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Saussure, Skinner e Chomsky deram grandes contribuições à linguística

Alicia Ivanissevich
Três estudiosos revolucionaram o campo da linguística: o filósofo suíço Ferdinand de Saussure, o psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner e o linguista norte-americano Avram Noam Chomsky.

A linguagem é uma característica eminentemente humana: o homem é o único animal capaz de se expressar através de palavras. Até o início do século passado, acreditava-se que a língua era como um arquivo histórico, algo que pertencia ao passado. Mas no início do século 20 o filósofo suíço Ferdinand de Saussure mostrou que a língua é um sistema vivo, que está em constante transformação.

Saussure nasceu em Genebra, Suíça, em 1857. Filho de um eminente naturalista, estudou física e química, mas, como sempre se interessou pelos mistérios da língua, também fez cursos paralelos de gramática grega e latina. Acabou se convencendo de que sua vocação era mesmo estudar a linguagem e ingressou na Sociedade Linguística de Paris. Também estudou línguas europeias em Leipzig, na Alemanha, e sânscrito e gótico em Berlim.

De volta à Suíça, em 1907, foi convidado a ensinar linguística geral na Universidade de Genebra. Assim, entre 1907 e 1911, ele deu uma série de conferências naquela universidade que se tornariam lendárias. Saussure parecia não dar o devido valor a seus pensamentos e não se preocupou em publicar as novas ideias apresentadas a seus alunos. Muito provavelmente o mundo acadêmico não tomaria conhecimento de suas contribuições para o desenvolvimento da linguística não fosse a sensatez de alguns de seus ouvintes que, a partir de anotações feitas durante as aulas, imortalizaram suas ideias em um livro publicado após sua morte sob o título de “Curso de linguística geral”. Esse livro permitiu que a linguística se transformasse em uma ciência por excelência.

Mas que ideias tão revolucionárias eram essas? Saussure captou a natureza da línguagem humana como ninguém, mostrando que ela é um sistema que não só se desenrola no passado, mas que também se estende pelo presente. A língua é, portanto, um sistema vivo, em constante transformação. Além disso, Saussure mostrou que os componentes da língua não têm significado intrínseco, mas são definidos por meio de suas relações com os componentes vizinhos. Imaginemos uma moeda de R$ 1: ela não tem valor intrínseco; o valor só existe porque podemos compará-la com outros valores pelos quais a moeda pode ser trocada. Então, para Saussure, a língua funcionava por meio dessas diferenças entre os signos. Ou seja, um signo é aquilo que os outros signos não são. “O que mais conta em um signo são os outros signos que o rodeiam, mais do que uma ideia ou um som a ele associados”, diz Saussure.

Outra observação importante de Saussure foi dizer que a língua existe sob duas formas: a parole, que é a língua que se ouve na forma da fala (ou que se lê na forma da escrita) e que constitui algo individual; e a langue, que é o conjunto das regras internalizadas em uma comunidade, e que é um fato social.

Considerado o pai da linguística moderna, Saussure foi o primeiro a mostrar que a língua está presente na cultura humana desde os seus primórdios. Com ele, a linguística ganhou autonomia como ciência. Ele entendia a linguística como um ramo da ciência mais geral dos signos, e propôs que fosse chamada de Semiologia. Saussure morreu prematuramente em 1913, aos 56 anos de idade. Seu “Curso de linguística geral”, publicado em 1915, é ainda hoje leitura obrigatória para todos os estudantes e pesquisadores de linguística.

A partir de Saussure, muitos estudos foram feitos para tentar entender o funcionamento das línguas. Ocorreram muitos debates ao longo do século 20 e diversos pontos de vista foram propostos, alguns muito contestados. Em meados do século passado, uma obra de impacto, hoje considerada ultrapassada, foi o livro “Comportamento verbal”, lançado em 1957 pelo psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner, nascido em Susquehanna, na Pensilvânia, em 1904.

Nesse livro, Skinner apresentou sua visão behaviorista da língua. Na época, o behaviorismo era a corrente mais promissora e popular no campo da psicologia, e dizia que o comportamento resulta de reflexos condicionados – simples respostas mecânicas – induzidos por certos estímulos vindos do mundo exterior. Nessa linha de pensamento, Skinner fez experiências com ratos, cães e pombos, mostrando que qualquer truque pode ser ensinado a eles, desde que recebam recompensas ou castigos adequados. Assim, para ele, a introdução dessa visão behaviorista na linguística era um passo lógico, considerando que a linguagem faz parte da psicologia humana.

A partir de seus experimentos, Skinner deduziu que as crianças aprendem a falar do mesmo modo que os pombos aprendem a dar bicadas em alimentos. Assim como os ratos são capazes de aprender truques, as crianças também podem aprender qualquer expressão. Seria tudo questão de recompensa ou castigo para consolidar os hábitos desejáveis de usar certas expressões em determinadas situações.

Para Skinner, a linguagem é adquirida e, portanto, nesse processo de aprendizagem da língua, os adultos – pais e professores – têm o papel de interagir com as crianças, de ensiná-las a dominar a língua.

