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Estilística: as palavras e a linguagem figurada


A linguagem figurada consiste em “desvio”, segundo a retórica, e em “alterações da linguagem”, segundo a não retórica.

Dentre as figuras consideradas de palavra, temos:

Metáfora
[...] uma comparação em que o espírito, induzido pela associação de duas representações, confunde num só termo a noção caracterizada e o objeto sensível tomado como ponto de comparação [...], segundo Bally.

Bally agrupa as expressões figuradas em três grupos: imagens concretas, sensíveis, imaginativas; imagens afetivas; imagens mortas.

Exemplos:
a) imagens concretas: “O vento engrossa sua grande voz”.
b) imagens afetivas: “O doente declina dia a dia”.
c) imagens mortas: escrúpulo, do latim scrupulu (designava uma pedrinha usada para pesar coisas pequenas; passou a designar a honestidade do negociante que não queria causar ao freguês o menor prejuízo, generalizando-se o seu sentido para o de “meticulosidade”).

Enfim, as imagens concretas são apreendidas pela imaginação, as afetivas pelo sentimento ou pelos sentidos e as mortas por uma operação intelectual [...].

Segundo Ullmann, o termo imagem é o mais geral e abrange metáfora e símile (em casos mais raros, a metonímia).

O símile se distingue da comparação gramatical, intensiva, por relacionar termos de diferentes níveis de referência, isto é, termos de natureza diferente.

Ex.: O homem era forte como um touro.

No símile, podemos ter quatro elementos explícitos: o comparado ou termo real (homem), o comparante ou termo irreal, imaginário, metafórico (touro), o análogo, que explicita o ponto comum entre os dois termos (forte) e o nexo gramatical (como).

Na linguagem falada, essas comparações intensificadoras são frequentes, por exemplo: “surdo como uma porta”; “liso como sabão” etc.

Em certas expressões, o comparante ressalta a ironia: “sutil como um elefante”. O nexo comparativo mais usual é como, mas são numerosos os torneios equivalentes, inclusive palavras nocionais como verbos, sendo alguns mais característicos da linguagem popular (que nem, feito) e outros da linguagem culta (tal, à semelhança de, análogo a).

Exemplos selecionados por Martins: “Estrondeavam pragas, qual um bafo do inferno” (José Américo, A bagaceira, p. 193). “Isso de querer-bem da gente é que nem avenca peluda, que murcha e, depois de tempo, tendo água outra vez fica verde” (Guimarães Rosa, Sagarana, p. 216). “Os olhos dela brilhavam reproduzindo folha de faca nova” (Guimarães Rosa, No Urubuquaquá, no Pinhém, p. 140).

A metáfora pode ocorrer com substantivos, adjetivos e verbos, mas a metáfora de substantivo é mais comum. Nesse tipo de metáfora, tem-se a relação entre dois substantivos (A, termo real; B, termo imaginário), entre os quais se encontram traços comuns (semelhança). Para que haja metáfora, os termos comparados devem pertencer a universos diferentes. Por exemplo, ao dizer “Jorge é um touro”, há implícita a comparação entre o homem e o animal, entre os quais é estabelecido um traço de semelhança, no caso, de forte ou de violento.

Nas metáforas lexicalizadas, mortas, o termo B substitui o termo A, com perda do teor expressivo; a metáfora torna-se um processo denominativo (catacrese) como em minhocão (elevado na cidade de São Paulo), orelhão (telefone), borboleta (catraca ou roleta dos ônibus), tartaruga (saliência nas ruas para forçar os carros a diminuírem a velocidade) etc.

No caso de metáforas de adjetivo e de verbo, estas se caracterizam pela inadequação lógica ou não pertinência ao substantivo com que se relacionam sintaticamente. São exemplos: palavras ocas, caráter reto, nota preta, mesada gorda, arrotar grandeza etc.

Na atribuição de juízos de valor, a metáfora pode ser utilizada para expressar exagero, indicando exaltação ou depreciação, e tem um papel importante na expressão da ironia.

Metonímia
Segundo Michel Le Guerri [...] é a figura pela qual uma palavra (substantivo) que designa uma realidade A é substituída por outra palavra que designa uma realidade B, em virtude de uma relação de vizinhança, de coexistência, de interdependência, que
une A e B, de fato ou no pensamento.

Vemos, portanto, que a metáfora se estabelece por semelhança, ao passo que a metonímia se dá por contiguidade. No dia a dia encontramos expressões metonímicas e nem nos damos conta desse recurso expressivo da língua. É o caso de “ter um teto para morar”, “o pão nosso de cada dia”, entre outras.

Todavia, trata-se de um recurso muito utilizado para produzir a beleza de um texto poético.

Veja os exemplos:
“Na verdade a mão escrava passava a vida limpando o que o branco sujava, ê” (A mão da limpeza, de Chico Buarque de Holanda e Gilberto Gil).

Sinédoque
É a troca de palavras com significado de diferente extensão, havendo entre elas uma relação de inclusão. A parte que na sinédoque é destacada do todo é, em geral, a que tem mais relevância no fato expresso. Assim, no exemplo abaixo, o ato de assassinar é atribuído à mão e não ao homem, porque foi com a mão que ele lhe cravou o punhal. “Ai pobre mão de loucura que mataste por amar!” (MEIRELES, 1987, p. 419).

As figuras metáfora, metonímia e sinédoque, com grande frequência, constituem uma
personificação, a qual se pode considerar como um tipo de metáfora, por ser uma alteração do traço significativo (sema) inanimado para animado, ou não humano para humano.