Header Ads

LightBlog

O estruturalismo de Saussure

Saussure afirmava que “o ponto de vista cria o objeto”. Portanto, prossiga a leitura considerando tratar-se aqui de “um ponto de vista” sobre o objeto. Um ponto de vista que analisa e interpreta seu objeto de estudo a partir de considerações científicas.

Afirma Martinet, ao contrapor a ciência linguística à gramática normativa:

A linguística é o estudo científico da linguagem humana. Diz-se que um estudo é científico quando se baseia na observação dos fatos e se abstém de propor qualquer escolha entre tais fatos, em nome de certos princípios estéticos ou morais. “Científico” opõe-se, portanto, a “prescritivo”.

Com isso em mente, é importante reconhecer que a principal característica do estruturalismo, ou abordagem estrutural da língua, é a definição de língua como um “sistema de relações”. Isso significa que todas as línguas são constituídas por elementos linguísticos, por exemplo, fonemas e morfemas.

Esses elementos constituem subsistemas da língua, ou seja, são conjuntos organizados de elementos linguísticos. Conjuntos organizados porque os elementos de cada subsistema são inter-relacionados (conforme a definição de sistema vista anteriormente).

A organização diz respeito à inter-relação entre os vários elementos daquele conjunto.

Os subsistemas da língua, por sua vez, são inter-relacionados entre si, constituindo um conjunto organizado de subsistemas da língua, que constitui o “sistema linguístico”.

Consideremos o que segue:
fonemas: sons específicos de uma língua. Exemplo de fonema: /o/, /f/;

morfemas: menores elementos da língua com significado – uma palavra ou parte de uma palavra. Exemplo: flor, florido, florescer;

conjunto organizado de fonemas: sistema fonológico – subsistema da língua;

conjunto organizado de morfemas: sistema morfológico – subsistema da língua;

o conjunto organizado de subsistemas: sistema linguístico – língua.

O que regula o funcionamento das unidades que compõem o sistema linguístico são normas que internalizamos muito cedo e que começam a se manifestar na fase de aquisição da linguagem. Trata-se de um conhecimento adquirido no social, na relação que mantemos com o grupo de falantes do qual fazemos parte. (...) O sistema fonológico de uma língua pode ser expresso não a partir de uma substância sonora, mas, por exemplo, a partir de sensações visuais (movimento dos lábios). (...) A substância não determina de modo algum as regras do jogo linguístico, que são independentes do suporte físico – som, movimento labial, gestos etc. – em que se realizam, aponta Costa.

Os conceitos dicotômicos em Saussure
Antes de iniciarmos as discussões sobre as dicotomias saussureanas, focalizamos o conceito de signo linguístico, pois é a partir de sua compreensão que todos os demais conceitos poderão ser melhor compreendidos, inclusive as dicotomias.

O signo linguístico
Para Saussure, a língua é um sistema de signos. Não se esqueça de que por sistema entendemos um conjunto organizado de elementos que estabelecem relações entre si, caracterizadas pela interdependência. Nesse sentido, Saussure considera a língua um conjunto organizado de signos linguísticos. Mas o que são, efetivamente, esses signos linguísticos? Vejamos:

Signo linguístico: um objeto linguístico dotado simultaneamente de forma e sentido, segundo Track. Essencialmente psíquicos, não são abstrações; o signo – ou unidade – linguístico é uma entidade dupla, produto da aproximação de dois termos, ambos psíquicos e unidos pelo laço da associação; une, com efeito, não uma coisa a um nome, mas um conceito a uma imagem acústica, descreve Dubois.

IMPORTANTE
Atenção! Signo não é palavra. Para entender melhor a teoria dos signos, vamos iniciar retomando o que afirma a Semiótica (ou Semiologia) sobre signos. Ela faz distinção entre dois tipos de signos: os denominados naturais e os denominados convencionais.

Um signo natural pode ser, por exemplo, a fumaça de uma fogueira feita no meio da selva para indicar que um grupo de escoteiros está naquele local, ou o cheiro de um churrasco, as passadas de alguém na neve etc. O que caracteriza um signo natural é, na verdade, o indício de que existe uma determinada coisa conhecida em um dado contexto. Já os signos denominados convencionais são mais complexos porque estão relacionados à cultura de um povo. Esses signos têm características relacionadas ao contexto antropológico e são, a um só tempo, produto e instrumento da ação do homem no contexto.

Saussure preferiu adotar a palavra signo e não símbolo linguístico por acreditar que o símbolo tem como característica não ser jamais completamente arbitrário; ele não está vazio (...). O símbolo da justiça, a balança, não poderia ser substituído por um objeto qualquer, um carro, por exemplo.

Para entender melhor como Saussure trabalhou e pensou os signos linguísticos, precisamos conhecer as característica do signo e a forma como Saussure as definiu. Também a partir daqui podemos apontar como significativos os conceitos dicotômicos, presentes na teoria de Saussure.

Conceitos dicotômicos são os conceitos linguísticos que podem ser definidos de forma independente, porém são complementares ou interdependentes entre si. Pressupomos, neste momento, que você já tenha feito sua excursão pela internet e já tenha se apropriado do significado de termos como dicotomia. Vamos, então, avançar nessa discussão. Há quatro dicotomias na teoria saussureana: significado x significante, língua x fala, sincronia x diacronia e paradigma x sintagma.

Significado e significante/arbitrariedade e linearidade do signo linguístico
Considerando a noção de signo, como proposta, vejamos as considerações de Saussure sobre ela: a imagem acústica em um dado signo foi denominada significante e o conceito, significado. Importante saber, ainda, que Saussure enfatiza que a imagem acústica não pode ser confundida com o som; ela é psíquica e não física. Ela é a imagem que fazemos do som em nosso cérebro.

