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Análise do conto Missa do galo, de Machado de Assis

Will Assunção

Foto: Reprodução

Um dos contos mais consagrados e misteriosos de Machado de Assis, Missado galo, publicado originalmente em 1893, consiste em uma narrativa breve, e apresenta como cenário um único ambiente – a sala de uma casa assombrada da rua do Senado, no Rio de Janeiro da segunda metade do século 19, pelos anos de 1861 ou 1862, como revela o autor – e é composto por apenas duas personagens centrais: Nogueira, um jovem estudante, que se apresenta como narrador em primeira pessoa, e Conceição, mulher casada, que cultiva a imagem de benevolente e que “não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar”.

Nogueira, ao já ter alcançado a maturidade, conta ao leitor, seduzido por inquietações do passado, uma de suas memórias da juventude, ao deixar Mangaratiba e ir morar no Rio de Janeiro, na casa do escrivão Meneses, marido de uma prima em primeira núpcia, para estudar preparatórios. O resto das poucas personagens do conto, que se resumem na figura da sogra de Meneses, duas escravas e um amigo de Nogueira, revela uma tendência constante na obra machadiana pela escolha por famílias pequenas.

A casa em que o jovem Nogueira, aos 17 anos, se hospedou durante seus estudos na capital fluminense, é descrita pelo autor como uma casa que dormia às dez e meia e era assombrada – talvez por conservar aspectos arquitetônicos do passado e manter costumes velhos ou, ainda, ao se tratar de Machado, a escolha desse adjetivo possua a intenção de retratar a natureza das pessoas e de suas relações mantidas sob aquele teto. Menezes, que saía às noites toda semana para ir ao teatro – eufemismo para cometer adultério – não mantinha em segredo as circunstâncias com todos na casa.

O hóspede, embora estivesse em período de férias, optara por ficar no Rio de Janeiro durante o Natal para assistir à missa do galo na Corte com um vizinho que iria acordá-lo para irem juntos à igreja, à meia-noite, mas até chegar a hora, Nogueira o esperaria lendo Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, na sala. Nessa mesma noite, Meneses havia marcado um encontro com a amante, e Conceição surge à presença do jovem, revelando um foco fulcral na figura da personagem feminina, descrita como santa, referência que fica evidenciada à virgem imaculada Maria da Conceição.

Ao ser questionada pelo rapaz, Conceição nega que acordou pelo barulho da sala, mas Nogueira duvida da mulher balzaquiana. Mais tarde, ainda na sala, ela mesma se contradiz ao negar que possuía o sono leve. Esta é uma das contradições encontradas na conversa entre os dois, entretanto não sabemos se a incompatibilidade dos enunciados se originou dela ou do próprio narrador. Pelo simples fato do leitor entender a natureza machadiana torna-se natural a inclinação de refutar a ideia de que a passagem fora um sonho de Nogueira antes de ser despertado pelo amigo.

A partir do diálogo permeado por tensões inerentes à psique humana, a preferência pelas descrições psicológicas em detrimento das físicas, o conto ganha corpo e manifesta uma sensualidade velada, que é perceptível nos seguintes trechos: “Já disse que ela era boa, muito boa”. E adiante com “uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima”. E reforça em outra passagem do conto: “de vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los”, num gesto que podem ser descritos como vontades latentes, escondidas e comportamentos que não eram socialmente aceitos.

Ao descrevê-la como benigna na manhã seguinte, o autor – que já é um homem maduro tratando de suas memórias – diz que, na última noite, ela fora outra mulher. Machado vai propor, ainda que sob certa medida, o niilismo moral e ético, contrapondo sagrado e profano, desejos inerentes à natureza humana e código moral, conferindo à narrativa uma profundidade literária. É de se estranhar que, logo após o único contato físico entre as personagens, Conceição “estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio”. Ora, logo é possível deduzir que o arrepio fora provocado por conflitos internos da própria Conceição, ao misturar desejo e sentimento de culpa, ao reprimir vontade, no entanto, a personagem insiste no diálogo até serem interrompidos por um barulho na janela: “Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã”.

É preciso levar em conta o contexto histórico em que se passa o conto, pois mostra um Brasil do século 18, em que o casamento é considerado uma instituição basilar da sociedade, exercendo forte influência na vida pessoal da mulher e um ditame a ser considerado na carreira profissional ou política do homem. A análise, portanto, concentra em tratar na narrativa machadiana sobre o que acontece, ou melhor, o que não acontece. No entanto, devemos nos atentar que a personagem narradora rememora os fatos de um passado longínquo e, por isso, pode ter a sua memória comprometida, como fica evidenciado em “há impressões dessa noite que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me”.

Embora o conto trate de forma discreta do tema do adultério – cometido por Meneses, e implícito inconscientemente nas atitudes de Conceição, o único contato físico nítido entre ambos foi um leve toque no ombro. A construção da narrativa envolve erotismo e sensualidade, deixando escapar muito da natureza humana, sobretudo, nas falas e gestos que podem ser encontrados nas entrelinhas do conto. O adultério também é insinuado no final da narrativa, ao mencionar o casamento dela com o escrevente juramentado do marido que falecera.

“Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera”, este trecho pode ser inferido pelo leitor como outro indício deixado por Machado de como Conceição havia mudado de postura por ter consciência de suas intenções recônditas na noite anterior.

O entendimento dos fatos fica a cargo do leitor, que deve preencher as possíveis lacunas deixadas pelo autor, tal qual ocorre em Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. A assídua presença do espírito shakespeariano na obra de Machado é um fato notório, sendo Otelo a inspiração e a chave de leitura para Dom Casmurro. Assim, há que se mencionar a obra Antônio e Cleópatra, que, segundo o crítico Harold Bloom é a “mais complexa e impressionante” representação feminina de Shakespeare, afirma Ariel Pesso. Não parece ser por acaso que Conceição é identificada com Cleópatra: “Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava Cleópatra; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres”. Outro detalhe igualmente importante que o leitor vai perceber na narrativa é o fato de que o único quadro que permanece na mente de Nogueira é, justamente, o que reflete a mulher enigmática, e isso não parece ser uma escolha inocente de Machado.