eu e o agora é o momento da enunciação. A partir desses dois elementos, organizam-se todas as relações
espaciais e temporais.

A Pessoa
Na cena enunciativa, a 1ª e a 2ª pessoas correspondem aos participantes da comunicação, ao passo que a 3ª pessoa, “ele”, designa qualquer ser ou não designa nenhum ser, ou seja, a 3ª pessoa equivale à impessoalidade, já que esse sujeito não é jamais instaurado como participante da enunciação.

É dessa forma que o texto torna-se subjetivo ou objetivo. Na verdade, o que se tem é efeito de subjetividade versus objetividade. Se o enunciador encontra-se instaurado na cena enunciativa, o texto torna-se subjetivo, do contrário o efeito é de objetividade.

Vejamos os exemplos:
“O presidente da empresa concede, a partir desta data, aumento de 30% nos salários.”
“Concedo, a partir desta data, aumento de 30% nos salários.”

Verificamos que no primeiro exemplo o sujeito enunciador encontra-se enunciado em 3ª pessoa, o que produz efeito de distanciamento, portanto de objetividade. Já no segundo exemplo, o sujeito enunciador está instaurado na cena enunciativa, pois ele se diz “eu”, assume a voz da 1ª pessoa, o que confere um caráter subjetivo ao enunciado. Podemos dizer que no primeiro exemplo a ênfase recai sobre a ação, ao passo que no segundo exemplo, foi colocado em evidência o sujeito da ação.

De acordo com a teoria da enunciação, denominam-se “pessoas enunciativas” as que participam do ato de comunicação (eu/tu) e “pessoa enunciva” aquela que pertence ao domínio do enunciado, o “ele”.

Nesse sentido, segundo Fiorin (2003, p. 165), os significados das pessoas são: eu: quem fala, eu é quem diz eu; tu: aquele com quem se fala, aquele a quem o eu diz tu, que por esse fato se torna o interlocutário; ele: substituto pronominal de um grupo nominal, que tira a referência; participante do enunciado; aquele de que eu e tu falam; nós: não é a multiplicação de objetos idênticos, mas a junção de um eu com um não eu; há três nós: um nós inclusivo, em que ao eu se acrescentam um tu (singular ou plural); um nós exclusivo, em que ao eu se juntam ele ou eles (nesse caso, o texto deve estabelecer que sintagma nominal o ele presente no nós substitui) e um nós misto, em que ao eu se acrescenta tu (singular ou plural) e ele(s); vós: um vós é o plural de tu e outro é um vós em que ao tu se juntam ele ou eles; eles: pluralização de ele.

O Tempo
O tempo linguístico difere-se do tempo cronológico e do tempo físico. Para Benveniste (apud FIORIN, 2003, p. 166), o tempo físico é o tempo marcado, por exemplo, pelo movimento dos astros, que determinam a existência de dias, anos etc., enquanto o tempo cronológico é o dos acontecimentos, o tempo marcado pelo calendário.

Ainda de acordo com esse autor: O que o tempo linguístico tem de singular é que ele é ligado ao exercício da fala, pois ele tem seu centro no presente da instância da fala. Quando o falante toma a palavra, instaura um agora, momento da enunciação. Em
contraposição ao agora, cria-se um então. Esse agora é, pois, o fundamento das oposições temporais da língua.

Para se determinar o tempo linguístico, de acordo com Fiorin (2003, p. 167), é necessário considerar três momentos: o momento da enunciação – ME, o momento da referência – MR (presente, passado e futuro) e o momento do acontecimento – MA, que pode ser concomitante, anterior ou posterior a cada um dos momentos de referência.

Ainda segundo o autor, há dois sistemas temporais na língua, um que se relaciona ao momento de referência presente, isto é, ao próprio momento da enunciação, e outro ordenado pela função de momentos de referência, passado ou futuro, instalados no enunciado. O primeiro sistema, o da enunciação, é denominado enunciativo, enquanto o segundo é chamado de enuncivo.

O presente marca uma coincidência entre o momento do acontecimento e o momento de referência presente. Há, todavia, três casos de relações entre momento de referência e momento da enunciação, a saber:

Presente pontual: coincidência entre MR e ME.
Ex.: “Uma estrela surge no céu”.

Presente durativo: momento de referência é mais longo que o momento da enunciação. Essa duração pode ser contínua (presente de continuidade) ou descontínua (presente iterativo).

Exemplos:
a) “Neste semestre, faço uma pesquisa de língua portuguesa”.
b) “Nos finais de semana, eles se encontram na lanchonete”.

Veja que no exemplo (a) a ação está sendo realizada e continuada em um presente, enquanto no exemplo (b) tem-se a impressão de uma ação frequente, mas descontinuada, ou seja, iterativa, repetida.

O pretérito perfeito marca uma relação de anterioridade entre o momento do acontecimento e o momento de referência presente (MR).

