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‘Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo’

Editorial de Arte da JUP

Em 2018, o evento trágico de 24 de Novembro, como Will Assunção cognominou a tragédia marcada por uma série de ataques, que deixou quatro pessoas mortas e outras três feridas em Jussiape, em seu artigo científico, dedicado ao jornalismo, de pós-graduação em Comunicação, completa seis anos.

A fatalidade ficou cravejada como um trauma coletivo na população. Não apenas padeceram de enorme sofrimento os familiares das vítimas, mas todos aqueles que receberam o impacto da notícia sobre o ocorrido. Amigos, conhecidos, colegas, opositores, admiradores e seguidores; sem distinção, o fato atingiu a todos. No entanto, não nos cabe tentar mensurar a dor sentida por cada um ou comparar o sofrimento de quem perdeu um pai, uma mãe ou um amigo.

Uma postura desatenta, movida pelo senso comum, ainda paira sobre aqueles que desejam esquecer o ocorrido e tentar enterrar o fato, na tentativa de sanar o sofrimento causado pela perda das vidas no atentado. Outros, no entanto, se despem do pouco de humanidade que ainda lhes restou e se sujeitam a julgar, sem nenhum respeito à dignidade humana, as vítimas.

Hanna Arendt, uma filósofa do século 20, com premissa do pensamento político, defende que a maldade é forjada nas fendas mais profundas da banalidade. Diferente da bondade, a maldade pode se manifestar como algo que não seja extraordinário, mas é um ato de natureza comum, corriqueira e banal.

George Santayana, pseudônimo de Jorge Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás, filósofo, poeta e ensaísta espanhol, disse que “aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. O aforismo aparece em A Vida da Razão, livro publicado em 1905, mais precisamente no volume 1, no capítulo 12, e serve para ilustrar como a história da humanidade é uma história de horror.

Muitos preconizam que o Mein Kampf (Minha Luta em tradução para o português), livro de autoria de Adolf Hitler, no qual o Führer expressou ideias antissemitas, racialistas e nacional-socialistas de extrema direita, adotadas pelo partido nazista, deveria ser extinto e proibido ao público. Um pensamento equivocado e descuidado, já que proíbe o acesso a um documento histórico e cultural – atitude que uma sociedade democrática jamais deveria cogitar, mesmo que o conteúdo da publicação seja horrendo e atroz, como é a obra de Hitler, banida em 1945.

A censura a Minha Luta e a tentativa de apagamento ou a imposição de opacidade ao 24 de Novembro não é apenas questionável, mas ineficiente. O esforço de tentar esquecer os fatos do passado não é a melhor forma de combater ideias desumanas ou diminuir a dor. Os acontecimentos que fizeram história precisam ser debatidos, analisadas e, se necessário, combatidos com consciência.

O legado jornalístico da Jussi Up e o artigo científico escrito por Will Assunção, que à época era assessor de imprensa do prefeito eleito Procópio Alencar, reúne uma série de conteúdos – textos, fotografia e vídeo – com valor inestimável para a pesquisa em história do município. Renunciar ao jornalismo é tentar negar a História.

Uma justificativa célebre para essa primazia é a de que impedir um cidadão adulto de se informar sobre história ou sobre ideias políticas consideradas perigosas é uma forma de tutelá-lo – e, portanto, de minar as bases da democracia. O leitor não pode ser tratado como um parvo, incapaz de tirar suas próprias conclusões sobre aquilo que houve no passado, e que por isso não pode ser exposto aos documentos históricos.

Jornalismo é jornalismo. A função do jornalismo – ao que neste quesito se assemelha a do museu – é exatamente tratar daquilo que ninguém tem coragem, por mais dolorosa que seja a memória dos fatos. É necessário aprender com o passado para não cometermos os mesmos erros no futuro, confirmaria uma máxima já puída entre nós.

A tragédia, como um acontecimento factual, deve ser tratada com cuidado e respeito, como foi feito pela Jussi Up. Não podemos de nenhum modo esquecê-la, pois a humanidade precisa estar sempre atenta à própria capacidade destrutiva, fincaria Arthur Schopenhauer, filósofo pessimista do século 18 que se dedicou à natureza humana. Por outro lado, o papel do jornalismo não se resume a elucidar crimes. Mas tratar dos fatos, expor à sociedade o verossímil que circunda o factual. A imprensa não toca na banda, mas vê a banda passar, já proclamaria o jornalista Joel Silveira.