Mas, infelizmente, por mais elegante que possa parecer esse modelo, ele era simplista demais para ser tomado como verdade. Hoje, linguistas concordam que a linguagem é uma gramática mental inata, e não um comportamento decorrente da aprendizagem. Essa foi a principal crítica feita por Avram Noam Chomsky às ideias de Skinner.

Em 1957, Noam Chomsky publicou o livro “Estruturas sintáticas”, em que criticava fortemente as ideias de Skinner. Segundo Chomsky, o behaviorismo era inadequado para descrever como as crianças aprendem a falar. Ele argumentava que o aprendizado da fala não pode ser apenas produto de observação e repetição da fala dos pais, mas sim resultado das estruturas da mente que permitem o surgimento espontâneo da fala e a produção criativa de expressões nunca ouvidas ou repetidas anteriormente.

Segundo Chomsky, graças à criatividade, falantes de qualquer língua podem produzir um número infinito de frases, muitas das quais nunca tinham sido ouvidas antes. Se as pessoas tentassem aprender uma língua consolidando em seu dia a dia, frases dedicadas a situações específicas teriam que dispor de uma tremenda memória, que acomodasse bilhões, ou melhor, um número literalmente infinito de frases. Essa nova visão da língua foi revolucionária para a época.

Chomsky nasceu na Filadélfia, Estados Unidos, em 1928. Em 1945 começou a estudar filosofia e linguística na Universidade da Pensilvânia, onde também fez seu doutorado dez anos depois. Mas foi nos anos anteriores, em Harvard, que ele desenvolveu a maior parte de sua pesquisa. A sua tese de doutorado, um trabalho de mais de mil páginas, apresentava suas ideias originais sobre linguística e suas críticas à teoria de Skinner. Uma versão resumida da tese foi publicada como livro em 1957, com o título “Estruturas sintáticas”, por uma editora holandesa pouco conhecida na época.

Como o próprio Chomsky admitiu, os linguistas não teriam reparado no livro não fosse uma resenha laudatória do linguista americano Robert Lees. Foi então que o mundo acadêmico prestou atenção à importância da obra. Nela, Chomsky mostrava que a aquisição da linguagem não é um simples processo de repetição e reforço, como pregava Skinner. Chomsky dizia que os falantes podem produzir um número infinito de frases dispondo de um repositório finito de regras gramaticais. Só que, apesar do tamanho controlável dessa gramática, sua estrutura é de tal forma complexa e sutil que, para aprendê-la, é preciso algo mais que inteligência.

Embora incapaz de indicar esse “algo mais” com precisão ou localizá-lo no cérebro, Chomsky postulou que as pessoas devem nascer com um conhecimento preliminar de regras gramaticais. Sendo parte de nossa constituição genética, tal conhecimento ainda não contém regras completas do português ou do sueco, por exemplo, mas serve de base para que a criança desenvolva sua capacidade de falar apenas ouvindo a fala ao seu redor.

Para compreender a ideia dessa ‘gramática universal’, podemos imaginá-la como se ela fosse um livro de colorir que é idêntico em todos os países, mas preenchido com cores diferentes por crianças das várias partes do mundo. Em outras palavras, são mínimas as diferenças entre as línguas, assim como as diferenças de cores usadas em dois exemplares de um livro colorido. Resumindo, Chomsky sugeriu que a capacidade de produzir e estruturar frases é inata ao ser humano, isto é, faz parte do patrimônio genético dos seres humanos.

Desde que se doutourou em 1955, Chomsky trabalha no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachussets, lecionando na cátedra de línguas modernas e linguística. Durante todo esse tempo, ele continuou a pesquisar, a escrever e a ensinar, contribuindo regularmente com novas propostas teóricas que virtualmente definiram os problemas e questões centrais da investigação linguística nas últimas décadas.

Ele também ficou bastante conhecido por sua ideologia política: protestou ativamente contra o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e declarou-se a favor do socialismo libertário, o que lhe rendeu inúmeros seguidores. Ele se define politicamente como um anarquista, embora já tenha apoiado candidatos a cargos públicos e tenha por vezes aceitado colaborar com o Estado.

Atualmente, boa parte dos linguistas faz pesquisas que tentam consolidar a ideia da gramática universal determinada geneticamente; o que para alguns indecisos é uma grande especulação. Apesar de várias modificações feitas na versão original da teoria de Chomsky da gramática gerativo-transformacional (nome sob o qual ficou conhecida), os estudos feitos até agora mostram que Chomsky acertou em cheio. Ele é hoje, sem dúvida, um dos mais importantes intelectuais vivos.

A pesquisa atual concentra-se em desvendar a constituição da gramática da língua humana. Com a contribuição de Chomsky, parece que a tarefa de encontrar um denominador comum a todas as línguas não é uma missão impossível.

Alicia Ivanissevich é formada em Comunicação Social pela UFRJ, com especialização em Jornalismo Científico pelo Wellcome Centre for Medical Sciences, de Londres. É vencedora do Prêmio José Reis de Jornalismo Científico de 2008, editora executiva da revista "Ciência Hoje" e editora-chefe do "Globo Ciência".