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Um recado à geração que ocupa um espaço que já foi meu

Foto: Editoria de Arte da Jussi Up Press

É bem verdade que quando eu vejo vocês reunidos em uma das escadarias da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Saúde, no centro de Jussiape, eu sinto uma pontinha de desafeto desajustado, sustentado pela mera impressão de que estão tomando conta de um cantinho que outrora pertencera a mim e a meus amigos, em um passado recente.

Por outro lado, eu sinto vontade de me juntar a vocês para saber da resenha palpitante do momento (essa gíria ainda está em voga entre os jovens daqui?) ou da última novidade da semana. Em um passado não tão distante, nós nos reuníamos à noite, como vocês, mas com o privilégio de contar com a companhia de Roca – ainda solteiro –, ostentando a imagem de guardião da memória de Jussiape; ele fora uma personagem notívaga, que nos proporcionava debulhar em conversas densas, repletas de descontração, fantasia e irreverência.

Era um tempo em que não havia internet. Não dispúnhamos de WhatsApp nem Instagram ou Facebook, no entanto, o Orkut já começava a dar seus primeiros passos entre nós, ainda que o acesso à rede fosse muito difícil. Para comunicarmos uns com os outros, nós teríamos que contar com a sorte de nos encontrar tête-à-tête na rua. Hoje é inconcebível imaginar qualquer cenário sem a comunicação instantânea ou interferência do celular, proporcionada pela tecnologia.

Os anos 00 foram incríveis ao seu modo. Mas esqueça os serviços de streaming, spotify ou iTunes. Antes costumávamos ouvir Coldplay, Radiohead, Red Hot, MGMT, enquanto houvesse carga suficiente na bateria do nosso mp3 ou em um celular com luminosidade limitada e disponibilidade de poucas cores no visor, e que fazia o grande feito de enviar torpedos por um preço considerado caro à época.

Aprontamos muito também. De um suposto show de rock em frente à igreja, banhado a vinho tinto barato, a farsa de nos passar por agentes da Polícia Federal e chegarmos ao ponto de bater, às 23h, na porta de uma rádio só para ver o desespero de todos.

Hoje, vocês, da Geração Z, ocupam não apenas um espaço físico, mas um espaço social, que há pouco tempo nos pertencia – quando ainda éramos jovens. Os primeiros millennials da Geração Y, a qual pertenço estão envelhecendo. No entanto, vocês da Geração Z, nascidos no século 21, representarão 32% da população mundial em 2019, superando a geração dos millennials, que responderá por 31,5%. As estatísticas são baseadas em dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Os nascidos em 2001 completam 18 anos em 2019, o que significa que muitos entrarão na universidade, poderão votar e, dependendo de onde moram, fumar ou consumir álcool legalmente – o que para nós representava um anseio incontido poder imaginar ser maior de idade e poder fazer todas essas coisas de adulto. Mas diferente de nós, vocês não conhecem um mundo que não seja digital.

Uma pesquisa com jovens, feita pela Deloitte Touche Tohmatsu, revela que a Geração Z espera ser um pouco mais feliz do que nós, millennials. Eu explico isso em outro artigo ao falar das nossas angústias, as quais vocês estarão livres.

Foto: Editoria de Arte da Jussi Up Press

Nós tínhamos que sonhar sem o aporte tecnológico que vocês possuem hoje – era calçada, música, estrelas e sonhos, e, às vezes, uma garrafa de vinho ou vodca, mas acho que este último quesito não mudou muito. Hoje, todas as facilidades disponíveis em um mundo onde é possível dar match e encontrar alguém legal não existiam no meu mundo de adolescente. Não carregávamos internet no bolso. Andávamos em tribos para nos sentir iguais e aceitos do jeito que pensávamos e agíamos. E nem sempre isso era fácil – acredito que para quem passou a maior parte ou toda a adolescência no interior, a coisa não tenha sido moleza.

Em 2018, minha geração já chegou aos 30 ou já beira essa idade. Muitos de nós já se formaram ou possuem uma profissão. Alguns já estão casados, inclusive, e já constituíram uma família. Todavia, a escadaria continua lá para servir de prova que o tempo passa. A escadaria que já foi minha, hoje pertence muito mais a vocês.