Ex.: “O candidato eleito assumiu o cargo”.

A ação enunciada pelo verbo assumir é anterior ao agora da enunciação e está enunciada pelo pretérito perfeito simples.

Em português, há uma tendência em se enunciar ações passadas pelo pretérito perfeito composto, que não tem uma função temporal propriamente dita, mas uma função aspectual, em que a ação tem um valor iterativo, inacabado. Por exemplo, em “Todos têm feito os exercícios nos últimos dias”, o pretérito composto, além de marcar uma ação iniciada em um tempo anterior ao momento de referência presente, indica uma continuidade da ação. Nesse caso, do ponto de vista funcional, há dois pretéritos
perfeitos: o primeiro, que é o tempo do sistema enunciativo, e o segundo, que pertence ao sistema enuncivo.

O futuro do presente indica uma posterioridade do momento do acontecimento em relação a um momento de referência presente.

Ex.: “Eu falarei com você na próxima semana”.

No exemplo, o acontecimento “falará” é posterior ao momento de referência presente.
Os tempos enuncivos ordenam-se em dois subsistemas, um centrado em um momento de referência pretérito e outro centrado em um momento de referência futuro.

A concomitância do momento do acontecimento em relação a um momento de referência pretérito pode ser expressa tanto pelo pretérito perfeito quanto pelo pretérito imperfeito. Veja os exemplos:

c) “No dia 1º de janeiro, o candidato eleito pelo povo tomou posse do cargo de Presidente da República”.

d) “No dia 1º de janeiro, o candidato eleito pelo povo tomava posse do cargo de Presidente da República”.

Nos exemplos c e d, tanto tomou quanto tomava indicam concomitância a um momento de referência pretérito – 1º de janeiro. O pretérito perfeito é o tempo por excelência da narração, ao passo que o imperfeito é o tempo que melhor atende aos propósitos da descrição.

Já o pretérito mais que perfeito indica uma relação de anterioridade entre o momento do acontecimento e o momento de referência pretérito. Ele pode ser expresso tanto na forma simples como na composta, tendo sido esta última mais utilizada atualmente.

Vejamos os exemplos:
“No dia seguinte, quando ninguém mais tinha esperança, ele chegara”.
“Ele partiu para aquela cidade, onde tinha vivido desde criança”.

Segundo Fiorin (2003, p. 173):

A) O presente do futuro não tem em português uma forma específica.

Ex.: “No dia em que eu chegar, avisarei meus amigos”.

B) A anterioridade em relação a um momento de referência futuro é indicada pelo futuro anterior:

Ex.: “No final da semana, terei enviado todos os cartões”.

C) A posterioridade em relação a um momento de referência futuro é indicada pelo futuro do presente simples:

Ex.: “Depois de lhe telefonar, irei a sua casa”.

Na categoria tempo, os advérbios de tempo também articulam-se em um sistema
enunciativo e outro enuncivo, sendo o primeiro centrado num momento de referência presente e o segundo organizado em torno de um momento de referência pretérito ou futuro inscrito no enunciado.

O Espaço
O espaço linguístico constitui-se a partir do lugar do “eu”, isto é, do “aqui” na cena enunciativa. Na expressão linguística, as classes gramaticais que expressam esse espaço são a dos demonstrativos e a dos advérbios de lugar.

Como já vimos anteriormente, os pronomes demonstrativos podem funcionar como dêiticos ou como anafóricos (e/ou catafóricos). De acordo com os estudos gramaticais, este/ esse (e seus correspondentes) indicam o espaço da cena enunciativa, enquanto aquele indica o que se encontra fora dele, na função dêitica.

Já em função coesiva, este emprega-se como anafórico e aquele, também em função anafórica, marca o que foi dito há algum tempo ou em outro contexto. Quando devem ser retomados dois termos, este refere-se ao que foi enunciado por último e aquele ao que foi dito primeiro.

Vejamos o exemplo:
“João e José chegaram juntos. Este estava de vermelho, aquele de azul”.

Os advérbios de lugar relacionam-se à cena enunciativa, sendo que aqui e aí opõem os
espaços relacionados ao eu/tu, ao passo que ali indica o espaço fora da cena enunciativa. Já na relação cá versus lá, o primeiro marca o espaço da enunciação e o segundo, o espaço fora da cena enunciativa. Nesse sentido, acolá opõe-se a lá, distinguindo-se dois locais fora do espaço da enunciação.

Vejamos o exemplo:
“Aqui, desse lado da rua, todas as casas são brancas. Ali, do outro lado, todas as casas são azuis. Lá, na outra rua, as casas têm cores variadas”.

Como pudemos observar, a pragmática considera a língua em seu uso efetivo e, desse modo, os recursos que oferece são utilizados para a construção de sentido nos textos produzidos. Daí os critérios de categorias para efeito de análise desse objeto tão rico e produtivo que é a nossa língua portuguesa.