Lembre-se ainda: o significado e o significante estão em nosso cérebro, onde um se une ao outro. Dessa união resulta o signo linguístico. O signo linguístico é da língua, é da coletividade, e será transformado em som quando tiver início o processo de produção vocal (nas pregas vocais – como será visto adiante).

Significante [flor] (imagem acústica que está em nossa mente).

Signo “flor”

Significado (conceito: o que é uma flor? O que a caracteriza? Que propriedades ela tem? etc.).

Se esses conceitos parecem, em princípio, difíceis de entender, convém lembrar, mais uma vez, que se trata de um ponto de vista sobre a linguagem, do ponto de vista de Saussure e daqueles que compartilham desse pensamento estruturalista. Visto dessa forma, como uma verdade possível dentro da ciência linguística, fica mais fácil sua compreensão.

Significado
= conceito

Significante
= imagem acústica

Signo Linguístico
O signo linguístico é a associação entre significado e significante. Não existe signo linguístico sem significado. Não existe signo linguístico sem significante. Na constituição do signo linguístico, o significado e o significante são como as duas faces de uma moeda: não é possível separar a cara da coroa.

Significado e significante são interdependentes e complementares. Interdependentes, pois um está associado ao outro para a constituição do signo linguístico. Complementares, pois a definição do signo depende da definição de cada um deles – significado e significante. Logo, significado e significante são conceitos dicotômicos.

No entanto, é importante salientar que a dicotomia estabelecida é diferente em cada caso:

- em relação à sincronia e à diacronia, a interdependência e a complementaridade referem-se ao fato de que a diacronia da língua é constituída de diferentes estados sincrônicos que se sucedem no tempo; a sincronia, por sua vez, é o resultado das transformações diacrônicas;

- em relação à língua e à fala, a interdependência e a complementaridade dizem da possibilidade de realização de cada um desses elementos;

- em relação ao significado e ao significante, a interdependência e a complementaridade dizem da constituição do signo linguístico.

Língua/fala e linguagem
Retomando o que foi exposto na unidade anterior, mais especificamente, ao tratar da prioridade da língua sobre a fala nos estudos da ciência linguística, a linguagem é constituída de duas partes: a língua e a fala.

Na abordagem estrutural, a linguagem é vista como uma faculdade do ser humano, uma atividade mental complexa, que envolve múltiplos fatores. Tem início em uma intenção de falar, que leva o sistema nervoso central a emitir comandos para várias áreas distintas, envolvendo músculos, nervos e órgãos diversos, que participarão desde a escolha do idioma a ser utilizado, em função do ouvinte, a alterações na inspiração do ar pelo falante e no posicionamento dos órgãos envolvidos na articulação dos sons.

Esses sons serão levados para o ouvinte através das ondas sonoras. Isso tudo ocorre considerando-se o falante e não o processo de decodificação da mensagem que envolve o ouvinte. Parafraseando Saussure, pode-se dizer que: o ponto de partida do circuito de comunicação situa-se no cérebro da loirinha, considerando que ela começou a falar. Em seu cérebro, ela codifica a mensagem. Esse fenômeno é inteiramente psíquico, seguido, por sua vez, de um processo fisiológico, aponta Saussure.

Ou seja, o cérebro transmite aos órgãos da fonação um comando para que eles se preparem para a emissão da mensagem, a articulação. A mensagem articulada (falada) vai da boca da moça até o ouvido do rapaz por meio de ondas sonoras (processo físico). A mensagem, ao ser captada pelo ouvido do rapaz (ouvinte), é encaminhada para seu sistema nervoso central – cérebro do ouvinte (transmissão fisiológica), onde será decodificada (processo psíquico). Se o rapaz responder à loirinha, o circuito todo se repete.

Observe o esquema da comunicação humana, apresentado por Saussure:

A língua é o resultado da transformação da mensagem em um código. Codificar a mensagem significa transformar a mensagem em um código que seja comum aos dois, falante e ouvinte, de modo que a mensagem transmitida por um seja compreendida pelo outro. O processo psíquico de codificação é individual, porém, o código será o mesmo para o falante e o ouvinte para que a comunicação possa acontecer. O ouvinte vai decodificar a mensagem, ou seja, compreendê-la se, e somente se, tiver conhecimento desse código usado pelo falante. Logo, o código é comum aos dois. Em outras palavras, “a língua é uma convenção”, segundo Saussure.

O código pertence ao coletivo. É social. A fala é a execução do processo psíquico. O processo fisiológico diz respeito aos comandos emitidos pelo cérebro que fazem com que a mensagem seja articulada, produzida, de uma ou outra forma, dependendo de fatores emocionais, físicos ou sociais envolvidos. A execução do processo psíquico e do processo fisiológico é particular de cada indivíduo. A fala é individual.

A língua, ou o código, não sofre interferência de fatores não linguísticos. Podemos notar, assim, que à língua está sendo atribuída à função de assegurar a comunicação entre as pessoas. E mais: que a comunicação é a função principal da língua. Isso justifica a língua ser tanto a parte essencial da linguística quanto seu objeto de estudo prioritário.

Se um falante estiver acamado e fraco com uma gripe muito forte, poderá falar mais devagar, sem muita força, com a voz nasalizada. Mesmo assim, pelo fato de usar o mesmo código linguístico, ou a mesma língua, será compreendido pelo ouvinte. A comunicação, dessa forma, será possível.

Língua e fala são conceitos dicotômicos, pois esses dois objetos, embora apresentem características diferentes, estão estreitamente ligados e se implicam mutuamente, são interdependentes.

A língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; a fala é necessária para que a língua se estabeleça.